Jogos históricos

A sintonia de Maradona e Careca levou o Napoli ao título da Copa Uefa de 1989 sobre o Stuttgart

No final da década de 1980, Diego Maradona carregou o Napoli rumo ao único título continental da história do clube azzurro: a Copa Uefa de 1988-89. Mas, embora fosse o grande destaque do time, o Pibe d’Oro não brilhou sozinho. O brasileiro Careca recebeu muitos passes na medida do craque argentino e, com faro de gol apurado, se consagrou na vitoriosa campanha napolitana. O Stuttgart, adversário dos italianos na final da competição, sofreu nas mãos da dupla sul-americana.

Os maiores sucessos do Napoli estão intrinsecamente ligados à passagem de Maradona pelo sul da Itália, entre 1984 e 1991. Naquela época, os partenopei ganharam seu primeiro scudetto (1987), faturaram uma Coppa Italia (1987) e travaram duelos épicos com o histórico Milan de Arrigo Sacchi. Em 1988-89, os comandados de Ottavio Bianchi mantiveram o ritmo dos anos anteriores, mas não conseguiram competir à altura com a “Inter dos recordes”, que ganhou com folga a Serie A, e perderam da Sampdoria na decisão da Coppa Italia, em um placar agregado de 4 a 1.

Maradona e Buchwald se cumprimentam antes do confronto de ida da final, em Nápoles (imago/Pressefoto Baumann)

O que salvou a temporada, em termos de conquistas, foi a inédita taça da Copa Uefa, a antecessora da Liga Europa. Para alcançar a glória, o Napoli deixou pelo caminho vários times de status. A equipe da Campânia se classificou à competição continental devido ao segundo lugar obtido na Serie A 1987-88. Cabe ressaltar que, naquela época, apenas o campeão das principais ligas europeias se qualificava à Copa dos Campeões, precursora da Champions League. Já os times que terminavam o campeonato entre o segundo e o quinto lugares garantiam participação no segundo principal torneio da Uefa.

Nos anos 1980 ainda não havia a fase de grupos, de modo que as equipes já caíam direto na etapa de 32 avos de final, em pleno mata-mata. O Napoli deu de cara com o PAOK, da Grécia, e passou apertado para se classificar: Maradona marcou o único gol do primeiro jogo, ao passo que um empate em 1 a 1, na partida de volta, permitiu que os napolitanos avançassem de fase. Nos 16 avos de final, os italianos deixaram o Lokomotive Leipzig, da Alemanha, pelo caminho.

Cobrando pênalti, Maradona iniciou a reação do Napoli frente ao Stuttgart (imago/Kicker/Liedel)

À medida que prosseguia na competição, o sarrafo, consequentemente, subia. De qualquer forma, porém, os partenopei mostraram bom desempenho ante adversários mais qualificados e, com o capitão Maradona inspirado, eliminaram Bordeaux (placar agregado de 1 a 0), Juventus (3 a 2) e Bayern Munique (4 a 2) antes de topar com o Stuttgart na grande decisão. Os alemães, por sua vez, tiveram uma jornada mais tranquila, em tese, do que os italianos: chegaram à final após passarem, em sequência, por Tatabánya, Dinamo Zagreb, Groningen, Real Sociedad e Dynamo Dresden.

Diferentemente dos dias atuais, naquela época a final da Copa Uefa era decidida em jogos de ida e volta. Assim, ambos os times tiveram que se enfrentar no San Paolo e no Neckarstadion para ver quem ficaria com o troféu. Os clubes jamais haviam vencido uma competição continental, então o vencedor da decisão seria condecorado como campeão inédito.

Acionado por Maradona, Careca se encarregou de virar o jogo para o Napoli, no San Paolo (imago/Kicker/Liedel)

O Stuttgart tinha jogadores de destaques em seu onze inicial, como o goleiro Eike Immel, o zagueiro (e capitão) Guido Buchwald, os meio-campistas Srecko Katanec, Karl Allgöwer, Ásgeir Sigurvinsson e Maurizio Gaudino, e os atacantes Fritz Walter e Jürgen Klinsmann. O técnico do time alemão era o neerlandês Arie Haan, que disputara duas Copas do Mundo e uma Euro como atleta de uma poderosa Oranje. Porém, os azzurri tinham um elenco forte e coeso, além de um tal Maradona como termômetro.

Na semifinal contra o Bayern, o Napoli se mostrou superior atuando em seus domínios. Diante do Stuttgart, no entanto, os comandados de Bianchi encontraram mais dificuldade. Não à toa, os visitantes abriram o placar. Logo aos 17 minutos, o goleiro Giuliano Giuliani engoliu um frango ao deixar passar um chute de longa distância disparado por Gaudino, o único adversário de origem não só italiana como também campana: os pais do meia-atacante haviam nascido em Caserta e… Nápoles.

No jogo de volta, Maradona superou forte marcação para iluminar os azzurri (imago)

Mas aí entrou em cena o camisa 10 azzurro. Dieguito criou todas as chances perigosas do time da casa até receber uma mãozinha – ou duas –, no segundo tempo. El Diez aproveitou a sobra de uma bola cruzada na área, ajeitou no peito e usou seu braço para a pelota não escapar de seu raio de ação. Quando chutou, acertou a mão de Günther Schäfer e o árbitro Gerasimos Germanakos apontou para a marca da cal. Especialista, o argentino apenas deslocou Immel para empatar e levar a torcida no San Paolo à loucura, aos 67 minutos.

Empurrado pela torcida, o Napoli continuou em cima do Stuttgart após alcançar o empate. Os jogadores adversários faziam marcação cerrada em Maradona, mas o Pibe conseguia dar um jeito de brilhar. Foi assim, inclusive, que saiu o gol da vitória napolitana. Aos 87 minutos, Andrea Carnevale recebeu lançamento de Alessandro Renica e ajeitou para Dieguito, que cortou Jürgen Hartmann e ajeitou para Careca. O brasileiro superou a marcação de Buchwald, estufou as redes e marcou seu quinto gol naquela Copa Uefa. Foi, também, a sexta assistência de Maradona.

Nascido em Nápoles e prata da casa, Ferrara balançou as redes e colocou seu nome no primeiro título continental dos partenopei (imago)

O duelo da volta estava marcado para o dia 16 de maio de 1989, no Neckarstadion. A torcida azzurra viajou para a Alemanha e compareceu em peso à casa do Stuttgart. Ao contrário do confronto da ida, o Napoli não sofreu tanto na finalíssima e animou os torcedores no primeiro tempo. Logo aos 17 minutos, Maradona iniciou uma jogada com Alemão no meio-campo – embora Katanec tenha efetuado uma entrada dura. O volante arrancou, tabelou com Careca e abriu o placar com maestria.

A partida estava controlada até os 27 minutos, quando Giuliani cometeu mais um erro clamoroso: Sigurvinsson cobrou escanteio, o arqueiro perdeu o tempo de bola e Klinsmann empatou, de cabeça. O Napoli, contudo, não se abateu e retomou a tranquilidade antes de ir para o intervalo, em mais uma jogada originada de escanteio.

Confuso, De Napoli foi a única nota destoante do jogo de volta, disputado no Neckarstadion (imago/Kicker/Liedel)

Após um primeiro corte da defesa suábia, o Pibe d’Oro descolou um incrível passe de cabeça, que surpreendeu os alemães e deixou Ciro Ferrara livre para fazer 2 a 1. Assim, os italianos se encaminharam ao vestiário em vantagem e com a sensação de que o título estava cada vez mais próximo.

No segundo tempo, os comandados de Bianchi aumentaram o placar, em mais um lance de sinergia entre Diego e Careca. O Stuttgart estava lançado ao ataque e um corte de Ferrara acabou acionando o atacante brasileiro: sua casquinha lançou El Diez em profundidade e aí ficou fácil. A marcação de Hartmann foi superada sem problemas e o argentino deu sua oitava assistência na Copa Uefa, liberando o campo para que Careca, de cavadinha, desferisse o golpe final.

Maradona carregou o Napoli em sua caminhada rumo à tão sonhada taça europeia (imago)

Relaxadíssimo, ciente de que a taça seria sua, o time da Campânia se deu ao luxo de fazer Careca descansar mesmo depois que Fernando De Napoli marcou um gol contra bizarro e reduziu a vantagem. O meia ainda falhou num dos últimos lances da decisão, quando tentou recuar para Giuliani e deu um presente para Olaf Schmäler empatar.

O 3 a 3 não refletia quão confortável havia sido a partida napolitana, mas não importava: o resultado deu ao Napoli sua primeira (e única) Copa Uefa, e também marcou o início da soberania italiana na competição, que durou até o fim da década seguinte.

Napoli 2-1 Stuttgart

Napoli: Giuliani; Ferrara, Corradini (Crippa), Renica, Francini; De Napoli, Fusi, Alemão; Maradona; Careca, Carnevale. Técnico: Ottavio Bianchi.
Stuttgart: Immel; N. Schmäler, Schäfer, Allgöwer, Buchwald, Schröder; Hartmann, Katanec, Sigurvinsson; Walter (Zietsch), Gaudino. Técnico: Arie Haan.
Gols: Maradona (67′) e Careca (87′); Gaudino (17′)
Árbitro: Gerasimos Germanakos (Grécia)
Local e data: estádio San Paolo, em Nápoles (Itália), em 3 de maio de 1989

Stuttgart 3-3 Napoli

Stuttgart: Immel; N. Schmäler, Allgöwer, Schäfer, Schröder; Hartmann, Katanec, Sigurvinsson, Gaudino; Klinsmann, Walter (O. Schmäler). Técnico: Arie Haan.
Napoli:
Giuliani; Ferrara, Corradini, Renica, Francini; De Napoli, Fusi, Alemão (Carannante); Maradona; Careca (Bigliardi), Carnevale. Técnico: Ottavio Bianchi.
Gols: Klinsmann (27′), De Napoli (gol contra, 68′) e Schmäler (90′); Alemão (18′), Ferrara (40′) e Careca (62′)
Árbitro: Victoriano Sánchez Arminio (Espanha)
Local e data: Neckarstadion, em Stuttgart (Alemanha), em 16 de maio de 1989

Compartilhe!

Deixe um comentário