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Gian Piero Galeazzi, o ‘Bisteccone’, foi uma das caras da Rai por décadas

Se você já assistiu a um vídeo do YouTube com melhores momentos de jogos da Serie A exibidos pela Rai na década de 1980, você certamente conhece a figura de Gian Piero Galeazzi – grafado, muitas vezes, “Giampiero”. Por muitos anos, o repórter foi o responsável pelas coberturas das principais partidas do futebol italiano e se tornou um ícone da crônica esportiva no país. Trazendo-o para o contexto brasileiro, seria um misto de Galvão Bueno e Márcio Canuto.

Nascido em Roma, em 1946, o jornalista teve uma grande influência para se dedicar ao esporte: seu pai. Rino Galeazzi foi um remador de sucesso em nível europeu e fez o filho se apaixonar pela modalidade. Gian Piero também se dedicou ao remo e foi campeão italiano das categorias single skiff e double scull. Como atleta, chegou a ser patrocinado pela Fiat e, por ser diplomado em economia e estatística, ganhou também um cargo no departamento de marketing e publicidade da montadora.

Galeazzi não suportava as baixas temperaturas e o tempo nublado, de modo que ficou pouco tempo no escritório da Fiat na capital do Piemonte, região em que seu pai nascera. De volta a Roma, continuou a praticar remo nas águas do Rio Tibre e, por pouco, não foi para a Olimpíada de 1968, na Cidade do México – o Comitê Olímpico Italiano selecionou outra dupla de competidores. Após a decepção, Gian Piero também passou a se dedicar, de forma amadora, ao tênis. Foram as quadras de saibro, aliás, que lhe abriram as portas para o jornalismo e, por linhas tortas, o ligariam ao apelido que lhe acompanhou por quase toda a vida.

Galeazzi começou a carreira jornalística no remo, mas ganhou popularidade inatingível no futebol (Ansa)

Em 1970, quando tinha 24 anos, Galeazzi ia disputar um torneio de duplas de tênis com Renato Venturini, que trabalhava na Rai, e foi até a sede da emissora buscar o parceiro. Gian Piero terminou sendo apresentado à turma do departamento de jornalismo esportivo da empresa e ao diretor Gilberto Evangelisti – irmão de Franco Evangelisti, ex-presidente da Roma. O chefe não se fez de rogado e disparou: “Renà, chi è ‘sto bisteccone?”, perguntou, para gargalhada geral.

Sim, o jornalista se referia ao fato de o jovem Galeazzi ser bastante alto (tinha 1,93m) e corpulento, similar a um grande pedaço de carne ambulante. Uma bisteca gigante. A alcunha pegou e, mais do que isso, o romano que atraíra a curiosidade de Evangelisti terminou contratado pela empresa estatal, devido a seu conhecimento como remador.

Apesar de ser campeão italiano no remo, Gian Piero Galeazzi começou de baixo no setor de rádio da Rai – e passou a ser esportista apenas nas horas vagas. Pouco a pouco, se inseriu na redação, informando os resultados das competições de desportos aquáticos, da Serie C de futebol e outros eventos menos badalados. Atuava até mesmo como garçom quando Sandro Ciotti, ícone da emissora, queria tomar o seu sagrado cafezinho.

Em 1972, nos Jogos de Munique, o romano teve a chance de, por acaso, narrar a sua primeira competição – e justamente no esporte que praticou profissionalmente. Mirko Petternella estava escalado para cobrir uma prova de remo, mas ficou preso no ginásio em que eram disputados, com atraso, os duelos de esgrima.

Galeazzi trabalhou na Rai por 42 anos (LaPresse)

Bem-sucedido no intento, Galeazzi rapidamente passou da rádio para a televisão e, por seis edições olímpicas, foi a voz do remo na TV aberta – até parar de narrar, após Atenas 2004. Pelo mesmo período, o romano ainda foi o narrador preferencial das partidas de tênis exibidas pela Rai. Na modalidade em que fora campeão italiano, Gian Piero foi contemporâneo do auge dos irmãos Abbagnale e fez do ouro de Giuseppe e Carmine, no Dois Com de Seul 1988, uma de suas mais célebres transmissões. Em Sydney 2000, Bisteccone também deu bastante emoção ao triunfo de Antonio Rossi e Beniamino Bonomi na canoagem K2.

No entanto, o futebol é o esporte mais popular da Itália e foi através dele que Galeazzi ganhou uma notoriedade invejável. Literalmente: muitos colegas da Rai tinham ciúmes da fama conquistada pelo ex-campeão de remo, que virou um dos ícones do programa La Domenica Sportiva e, depois, do 90º minuto (lê-se Novantesimo minuto). A verdade é que alguém conhecido como Bisteccone já larga na frente sob o aspecto da simpatia. Quando é inovador, competente e bem-humorado, tal qual Gian Piero, se torna quase inatingível.

Seu estilo de narração era inconfundível. A simbiose com os competidores, a ponto de ofegar nos momentos em que eles mais se esforçavam, era sua marca registrada. Por sua origem como atleta, compreendia bem os momentos em que a adrenalina subia e tinha a sabedoria de perceber quando devia subir o tom de voz, de modo que a sua crônica era muito envolvente, a ponto de arrebatar os telespectadores. Não era comum que narradores se emocionassem no ar naquela época.

Galeazzi também inovou no jeito de entrevistar jogadores de futebol, aproveitando um tempo em que não existia media training e no qual as assessorias de imprensa não vetavam qualquer pergunta – porque, na verdade, quase inexistiam. Escalado para a cobertura da maior parte dos principais confrontos da Serie A na década de 1980, Bisteccone ficava à beira do campo e não se furtava a conversar com atletas, treinadores, dirigentes e árbitros antes, depois dos jogos e também nos intervalos. Às vezes, até mesmo com as partidas em andamento, ele estava com o microfone e a câmera ligados, entrevistando quem estivesse disponível.

No túnel de acesso aos vestiários do San Paolo, Galeazzi entrevista Maradona (imago)

O seu jeito de fazer reportagem era cativante e muito pessoal. Físico, até – literalmente. Galeazzi tinha o hábito de tocar os entrevistados, puxando-os levemente pelo braço ou acolhendo-os com um amistoso abraço lateral, com a mão sobre seus ombros ou suas costas. Assim, aproximava-se dos seus “alvos” e, simultaneamente, punha-lhes no sofá das casas italianas. Mesmo que fizesse perguntas diretas, sem rodeios, Gian Piero prezava pelo aspecto humano do esporte e provocava um clima de intimidade cativante, que estimulava os seus interlocutores a darem respostas mais espontâneas, tornando as matérias mais ricas. Como bem escreveu Massimiliano Gallo, da revista Undici, “era como se os entrevistasse vestindo um roupão e preparando um café, sem dar-lhes a chance de escapar da raia junto com a hipocrisia”.

Com seu jeitão e o crachá da Rai, Bisteccone abria todas as portas e passeava por cada canto dos estádios italianos. Assim, ele era hábil para se misturar aos torcedores, tirar boas palavras das bocas dos reservados Nils Liedholm e Ottavio Bianchi, entrevistar o imponente Gianni Agnelli sem temor reverencial ou extrair grandes momentos de conversas com estrelas como Enzo Bearzot, Diego Maradona, Paulo Roberto Falcão, Roberto Pruzzo, Karl-Heinz Rummenigge, Michel Platini, Arrigo Sacchi e Roberto Baggio – veja alguns aqui, aqui e aqui. Além disso, era criativo ao dirigir os cinegrafistas e conseguia alguns ângulos curiosos.

Uma das coberturas mais notáveis de Galeazzi na Serie A foi a do primeiro scudetto do Napoli, em 1987. Bisteccone invadiu o vestiário azzurro, fez Maradona virar repórter por alguns minutos e entrevistar os colegas, e ainda tomou um banho de champagne gelada – veja aqui. A cena ficou tão marcada no imaginário do futebol local que, em 2011, no fim de sua trajetória de 42 anos de Rai, o jornalista foi “homenageado” da mesma forma por Marco Materazzi. Após o título da Inter na Coppa Italia, Matrix surpreendeu ao atirar uma sacola cheia de água nas costas de Gian Piero, que estava à beira do gramado do Olímpico com a apresentadora Paola Ferrari.

Galeazzi nunca escondeu de ninguém que era laziale. Entretanto, por ser um profissional tão respeitável e respeitado, conseguia transmitir emoção e se sentir à vontade no vestiário da Roma até durante a festa pelo segundo scudetto giallorosso. Torcedores romanistas eram, declaradamente, seus fãs. Não à toa, Bisteccone foi homenageado pela própria arquirrival dos celestes.

Durante o seu auge, Galeazzi estabeleceu vínculo direto com figuras icônicas do futebol italiano, como Sacchi (Ansa)

Em 2000, a paixão pela Lazio falou mais alto. Galeazzi transmitia a final do Aberto de Roma, entre o brasileiro Gustavo Kuerten e o sueco Magnus Norman, que acontecia no Stadio della Pallacorda, localizado no complexo esportivo do Foro Itálico – onde também está situado o Olímpico. Naquele 14 de maio, era disputada também a última rodada da Serie A e os aquilotti, que tinham chance de faturarem o título, haviam vencido a Reggina por 3 a 0. Um temporal, contudo, atrasara o jogo entre Perugia e Juventus em mais de uma hora. E os bianconeri precisavam perder para que os celestes fossem bicampeões nacionais.

A torcida capitolina permaneceu nas arquibancadas, numa crescente apreensão, sobretudo após os umbros terem aberto o placar sobre a Velha Senhora. E Bisteccone, igualmente tenso, narrava a decisão do tênis para o canal Rai Due. Calhou, contudo, de o game final entre Guga e Norman acontecer nos minutos derradeiros de Perugia-Juventus. Galeazzi não se fez de rogado e levantou de sua posição de transmissão, com microfone sem fio em mãos, um cinegrafista e um radinho de pilha a tiracolo. Decidira caminhar até o Olímpico para celebrar o scudetto de sua Lazio.

Informado do que acontecia na quadra pelo diretor da transmissão através do ponto eletrônico, Galeazzi narrou o lance final do jogo de tênis à distância, de forma fria. A tensão pela Lazio lhe corroía internamente. Quando ainda chegava ao Olímpico, o rádio portátil e a celebração efusiva de alguns torcedores que estavam fora do estádio lhe anunciavam: a equipe biancoceleste era campeã. Bisteccone foi abraçado por todos aqueles que o encontravam e o reconheciam. No afã da festa, entrevistou até um jovem frade laziale que afirmava não ter rezado pela conquista do scudetto porque orava apenas por coisas sérias. Ao entrar na arena, não conseguiu conter a emoção e, sem ar e nos braços do povo, tentava reportar o que via. A pérola está disponível no YouTube.

Àquela altura, Galeazzi já era uma figura pública e que extravasava o meio esportivo. A partir de meados da década de 1990, ele ganhara tanta popularidade na Itália que chegou a ser escolhido como um dos dubladores para o idioma italiano do primeiro filme da franquia Space Jam: Gian Piero deu voz ao vilão Senhor Swackhammer, proprietário da Montanha Bobolândia e técnico dos Monstars. Bisteccone também entrou para o repertório de imitações de Nicola Savino, um famoso humorista da Velha Bota. O número do comediante, inclusive, era elogiado pelo jornalista.

O jornalista conseguia arrancar frases importantes de estrelas, como Baggio (Ansa)

O sucesso foi impulsionado pelo convite que o jornalista recebeu para transformar o histórico 90º minuto num quadro interno da programação do Domenica In, apresentado por Mara Venier. Lá, conseguiu levar o esporte para um público mais amplo e ainda virou um verdadeiro showman: chegava até a dançar e improvisar cenas com a apresentadora. Ou até mesmo a disputar queda de braço com o mítico ator Bud Spencer.

A amizade com Venier era forte e se estendia a outras searas. Em todas elas, se comia bem – e muito. Galeazzi preservava, como herança de seu físico de remador, uma alimentação farta e bastante calórica. Com o passar do tempo, engordou muito, chegou a pesar mais de 200 kg e desenvolveu uma forma severa de diabetes. A doença se agravou e foi a responsável por tirar a sua vida em 12 de novembro de 2021, aos 75 anos.

O showman deixou os filhos Susanna e Gianluca, nascidos durante o casamento com Laura. Ambos foram estimulados pelo pai a seguirem carreira como jornalistas de TV: trabalham, respectivamente, no Canale 5, de Silvio Berlusconi (ex-dono do Milan e atual proprietário do Monza), e na rede La7, de posse de Urbano Cairo, presidente do Torino. O legado de Galeazzi continua não apenas com a sua prole, mas com tantos outros narradores e repórteres que foram diretamente influenciados por seu estilo, a exemplo de nomes como Fabio Caressa e Pierluigi Pardo.

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