Jogos históricos

Na Champions League de 1994-95, o Milan teve o hexa frustrado pela garotada do Ajax

A década de 1990 no futebol italiano não ficou marcada apenas na memória de quem torceu por alguma equipe do país naquele período: foi fixada na mente de todos aqueles que enxergavam o esporte praticado na Bota como o mais completo do mundo. O Milan foi um dos times de maior destaque dessa época e, em 1995, alcançou a sua terceira final consecutiva da Liga dos Campeões. Os rossoneri sonhavam com o sexto título para se igualarem ao Real Madrid, mas um garoto de 18 anos, chamado Patrick Kluivert, frustrou os seus planos e levou o Ajax, adversário da ocasião, à quarta taça no torneio.

O destino, através do sorteio, colocou os dois times cara a cara já na fase de grupos daquela Champions League. O Ajax de Louis van Gaal, impetuoso, venceu os dois jogos, dando um cartão de visitas para o Milan – e apresentando futuras estrelas do Diavolo, como o próprio Kluivert. No elenco dos Godenzonen havia ainda um velho conhecido de Milanello: Frank Rijkaard, o neerlandês que embalou os sonhos dos rossoneri juntamente com Marco van Basten e Ruud Gullit, seus compatriotas.

O cartão de visitas neerlandês

O Milan se garantiu naquela edição da Liga dos Campeões após uma temporada 1993-94 formidável: o time de Fabio Capello teria vaga reservada graças ao incontestável scudetto obtido na Serie A – o terceiro consecutivo –, mas foi além e humilhou o Barcelona em Atenas, faturando sua quinta orelhuda. Se queria conquistar mais um título e se tornar o maior vencedor da competição ao lado do Real Madrid, precisaria fazer mais do que apenas apresentar seu elenco estrelado, que era de fato completo. Na época, os rossoneri contavam com nomes como Franco Baresi, Paolo Maldini, Alessandro Costacurta, Marcel Desailly, Roberto Donadoni, Dejan Savicevic, Zvonimir Boban e Daniele Massaro.

Ao longo de 1994-95, Ajax e Milan fizeram três confrontos, sendo o da final europeia o mais pegado deles (Pro Shots)

Esse elenco, aliás, teve dificuldades no início da temporada. O Milan contava com muitos jogadores que representaram a Itália na desgastante campanha na Copa do Mundo de 1994, concluída com o vice frente ao Brasil, e isso pesou negativamente. Os azzurri do grupo rossonero demoraram a se recondicionar e isso comprometeu a largada na Serie A: o Diavolo venceu apenas três compromissos nas 10 primeiras rodadas, que ocorreram antes de viajar ao Japão para disputar o Mundial Interclubes e perdê-lo para o Vélez Sarsfield.

A má fase do Milan também comprometeu o seu percurso na Champions League. O Diavolo estreou na competição frente ao Ajax, adversário da final, e amargou uma derrota por 2 a 0 em Amsterdã. Na sequência, veio a partida com o Salzburg, divisor de águas na chave: os rossoneri venceram por 3 a 0, mas foram punidos com a perda de dois pontos e a obrigação de mandar dois jogos longe de San Siro por conta de uma garrafa arremessada por seus torcedores sobre o goleiro Otto Konrad. O arqueiro teve de ser substituído e levado a um hospital.

Depois, o Milan empatou sem gols com o AEK, em Atenas, e venceu os gregos por 2 a 1 em Trieste, no estádio Nereo Rocco – batizado em homenagem a um dos maiores técnicos da história rossonera. No mesmo palco, o Ajax se impôs por 2 a 0 e obrigou o Diavolo a derrotar o Salzburg na derradeira rodada para buscar a segunda vaga na chave. O time italiano viajou a Viena, que seria sede da final, e bateu os austríacos por 1 a 0 no Ernst-Happel-Stadion. Curiosamente, quem apitou o jogo foi o romeno Ion Craciunescu, que viria a ser o árbitro da decisão naquela mesma praça.

Massaro e Rijkaard: ex-colegas no Milan, os dois protagonizaram forte disputa na final da Champions League, em 1995 (EMPICS/Getty)

Então vice-campeão da Copa Uefa, com derrota para a Inter na final de 1994, o Salzburg também deu trabalho ao Ajax e lhes obrigou a amargar empates na Áustria e nos Países Baixos. Porém, os Godenzonen venceram seus jogos remanescentes e lideraram o Grupo D com 10 pontos. O Milan se classificou com os mesmos 5 dos alpinos, por levar vantagem no confronto direto.

O mata-mata rossonero

O retrospecto de jogos entre clubes italianos e portugueses é favorável aos representantes do Belpaese e, na temporada 1994-95, o Milan contribuiu para este quadro. Nas quartas de final da Champions League, o Diavolo eliminou, sem muitas dificuldades, o Benfica. Os encarnados haviam sido líderes do Grupo C, que contava com Hajduk Split (Croácia), Steaua Bucareste (Romênia) e Anderlecht (Bélgica).

No San Siro, Marco Simone garantiu a vitória rossonera por 2 a 0. Foi um jogo truncado e com muitas faltas, muito bem preparado por Capello, que viu seu time garantir expressiva vantagem dentro de casa. Depois de muitos toques de mão, uma boa cabeçada de Savicevic e infiltradas, os gols do Milan saíram no segundo tempo. Desailly recebeu o cruzamento de Boban na área e, na tentativa de cabecear para a baliza, deixou o autor da doppietta da noite cara a cara com Michel Preud’homme para abrir o placar. Já no segundo tento, Christian Panucci efetuou o passe em profundidade na área para o camisa 11 finalizar. Na volta, o 0 a 0 garantiu a vaga do Diavolo.

O Milan buscou muito o jogo pelos flancos, com Donadoni, e o Ajax se segurou do jeito que deu (Allsport)

Na semifinal, o Milan ganhou mais confiança ao eliminar o Paris Saint-Germain, do artilheiro George Weah, com duas vitórias. Nos acréscimos do jogo de ida, na capital francesa, um golaço de Boban, após jogada de habilidade de Savicevic, incendiou as expectativas dos rossoneri para mais uma final de Liga dos Campeões. Dentro do San Siro foi a vez de o montenegrino brilhar, com uma doppietta: o primeiro tento saiu após passe de Demetrio Albertini e um belo drible sobre um adversário; o segundo, para coroar a classificação, após um bote certeiro de Desailly e contragolpe mortal.

A Laranja Mecânica dos clubes

É muito fácil se lembrar dos feitos da Holanda nos anos 1970, quando a Oranje encantou o mundo, embalada pelo Ajax. No futebol de clubes, os Godenzonen também fizeram sucesso naquela época e, posteriormente, repetiram a trajetória marcante para chegar a duas finais de Champions League seguidas. A campanha que resultou na primeira, em 1995, foi embalada pela jovialidade de peças como os irmãos Frank e Ronald de Boer, Edwin van der Sar, Michael Reiziger, Edgar Davids, Clarence Seedorf, Finidi George, Nwankwo Kanu, Jari Litmanen, Marc Overmars e Kluivert.

A equipe comandada por Van Gaal passou sem nenhuma dificuldade pelo Hajduk Split nas quartas de final, apesar do empate na primeira partida. Dentro de casa, Kanu abriu o placar e Frank de Boer anotou dois gols para garantir a equipe na fase seguinte.

Simone teve as melhores chances do Milan, mas os rossoneri não conseguiram balançar as redes do Ajax (Allsport)

O confronto mais eletrizante estava guardado para a semifinal. Jogando a ida fora de casa mais uma vez, o Ajax empatou sem gols com o Bayern Munique, mas a volta seria bem diferente. Em Amsterdã, os Godenzonen contaram com uma doppietta de Litmanen e uma ótima atuação de Overmars, que também balançou as redes, para fazerem 5 a 2 sobre os bávaros. Chegava a hora de reencontrar um velho conhecido da fase de grupos.

Uma final com resultado decepcionante para os italianos

A melhora de desempenho do Milan na segunda metade da temporada levaria os rossoneri à decisão da Champions League, mas apenas à quarta colocação da Serie A – ou seja, o Diavolo, classificado para a Copa Uefa, precisava ganhar o principal torneio europeu para disputá-lo novamente em 1995-96. O Ajax, por sua vez, chegava ao Ernst-Happel-Stadion, na capital da Áustria, já consagrado como campeão da Eredivisie.

As lendas do futebol que admiramos no passado se reuniram naquela noite europeia para mais uma demonstração de como o período dos anos 1990 foi marcante para o esporte. Em Viena, a decisão começou de forma similar aos outros encontros entre Ajax e Milan naquela temporada, com os neerlandeses dominando e exigindo muito da defesa italiana. Mas o time rossonero também arriscava, principalmente através do jogo aéreo.

No finalzinho da decisão, Kluivert marcou o gol que garantiu o título dos Godenzonen (Getty)

Uma das boas oportunidades apareceu através de rápida troca de passes. Overmars recebeu pelo lado direito e tocou de volta para Litmanen. De dentro da área, o camisa 10 finalizou no canto direito de Sebastiano Rossi, que teve dificuldade para mandar pela linha de fundo.

Durante o primeiro tempo, foi o Milan que chegou com mais perigo à área adversária. Em uma das melhores oportunidades, Simone efetuou um forte voleio e Van der Sar precisou espalmar no susto para colocar a bomba para escanteio. Na etapa inicial ainda ocorreu um momento curioso: Desailly levantou bastante a perna para afastar o perigo, frente a Litmanen, e Van Gaal se exaltou tanto na hora de reclamar que imitou o francês, encenando um golpe de kung fu. Acabou sendo advertido pelo árbitro Craciunescu.

Na segunda etapa, a posse ficou bem dividida entre as duas equipes. O Milan buscava o gol, sedento pelo seu terceiro título consecutivo. Em uma das chegadas, Van der Sar quase vacilou em frente a Massaro, mas conseguiu consertar e mandar a bola para fora da área. No entanto, por mais que tentasse, até mesmo com Maldini, o Diavolo não parecia ter a sorte a seu lado.

No apito final, a frustração do Milan era visível (Onze /Icon Sport/Getty)

Aos 69 minutos, Van Gaal chamou para a partida um jovem promissor para entrar no lugar de Litmanen, vice-artilheiro da competição, com seis gols. Apesar da grande responsabilidade depositada em de alguém com 18 anos, Kluivert correspondeu à altura e teve uma noite de herói.

Aos 85 minutos, Davids começou a jogada e ajeitou para Rijkaard, na altura da meia-lua. O ex-jogador do Milan buscou Kluivert e já atacou o espaço, na expectativa de receber de volta. No entanto, o garoto segurou a bola, resistiu ao tranco de Boban e, antes de Baresi conseguir bloquear, surpreendeu Rossi com uma finalização fraca no seu canto esquerdo.

Faltando pouco tempo para o fim da partida, o Milan se lançou com tudo ao ataque, na busca pelo empate, e abriu espaços na defesa. Num contragolpe, Danny Blind só não marcou porque Rossi fez uma defesaça com o pé esquerdo. No fim das contas, o cenário não se alterou e a festa holandesa se formou em Viena: estava vingada a derrota para os rossoneri na decisão de 1969. Do lado italiano, a desilusão era evidente, já que estava frustrado o antigo desejo de igualar o Real Madrid no topo da lista de maior número de títulos da competição. O Diavolo só voltaria a levantar a orelhuda em 2003, após outros três troféus obtidos pelos merengues.

Ajax 1-0 Milan

Ajax: Van der Sar; Reiziger, Rijkaard, Blind, F. De Boer; Davids, Seedorf (Kanu); Finidi, Litmanen (Kluivert), Overmars; R. De Boer. Técnico: Louis van Gaal.
Milan: Rossi; Panucci, Costacurta, Baresi, Maldini; Donadoni, Desailly, Albertini, Boban (Lentini); Simone, Massaro (Eranio). Técnico: Fabio Capello.
Gol: Kluivert (85′)
Árbitro: Ion Craciunescu (Romênia)
Local e data: Ernst-Happel-Stadion, Viena (Áustria), em 24 de maio de 1995

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