Liga dos Campeões

Haja coração

“Essa foi de presente pra você, Júlio César”, poderia ter dito Eto’o. Camaronês participa dos três gols da Inter no jogo e coloca nerazzurri nas quartas (Associated Press)

A Liga dos Campeões desta temporada já reservou partidas memoráveis. Depois do duelo entre Arsenal e Barcelona, Bayern Munique e Inter protagonizaram um confronto que entrou para a história da competição. Bayern e Inter, de tantas partidas históricas, seja pelo gol de Nicola Berti em 1989-90 ou pela final da última LC, ficaram marcados desta vez porque a equipe nerazzurra, que virou o jogo nos últimos minutos, foi apenas a segunda na história da competição a conseguir reverter uma derrota dentro de casa e seguir em frente na fase eliminatória.

A outra equipe foi o Ajax, de Louis van Gaal, adversário na noite de ontem, que bateu o Panathinaikos em Atenas por 3 a 0, depois de perder em Amsterdam por 1 a 0. Na Allianz Arena, a Inter teve muito mais dificuldades, mas contou com um Eto’o decisivo, autor de um gol e de duas assistências. O camaronês faz jus ao apelido dado à seleção de seu país: é, de fato, um leão indomável. Não um qualquer, mas Rei Leão, como define o narrador Roberto Scarpini, torcedor interista. Eto’o é dono de três títulos da competição de clubes mais importante do mundo e talvez seja o maior jogador da história do futebol africano. Decisivo, deixa sua marca por onde passa. Nesta Liga dos Campeões, participou de 13 dos 15 gols do time no torneio. Marcou oito deles.

Em Munique, Eto’o domou o Bayern. Além de ter participado com duas assistências no segundo tempo, seu gol, logo no início, na saída de Kraft, era o que a Inter precisava para ganhar mais confiança quanto a classificação. A moral da Beneamata, no entanto, acabou abalada durante o jogo, com uma virada que foi construída pelos próprios erros dos nerazzurri. O time perdeu o contrle do jogo porque o meio-campo da Inter batia cabeça, com a contestável opção de Leonardo por colocar Sneijder caindo pela esquerda, prejudicial para o rendimento da equipe. Os outros meias mudavam frequentemente de posição, mas não conseguiam apoiar Maicon, que levou um baile de Ribéry e não subiu ao ataque – apenas 28% das ações interistas aconteceram pelo lado direito. Zanetti, que perdeu o duelo por causa de uma gripe, fez falta: o capitão Stankovic esteve entre os piores em campo.

A partir dos 20 minutos, a Inter entrou em colapso. Júlio César não segurou chute de Robben e falhou feio novamente, após ter dado a vitória aos Roten no jogo de ida, possibilitando que Gómez marcasse o gol de empate. Encurralada, a Beneamata sofria com auto-sabotagens. Pandev deu contra-ataque, Thiago Motta errou corte e deixou bola livre para que Müller virasse o jogo e jogasse o moral nerazzurro para debaixo do tapete. Desmantelada, a Inter correu risco de levar uma goleada histórica ainda no primeiro tempo, mas, entre outras bolas salvas, Júlio César se redimiu da falha defendendo tiro à queima-roupa de Ribéry e Ranocchia ainda cortou bola em cima da linha, em lance incrível.

Mesmo para um time tão acostumado a reações históricas, o placar do intervalo era assustador. Cambiasso, um dos líderes do time, levou as mãos à cabeça, logo após o gol de Müller e foi a imagem perfeita do time. Para marcar dois gols no Bayern, em Munique, só mesmo uma transformação completa de postura nos vestiários mudaria o panorama. E ela veio, com a entrada de Coutinho, que deu mais mobilidade ao time, que ainda chegou a sofrer nos minutos iniciais.

A entrada do brasileiro devolveu Sneijder à sua posição original, centralizado, e possibilitou também que os dois invertessem posições e trabalhassem melhor a bola. A partir de uma jogada entre os dois, da qual também participou Eto’o, o holandês empatou o jogo com um belo chute e abriu a partida.

O Bayern, então, desistiu de atacar. Van Gaal sacou Robben e colocou Altintop, facilitando a vida de Chivu. A Inter, no entanto, acreditou até o fim. Com ações centrais e quase sempre passando pelos pés de Sneijder e Eto’o, a Inter teve duas oportunidades com o holandês e mais uma com Pandev, que vinha mal no jogo e já tinha até tirado um gol de Sneijder. A improbabilidade de o macedônio decidir a partida, em seus minutos finais e com um golaço, foi a cereja do bolo de uma partida confusa, que foi decidida com o coração. A Allianz Arena teve um jogo com muito pouca técnica e bastante desgaste psicológico na segunda etapa. O papel central de Pandev na classificação nerazzurra deve levantar a moral do jogador, que tem passado por fase extremamente opaca.

Júlio César, que desabou em lágrimas no final do jogo pelo fato de os companheiros terem salvado sua pele, pode tomar Pandev como exemplo de redenção. O goleiro é fundamental ao time, ao contrário do atacante, e tem falhado demais em horas importantes. Em três semanas, uma boa atuação no dérbi de Milão será crucial para manter a Inter na briga pelo scudetto. A equipe, que meses atrás se contentaria em limitar os danos da gestão Benítez, está mais que viva nas três competições que disputa e recuperou o ânimo necessário para tentar repetir a tripletta da última temporada. Os jogadores voltaram a acreditar em uma das máximas de Scarpini, entoada após proezas da equipe: nada é impossível para esta Inter.

Veja os melhores momentos aqui e, abaixo, confira as notas atribuídas pelo Quattro Tratti aos jogadores da Inter e a ficha técnica do jogo.

Notas
Júlio César, 5,5 – falhou feio no gol de empate do Bayern e teve outros momentos de insegurança. Ainda assim, evitou pelo menos que os bávaros marcassem mais um.
Maicon, 5 – pouco subiu ao ataque e defendeu mal. Sem a proteção de Zanetti, levou um baile de Ribéry.
Lúcio, 6,5 – usou com precisão sua melhor característica: a força física. Ganhou quase todos os combates.
Ranocchia, 7,5 – desempenhou muito bem os atributos que todo bom zagueiro deve ter. Salvou bola em cima da linha, deu aula de desarme, antecipação e recuperação.
Chivu, 6 – foi muito incomodado por Robben, mas não fez besteiras. Depois da saída do holandês, Altintop não lhe deu trabalho.
Nagatomo (42′, st), sem nota
Stankovic, 5 – seu mérito foi ter participado do gol de Eto’o. Apoiou o ataque, mas esqueceu de ajudar Maicon defensivamente na primeira etapa.
Cambiasso, 5,5 – sem ritmo de jogo, não fez uma grande partida, mas também não comprometeu.
Thiago Motta, 5 – desatento e pouco combativo, mas fundamental para iniciar as açõs do time. Cortou mal bola que originou gol de Müller.
Kharja (45′ st), sem nota
Sneijder, 7 – fez primeiro tempo muito discreto, no lado esquerdo do meio-campo, mas voltou a aparecer após o intervalo, dando dinamismo ao time. Marcou o segundo gol italiano.
Pandev, 7 – muito mal em campo, chegou a tirar um gol de Sneijder. Por outro lado, esteve no centro das ações para gol de Eto’o e marcou o gol decisivo. Teve estrela.
Coutinho (1′ st), 6,5 – entrou bem no jogo, se movimentou muito e trocou constantemente de posição com Sneijder, confundidndo a defesa bávara.
Eto’o, 8,5 – decisivo, autor de um gol e duas assistências, já participou de 13 dos 15 gols da Inter na Liga dos Campeões. É tudo o que Ibrahimovic não foi.
Leonardo, 6,5 – errou ao colocar Sneijder no lado esquerdo no primeiro tempo, mas mudou a cara do time no intervalo.

Ficha técnica
Bayern Munique: Kraft; Lahm, Breno, van Buyten Pranjic; Schweinsteiger, Luiz Gustavo; Robben, Müller, Ribéry; Gómez. Técnico: Louis van Gaal
Banco: Butt, Badstuber, Tymoshchuk, Ottl, Hamit Altintop, Kroos, Klose.
Inter: Júlio César; Maicon, Lúcio, Ranocchia, Chivu (82′ Nagatomo); Stankovic (46′ Coutinho), Cambiasso, Thiago Motta; Sneijder; Pandev (91′ Kharja), Eto’o. Técnico: Leonardo
Banco: Castelazzi, Córdoba, Materazzi, Nagatomo, Mariga, Kharja, Coutinho.
Árbitro: Pedro Proença, de Portugal.
Gols: Gómez (21′) e Müller (31′) para o Bayern Munique, Eto’o (4′), Sneijder (63′) e Pandev (88′) para a Inter.
Cartões amarelos: Breno e Luiz Gustavo (Bayern); Lúcio, Kharja, Thiago Motta e Pandev (Inter).

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