Jogos históricos

Em 1997, a favorita Juventus perdeu a chance do bi europeu contra o Borussia Dortmund

Itália e Alemanha têm uma rivalidade de longa data, que sempre respingou no futebol. Nos anos 1990, Juventus e Milan se encontravam no pelotão dos times mais vencedores do continente naquele período, enquanto os alemães passavam pela consolidação do processo de reunificação do país: na Bundesliga, o Bayern Munique não era tão dominante quanto em outros tempos e o Borussia Dortmund aparecia como seu maior rival. Internacionalmente, a equipe aurinegra dava o ar de sua graça e chegou a ocupar o posto de antagonista da Juve em partidas importantes. A rixa teve o seu auge na decisão da Champions League 1996-97.

Juventus e Borussia Dortmund fizeram sete duelos na década de 1990. Por terem dois dos elencos mais fortes do mundo, os embates pelas copas continentais foram sempre equilibrados – com a exceção dos primeiros, na decisão da Copa Uefa de 1993, vencida pelo time italiano com um placar agregado de 6 a 1. Até a final da Liga dos Campeões, em 1997, o retrospecto do decênio era de quatro vitórias dos bianconeri, um empate e um triunfo borussiano.

Naquela Champions League, o Dortmund visava quebrar balançar essa hegemonia contra uma Juve que buscava o bicampeonato da competição – em 1996, vencera o Ajax, na final. Mandante na decisão, o time treinado por Ottmar Hitzfeld foi campeão da Bundesliga em 1995-96, superando o Bayern Munique por seis pontos, e era o único representante do seu país no torneio.

Durante todo o primeiro tempo da final, o Dortmund tentou incomodar a Juventus com bolas alçadas à área (imago/Frinke)

A equipe da Westfália caiu no Grupo B, com Atlético de Madrid, Widzew Lódz e Steaua Bucareste: fez 13 pontos e se classificou em segundo, atrás do Atleti. Nas quartas de final, o BVB enfrentou o Auxerre e, com um placar agregado de 4 a 1, avançou às semis – fase que não alcançava desde 1964. O Dortmund eliminou o temido Manchester United com duas vitórias por 1 a 0 e, pela primeira vez em sua história, chegou à final da maior competição da Uefa.

Por sua vez, a Juventus tinha sido vice-campeã da Serie A na temporada anterior e conquistara o direito de disputar a Liga dos Campeões por conta do seu segundo título na competição continental, obtido sobre o Ajax. Detentora da orelhuda, a equipe treinada por Marcello Lippi integrou o Grupo C, juntamente a Manchester United, Fenerbahçe e Rapid Wien. Venceu cinco dos seis jogos e, por causa do empate contra o time austríaco, somou 16 pontos.

Na época, a Champions League só tinha quatro grupos e a fase de mata-matas se iniciava nas quartas de final. Nela, o time bianconero eliminou o Rosenborg, com um agregado de 3 a 1; nas semifinais, a Juve sobrou contra o Ajax e avançou à decisão com vitórias por 2 a 1 e 4 a 1. O time de Lippi chegava à finalíssima com o intuito de atingir o bicampeonato europeu e coroar uma temporada em que já havia se sagrado campeão italiano e da Supercopa Uefa.

O Olympiastadion, em Munique, receberia vários remanescentes da decisão da Copa Uefa de 1993. A começar pelo árbitro húngaro Sándor Puhl, que fez um bom trabalho no jogo de ida e, por sua regularidade, apitou também a final da Copa do Mundo de 1994, entre Brasil e Itália. Pelo lado juventino, só Angelo Peruzzi entrou em campo na partida, mas Michelangelo Rampulla, Moreno Torricelli e Antonio Conte continuavam a fazer parte do grupo.

Zidane, de um lado, e Möller, do outro, eram os destaques dos times na criação de jogadas (imago)

No estafe alemão, a lista de velhos conhecidos era bem maior: Stefan Klos, Stéphane Chapuisat, René Tretschok, Michael Zorc e Stefan Reuter já defendiam os borussianos em 1993. Ademais, Andreas Möller, Jürgen Kohler e o brasileiro Júlio César jogaram aquelas finais com a camisa bianconera – para completar, Reuter e o português Paulo Sousa também tinham passagem pela Velha Senhora. Em suma, cada um dos concorrentes sabia quais eram as cartas de seu adversário.

Naquele 28 de maio de 1997, o Dortmund foi a campo com uma formação cautelosa, seguindo os preceitos de Hitzfeld. A forte defesa, com o veterano Martin Kree e dois zagueiros de boa qualidade técnica – Kohler e Matthias Sammer – era coberta pelos lados por Reuter e Jörg Heinrich. No 5-3-2 borussiano, Paulo Sousa e Paul Lambert atuavam como volantes, enquanto Möller organizava o jogo para Chapuisat e Karl-Heinz Riedle.

Favorita, a Juventus ia a campo com uma linha de quatro defensores, típica dos trabalhos de Lippi: a meta de Peruzzi era defendida por Sergio Porrini, Ciro Ferrara, Paolo Montero e Mark Iuliano. No meio-campo, Angelo Di Livio, Didier Deschamps e Vladimir Jugovic davam suporte a Zinédine Zidane, mais avançado. Christian Vieri e Alen Boksic formavam a dupla de ataque.

A Juventus começou em cima e, nos minutos iniciais, reclamou de um pênalti de Reuter em Jugovic, mas o árbitro mandou o jogo seguir. Vieri, que havia cruzado para o iugoslavo, apareceu na sequência e finalizou à direita do gol de Klos. A equipe bianconera parecia perto de abrir o placar e controlava as ações, martelando com Zidane e Di Livio. Porém, a defesa alemã era hábil em afastar as jogadas juventinas. Ademais, havia um carrasco do outro lado – e ele não perdoaria.

Algoz juventino, Riedle marcou dois gols de centroavante nato (imago)

Aos 29 minutos, Möller cobrou escanteio, a defesa da Juventus afastou e a bola caiu nos pés de Lambert, que voltou a cruzar a pelota na área. Porrini não conseguiu cortar, Riedle dominou no peito e fuzilou, abrindo o placar. Ex-atacante da Lazio, Kalle era vezeiro em marcar contra a Juve: em três anos de militância pela equipe celeste, castigou a Velha Senhora em quatro ocasiões.

Riedle não pararia por ali. Cinco minutos depois, num escanteio conseguido por Chapuisat, Möller foi perfeito: cruzou na cabeça do camisa 13, que ganhou de Ferrara no alto e testou com violência, estufando as redes de Peruzzi mais uma vez. Mesmo baqueada, a Juventus tentou reagir e mandou no jogo até o fim do primeiro tempo. A pressão bianconera resultou num chute rasteiro de Zidane, que beijou a trave, e num gol anulado de Vieri, depois de um toque na mão dentro da área.

Lippi voltou para o segundo tempo com uma mudança: o jovem camisa 10 Alessandro Del Piero substituiu Porrini. A mudança fez com que Ferrara fosse movido para a lateral direita, Iuliano atuasse no centro da zaga e Di Livio passasse à lateral esquerda. No novo 4-3-3 juventino, Delpi foi atuar aberto pelo lado canhoto do ataque. O Dortmund começou a assustar em contra-ataques, enquanto a Juve seguia pressionando.

Na pressão italiana, Jugovic chutou forte, de fora da área, e fez o goleiro Klos se esticar todo para mandar a bola para escanteio. Na sequência, aos 55, Vieri acertou o travessão com um chute desviado pela defesa – e ainda conseguiu o escanteio, visto que o goleiro alemão tocou na pelota antes que ela encontrar o poste. Lippi pediu para que os seus jogadores de frente passassem a mudar de posição com frequência e atacassem os espaços que lhes fossem oferecidos. Isso confundiu a marcação e, numa caída de Boksic pela esquerda, saiu o gol: aos 65, o croata cruzou rasteiro e Del Piero, de letra, diminuiu.

Del Piero entrou no segundo tempo e marcou um bonito gol, mas não conseguiu reverter o placar para a Juve (imago/WEREK)

O gol parecia colocar o time italiano de volta na partida. Porém, Hitzfeld trocou Riedle (machucado) por Heiko Herrlich e Chapuisat pelo jovem meia-atacante Lars Ricken. Com apenas 14 segundos em campo, o garoto recebeu de Möller, em contragolpe, e, do meio da rua, encobriu Peruzzi, assinando uma pintura, aos 71 minutos. Após o jogo, Ricken declarou que estava atento ao jogo e via que Peruzzi costumava ficar adiantado, de modo que já sabia o que fazer quando tocasse na bola.

O gol do 3 a 1 foi um verdadeiro balde de água fria jogado sobre a Juventus. Dali até o fim do jogo, nada de mais relevante ocorreu – nem quando Lippi tentou mudar o panorama com Nicola Amoruso e Alessio Tacchinardi nos postos de Vieri e Boksic, respectivamente. Bem postado defensivamente, o time alemão cozinhou o restante da partida e conquistou o primeiro título continental de um clube alemão após a reunificação da Alemanha – de quebra, o fez no estádio do Bayern Munique, maior clube do país. Um roteiro perfeito para um clube que sofreu muito com problemas financeiros e que confiou no duradouro trabalho de Hitzfeld, que treinava o time desde 1991.

O primeiro título europeu da história do clube fez com que Hitzfeld recebesse dois prêmios de melhor técnico do ano – o da revista World Soccer e o da Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFHHS). O treinador voltou a levantar a orelhuda em 2001, pelo Bayern Munique e, antes disso, o Dortmund se sagrou campeão mundial, ainda em 1997. Sob as ordens do italiano Nevio Scala, o time alemão bateu o Cruzeiro por 2 a 0, com gols marcados por Zorc e Heinrich. Já a Juve, mais de 20 anos depois, continua tentando voltar ao topo da Europa e do mundo.

Borussia Dortmund 3-1 Juventus

Borussia Dortmund: Klos; Kree, Sammer, Kohler; Reuter, Lambert, Paulo Sousa, Heinrich; Möller (Zorc); Chapuisat (Ricken), Riedle (Herrlich). Técnico: Ottmar Hitzfeld.
Juventus: Peruzzi; Porrini (Del Piero), Ferrara, Montero, Iuliano; Di Livio, Deschamps, Jugovic; Zidane; Vieri (Amoruso), Boksic (Tacchinardi). Técnico: Marcelo Lippi.
Gols: Riedle (29′ e 34′) e Ricken (71′); Del Piero (65′)
Cartões amarelos: Paulo Sousa e Ricken; Porrini e Iuliano
Árbitro: Sándor Puhl (Hungria)
Local e data: Olympiastadion, Munique (Alemanha), em 28 de maio de 1997

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