Jogadores Cartolas Técnicos

Jogador, técnico e dirigente: Roberto Lovati fez de tudo na Lazio

Foram 55 anos de devoção e trabalhos prestados à Lazio para Roberto Lovati, um dos personagens mais representativos na história do clube biancoceleste. Goleiro de alto nível, Bob, como passaria a ser chamado, realizou feitos importantes dentro e fora das quatro linhas, desempenhando diversos papéis e colaborando diretamente para o engrandecimento das águias ao longo de várias décadas.

Maturação

Proveniente de Cusano Milanino, cidade localizada na região metropolitana de Milão, Lovati começou a jogar futebol de forma amadora em 1946, aos 19 anos, defendendo as balizas do Gerli, clube local que meses mais tarde passaria a receber o mesmo nome da cidade. Demonstrou qualidade desde cedo e atraiu o interesse do Pisa, que o contratou no verão de 1947, visando a disputa da Serie B. Submetido ao chamado “processo de maturação”, vivenciou empréstimos para duas agremiações modestas da terceirona: primeiro foi para a Vimercatese e em seguida parou na Monsummanese.

Nesta época, a média de altura dos goleiros na Itália não chegava a bater 1,80m. Lovati tinha 1,88m e isso era visto com certa desconfiança, pois achavam que ele poderia ser muito lento para, por exemplo, reagir a chutes rasteiros. Ironicamente, com o passar dos anos, a situação se inverteu e a tendência na posição foi priorizar cada vez mais jogadores de estatura mais elevada, em detrimento dos mais baixos.

De volta à Toscana, assumiu a titularidade do gol nerazzurro, mas teve um primeiro ano comprometido por conta de lesões e só entrou em campo cinco vezes. Nas duas temporadas seguintes, livre de problemas físicos, viu sua participação dobrar, indo de 18 para 36 jogos. Lovati foi adquirido em 1952 pelo Monza, outra agremiação que compunha a Serie B. Defendeu os biancorossi por um biênio e saiu-se muito bem, demonstrando segurança e regularidade a cada mês que passava, se firmando de vez como um dos melhores em sua posição no campeonato.

Assim que foi adquirido pela Lazio, Lovati foi emprestado ao Torino e deixou uma ótima impressão (Libero Quotidiano)

Um amor chamado Lazio

No ano de 1954, Lovati deu um salto na carreira ao fechar com a Lazio, o que significava ter a oportunidade de disputar a Serie A. As águias vivenciavam um momento de transição no gol. Lucidio Sentimenti, conhecido como Sentimenti IV, foi para o Vicenza e, inicialmente, os biancocelesti contavam com o promissor Aldo De Fazio na meta, além do veterano Giuseppe Zibetti, adquirido do Brescia. Porém, foi decidido que mais um nome seria necessário para a posição, e Bob foi contratado.

Sendo preparado para o futuro, Lovati foi cedido por empréstimo a outro clube da primeira divisão, o Torino, cujo treinador, Annibale Frossi, era um grande entusiasta de sua contratação. Pelo Toro, foi a campo em 33 oportunidades na trajetória do time, que terminou na nona colocação. Encerrada a campanha da Lazio, De Fazio decepcionou e não demonstrou a segurança esperada, enquanto Zibetti, devido a idade elevada (34 anos), também esteve abaixo quando exigido. O posto de sucessor de Sentimenti ainda estava vago e parecia estar aguardando Roberto, que seria aproveitado na temporada seguinte.

Novo dono da meta celeste, Lovati teve um início de trajetória na Lazio um tanto quanto irregular. Não por sua culpa, mas pelo difícil início das águias na Serie A – que culminou na demissão do técnico Luigi Ferrero, em janeiro. O substituto foi o inglês Jesse Carver, responsável por popularizar o apelido “Bob” para Roberto e por reorganizar o time: os capitolinos tiveram uma reação formidável e encerraram a participação no campeonato com o terceiro lugar, com os mesmos 39 pontos somados pela Inter.

Muitos desses pontos foram garantidos através das defesas de Bob, que sempre se apresentou em alto nível. O arqueiro esteve em campo em 32 rodadas, ficando de fora em duas ocasiões por questões físicas e sendo substituído por Giampiero Bandini. Sua grande atuação individual foi em um Derby della Capitale, no qual sua equipe bateu a rival Roma por 1 a 0: intransponível, impediu chances claras da perigosa dupla ofensiva composta pelo ítalo-brasileiro Dino da Costa e pelo húngaro István Nyers.

Depois do ano formidável em Turim, Bob voltou para a Lazio e se tornou um ícone da agremiação (Libero Quotidiano)

A temporada subsequente marcou o auge de Lovati, que disputou todas as partidas e ajudou a Lazio a terminar novamente no terceiro lugar, um ponto atrás da vice-campeã Fiorentina – desta vez, os celestes ostentaram a marca de defesa menos vazada da Serie A. Uma das características do camisa 1 era a sua capacidade de organizar a linha defensiva, corrigindo o posicionamento de seus companheiros constantemente. Outro atributo era a sua saída de gol e a facilidade que tinha para socar a bola e mandá-la para bem longe nos momentos de grande pressão adversária. Às vezes, a pelota ultrapassava a linha intermediária.

A excelente fase vivida por Roberto fez com que Alfredo Foni, treinador da Itália, o convocasse pela primeira vez. Sua estreia pela Squadra Azzurra foi em sua casa, na cidade de Roma, e digna de elogios, no triunfo pelo placar mínimo diante da Irlanda do Norte. Resultado bem diferente do 6 a 1 sofrido três semanas depois em Zagreb para a anfitriã Iugoslávia, um dos selecionados mais poderosos da Europa à época. O episódio rendeu zombarias por parte da torcida da Roma, que o apelidou de “Bob a sei” (Bob seis), e marcou o fim de sua curta passagem pela seleção – muito em virtude da forte concorrência no setor, que contava com nomes badalados que atuavam no norte do país, como Giorgio Ghezzi (Inter), Lorenzo Buffon (Milan) e Carlo Mattrel (Juventus).

Em 1957-58, Carver foi seduzido pelas altas cifras oferecidas pela Inter e deixou a Lazio, que contratou o iugoslavo Milovan Ciric para o seu lugar. A temporada das águias foi turbulenta. Ciric não durou muito e foi substituído por Alfredo Monza, que foi igualmente mandado embora em pouco tempo, dando lugar a Fulvio Bernardini. Os biancocelesti ficaram com o 12º lugar e Lovati, novamente, teve um desempenho individual elogiável, fazendo grandes defesas de domingo a domingo. A questão era o time, que não possuía um estilo de jogo bem definido e demonstrava clara falta de confiança.

Em nível pessoal, talvez o único “problema” para Bob tenha sido Dino da Costa. O atacante da Roma marcou gols em ambos os clássicos – cada equipe venceu um dos duelos – e manteve uma certa fama de carrasco contra o arqueiro celeste. Mas justiça seja feita, se tratava de um grande goleador, um dos principais de sua geração, e que geralmente castigava qualquer arqueiro que estivesse à sua frente.

Já pela Lazio, Lovati efetua corajosa saída para evitar o gol de Giampiero Boniperti, da Juventus (Libero Quotidiano)

Na temporada seguinte, a Lazio enfrentou uma grave crise financeira, fazendo com que sua campanha fosse inconstante tal como acontecera no ano anterior, com uma pequena mudança na tabela – ficou no 11º lugar desta vez. Buscando equacionar as dívidas, o presidente Leonardo Siliato vendeu o atacante sueco Arne Selmosson para a Roma. As contratações foram modestas e as águias se viram impedidas de fazer grandes aquisições. Mas o futebol é terreno fértil para roteiros imprevisíveis, e os celestes conquistaram a primeira taça de sua existência: a da Coppa Italia, ao bater a Fiorentina na decisão, graças a um gol de Maurilio Prini. Bob, capitão na histórica ocasião, acabou perdendo espaço na reta final da Serie A para a dupla Idilio Cei e Franco Pezzullo.

Nas duas temporadas seguintes, a Lazio não foi bem: concluiu uma na 12ª posição e depois, em 1960-61, foi rebaixada pela primeira vez em sua história. Lovati atuou apenas 17 vezes no biênio e resolveu se aposentar, beirando os 34 anos. Quis o destino que ele pendurasse as luvas logo em um momento amargo, após a queda das águias, que tão bem representou em 147 ocasiões. Ele ainda recusou alguns convites de clubes da Serie B antes de tornar pública a sua decisão.

O fim não é o fim

Completamente identificado com o clube, Lovati foi anunciado como treinador de goleiros da Lazio pouco tempo depois do anúncio de sua aposentadoria. Não demoraria para que o ex-arqueiro se tornasse técnico, ou melhor, uma espécie de bombeiro para o time, acostumado a apagar incêndios em momentos de crise.

Um período especialmente conturbado para o clube laziale se deu após o falecimento do treinador Tommaso Maestrelli, em decorrência de um câncer no fígado, em dezembro de 1976. O técnico, que assumira os biancocelesti na segunda divisão cinco anos antes, foi um dos símbolos do inesquecível scudetto conquistado em 1974 e criou um forte vínculo afetivo com Lovati, que assumiu interinamente após sua morte, antes de o brasileiro Luís Vinício ser contratado.

Factótum, Lovati foi técnico interino e efetivo da Lazio em diversas ocasiões ao longo de sua vida (Ansa)

Na temporada 1979-80, Lovati foi o responsável por salvar a equipe do rebaixamento em meio ao escândalo Totonero, calcado em apostas ilegais, muito por conta do fato de ter, com perdão pelo trocadilho, apostado em jovens advindos das categorias de base do time biancoceleste. Isso se fez necessário depois que alguns jogadores foram suspensos por terem se envolvido no esquema que eclodiu àquela altura. Com o passar dos anos, as atribuições de Bob na Lazio foram diminuindo cada vez mais.

Ele teria uma última grande alegria quando seu filho, Stefano, tornou-se seu companheiro de trabalho ao integrar o departamento médico do clube como ortopedista. Ao todo, Bob comandou a Lazio em 106 ocasiões, com destaque para o título da Copa dos Alpes, o primeiro troféu internacional vencido pelos celestes. Em mais de duas décadas, acumulou outras funções, como chefe dos olheiros, diretor esportivo, diretor técnico e treinador das categorias de base, tendo sido o responsável por lançar nomes como Giuseppe Massa, Massimo De Stefanis, Maurizio Montesi, Carlo Perrone, Lionello Manfredonia e Mauro Tassotti.

Bob Lovati faleceu em 2011, poucos meses antes de completar 84 anos de idade. Foram diversas homenagens concedidas ao saudoso goleiro, que ganhou uma bandeira da torcida que continha a seguinte mensagem: “si scrive Lovati, si legge Lazio” (se escreve Lovati, se lê Lazio). Cristian Ledesma, ídolo laziale, deu um emocionado depoimento. “Você foi uma das primeiras pessoas da Lazio que conheci. Uma das primeiras a apertar a minha mão e me encorajar quando tudo deu errado. Um olhar que eu nunca vou esquecer e que tive a honra de conhecer. Eu, que em comparação com você nunca serei ninguém”.

Claudio Lotito, presidente da Lazio, prestou um dos mais belos tributos ao ícone capitolino ao inaugurar uma academia voltada para a formação de jovens jogadores. Intitulada Academy Roberto Lovati, em uma escolha feita pela própria torcida biancoceleste, a instituição, além do futebol, oferece aulas de matemática, literatura, línguas, história e geografia, e tem como inspiração a metodologia do Ajax, uma das referências na formação de atletas dentro do continente europeu.

Roberto “Bob” Lovati
Nascimento: 20 de julho de 1927, em Cusano Milanino, Itália
Morte: 30 de março de 2011, em Roma, Itália
Posição: goleiro
Clubes: Pisa (1947 e 1949-52), Vimercatese (1947-48), Monsummanese (1948-49), Monza (1952-54), Lazio (1954 e 1955-61) e Torino (1954-55)
Título como jogador: Coppa Italia (1958)
Carreira como treinador: Lazio (1962-63, 1968, 1969-70, 1971, 1978-80, 1983 e 1985)
Título como treinador: Copa dos Alpes (1971)
Seleção italiana: 2 jogos

Compartilhe!

Deixe um comentário