Serie A

O futebol da Itália em péssimas mãos

Com declaração racista, Tavecchio perdeu apoio para eleição da FIGC, mas virou presidente (Divulgação)

“Na Inglaterra, eles identificam os jogadores que chegam, se são profissionais, podem jogar. Aqui, temos Opti Pobà, que antes comia bananas e agora é titular da Lazio. Na Inglaterra, você precisa demonstrar currículo e pedigree”. A frase que abre este texto, sobre um fictício Opti Pobà, não foi ouvida em uma conversa de bar ou numa corrida com um taxista reacionário. Ela foi proferida mais de duas semanas atrás por Carlo Tavecchio, 71 anos, em seu discurso oficial de defesa à presidência da FIGC. Eleição vencida por ele, nesta segunda-feira, com mais de 63% dos votos, contra 34% do ex-jogador Demetrio Albertini.

A Itália também tem sua CBF. A FIGC, órgão correspondente ao brasileiro, também está em péssimas mãos. Após o fiasco da Itália na Copa do Mundo, o antigo presidente da entidade, Giancarlo Abete, se demitiu juntamente com o técnico Cesare Prandelli. Agora, após a frase e a consequente eleição de Tavecchio, dá para ver que o futebol italiano não está avançando.

O racismo é um dos problemas mais recorrentes no futebol do país nos últimos tempos. Infelizmente, as manifestações contra jogadores e torcidas rivais, sobretudo entre as do norte e do sul da Bota, são constantes. Em levantamento divulgado pela Trivela, o Observatório de Racismo e Anti-Racismo no Futebol da Itália, sinalizou 282 casos de discriminação racial no futebol do país entre 2007 e 2013 e 660 desde 2000. No entanto, as punições são brandas e a fiscalização é pouco rigorosa. 

Após as suas declarações, no mínimo infelizes, Tavecchio se defendeu. Se desculpou imediatamente, disse que as palavras utilizadas não foram corretas. Porém, mostrou que tem um pensamento arcaico. Tavecchio, que tinha apoio total dos clubes da Serie A e de todas as ligas de futebol do país, foi perdendo apoios. Manteve, no entanto, o apoio incondicional dos times das ligas amadoras, as quais preside desde 1999.

Nove clubes da elite repudiaram suas declarações e a ministra do Interior da Itália, Cécile Kyenge, de origem congolesa, além de outros políticos de centro-esquerda do país, também manifestaram sua indignação. A Fifa, que coloca o combate ao racismo como uma de suas bandeiras (ao menos no discurso) pediu explicações sobre o caso. A imprensa italiana, como um todo, foi duríssima com o candidato e houve a publicação de fortes editoriais contra ele. Mas pouco mudou.

Não é apenas pelo racismo. Estar desde 1999 no comando das Ligas Nacionais Amadoras, que nada avançam e, hoje, são reduto de times que falem e não conseguem pagar suas dívidas ou melhorar suas condições não é nada animador. O apego ao poder e o trambique está entranhado em Tavecchio. Ele já foi processado e condenado cinco vezes na sua vida, por crimes que envolvem falsidade ideológica, omissão de denúncia, falsos depoimentos e abuso de poder.

No fim das contas, Tavecchio acabou eleito e chorou com o resultado que lhe foi favorável. Patrocinado por Claudio Lotito, presidente da Lazio e seu maior cabo eleitoral, não encontrou muita resistência dos clubes que o repudiaram, liderados pela Juventus, do presidente Andrea Agnelli. Eram nove clubes da Serie A, mas na terceira votação prevista pelo estatuto para definir o presidente, segundo Adriano Galliani, presidente do Milan, 16 times votaram em Tavecchio, apoiado por ele – e também por Roma, Inter e Napoli.

No entanto, o racha na FIGC e nas ligas é grande, e hoje, durante a eleição, houve calororsas discussões entre os opositores e duras palavras de Albertini, Agnelli e de Damiano Tommasi, presidente da Associação de Futebolistas da Itália, sobre a eleição. “Venceu o corporativismo. Será duro substituir Abete, que fez bem o seu jogo eleitoral. Mesmo assim, desejo sorte a Tavecchio”, disse Albertini. “O futebol italiano não quer mudar de marcha e avançar”, enfatizou Tommasi. 

Em entrevista após a vitória, Tavecchio disse que não era bom as palavras, mas sim com as açõees. Pregou a união na FIGC e disse que a Itália poderia avançar, se todos trabalhassem juntos. União é algo em falta – até porque, unir-se em torno de um projeto comandado por um racista, apegado ao poder e que foi eleito pelos bastidores, contra a vontade dos amantes do futebol da Itália, parece impróprio. Enquanto isso, o futebol italiano deverá viver um período de poucas mudanças e muita pobreza intelectual. Ainda. De novo.

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