Seleção italiana

A festa da imigração

Filho de nigerianos, Okaka estreou na seleção italiana em dia de celebração para imigrantes (AP)

Amistosos em datas Fifa são normalmente utilizados para que os treinadores das seleções entrosem seus times ou façam testes que julguem necessários. Porém, neste dia 18 de novembro, as experiências que técnico da Itália, Antonio Conte, faria, estavam nitidamente em segundo plano, em uma partida que tinha uma motivação muito mais importante. O amistoso contra a Albânia aconteceu em Gênova para ajudar a recolher fundos para vítimas de uma enorme enchente, que atingiu a cidade – uma das mais chuvosas do país – no início de outubro.

Outro ponto importante: o adversário do dia, a Albânia, tem forte ligação com a Itália. Os albaneses constituem a segunda maior comunidade de imigrantes na Bota, com quase 500 mil pessoas; 5 mil delas em Gênova – historicamente, por causa dos conflitos na região dos Bálcãs e pela proximidade entre os países, que fazem fronteira marítima e estão distantes por cerca de 100 quilômetros, a imigração albanesa é uma das mais antigas da Península Itálica, e a Itália é o terceiro maior destino dos albaneses que deixam o país. Já existem gerações de albaneses nascidos e criados na Itália, bem como a língua italiana é a segunda língua dos albaneses. 

Por tudo isso, o clima nas arquibancadas era de solidariedade e também de festa. Cerca de 15 mil dos 24 mil ingressos vendidos eram dos “visitantes”, que chegaram não só de Gênova, mas também de Bolonha, Turim e Milão. Havia faixas de apoio aos genoveses escritas em italiano na enorme torcida albanesa e eles também cantavam o hino italiano. Não bastasse isso, o técnico do time, Gianni De Biasi, é italiano, e quatro dos jogadores que entraram em campo jogam no país. Tão à vontade no estádio Luigi Ferraris, os albaneses se sentiram felizes com o bom desempenho da seleção – tanto que três torcedores, emocionados, invadiram o campo para abraçar e beijar os jogadores, vistos como herois nacionais, principalmente depois do ocorrido em partidas das Eliminatórias, com a rivalíssima Sérvia.

Em dia em que diversos imigrantes demonstraram solidariedade com o país que o acolheu, nada mais justo que o gol da Itália ter sido marcado por um filho de imigrantes. Okaka, de origem nigeriana, estreava na Nazionale após ótimos meses com a Sampdoria, e, no estádio da sua equipe, participou do gol que deu a vitória aos azzurri. Após escanteio cobrado por Bonaventura, desviou de cabeça e viu a bola desviar em Salihi, encobrindo Berisha. Uma ótima resposta a Carlo Tavecchio, presidente da Federcalcio, que havia dado declarações racistas na corrida eleitoral que o levou ao comando do futebol no país.

Antes disso, nos primeiros 81 minutos da partida, se viu uma Itália com apenas um jogador com status de titular – Bonucci – e outros dois com possibilidades de ter uma vaga entre os onze – Cerci e Destro. Aproveitando o fato de a partida ser em Gênova e ter fins beneficentes, Antonio Conte privilegiou a utilização de jogadores que jogam ou já haviam jogado pelos times da casa, Genoa e Sampdoria – ao todo, 11 dos 17 que entraram em campo pela Squadra Azzurra.

O primeiro tempo foi equilibrado e movimentado. A Itália teve boas chances com Cerci, Bonucci e Destro, a Albânia com Cikalleshi e Memushaj. Nas chances dos visitantes, mais claras, o primeiro acertou uma bomba na trave, e no rebote, o segundo chutou à esquerda do gol de Sirigu. A Itália se defendia com quatro jogadores, em uma espécie de 4-5-1, e atacava num 3-5-2 transmutável em 4-3-3, uma vez que Antonelli não subia tanto quanto Cerci, que atuava bastante espetado. De Silvestri, lateral direito de origem, pouco avançou, e atuou como zagueiro em quase toda a partida.

Conte pedia que a Itália atuasse de forma mais vertical, utilizando Parolo, Bertolacci e Aquilani, que deveriam acionar Giovinco e Cerci. Porém, somente uma vez, na segunda etapa, isso se viu: após boa trama, Destro acabou chutando para fora, na melhor oportunidade criada pelos azzurri. Já os albaneses, que se defendiam bem e concediam poucos espaços, quase aproveitaram duas bobeiras da defesa italiana, a primeira de Sirigu e a segunda de Moretti.

Conte como Dunga

No geral, a Itália acabou mostrando menos do que poderia, mas com tantos testes, Antonio Conte ficou satisfeito com a postura do time, em uma postura muito similar à que Dunga tem no comando da seleção brasileira. Primeiro, elogiou o fato de que um time com muitos estreantes – um deles, Acerbi, premiado após ter vencido um câncer testicular – ter vencido um adversário duro, que luta para se classificar à Euro 2016 e que venceu Portugal fora de casa e empatou com a França também longe de seus domínios. Celebrou que, mesmo com testes, continua invicto: em seis jogos, são cinco vitórias e um empate. 

Conte cobrou, ainda, um maior engajamento de todos em relação à seleção e criticou o calendário de jogos de seleções (a próxima partida oficial é daqui a quatro meses, apenas em março). E, claro, também reservou palavras para Balotelli, a quem mandou uma bela mensagem, caso o atacante queira ser novamente convocado – o jogador do Liverpool se machucou nos treinamentos da seleção, após ganhar uma chance, mesmo em má fase. Confira trechos de sua entrevista.

“Já se passaram três meses (de trabalho na seleção) e começo a ter coisas bem claras: todos dizem que estes são tempos difíceis, e precisamos mudar. Então você se vira e vê que você está sozinho. A seleção é visto apenas como um incômodo. Continuamos. Em seis jogos, vencemos cinco e empatamos um. Algumas pessoas podem fazer cara feia, mas nós continuamos a trabalhar com jovens que trabalham para permanecer no radar da equipe nacional. Nós temos que ficar quietos e trabalhar. Faremos tudo sozinhos, ninguém nos ajuda. Nos armaremos, jovens e velhos. Vocês (da imprensa) devem ter paciência”.

“Vamos tentar trabalhar, fazer algumas reuniões para ver como é a situação em geral. Eu preciso trabalhar com esses garotos, e ficar quatro meses sem eles é um problema. Se a seleção vem depois de tudo, precisamos colocar a mão na consciência. Precisamos ser humildes e gostar de trabalhar duro, se quisermos ir à frente. Caso contrário, será apenas o começo da decadência. O futebol italiano não segue o caminho certo. Temos de perceber isto e, em seguida, passar das palavras aos atos. No geral eu estava esperando mais a participação de todos”.

“Não tenho a pretensão de ser capaz de mudá-lo (Balotelli). Outros treinadores no passado não conseguiram, ele é que precisa perceber isso. Mas eu não tenho muito tempo, e para algumas coisas, isso é necessário”.

Itália 1-0 Albânia

Gol: Okaka, 82′

Itália: Sirigu (Perin 71); De Silvestri, Bonucci (Acerbi 81), Moretti, Antonelli; Aquilani, Parolo, Bertolacci (Bonaventura 71); Cerci (Gabbiadini 76), Destro (Okaka 65), Giovinco (Matri 65).

Albânia: Berisha; Hysaj (Ajeti 74), Cana, Mavraj, Agolli; Lila, Abrashi (Shala 71), Kukeli (Roshi 66), Memushaj, Lenjani (Balaj 86); Cikalleshi (Salihi 78)

Árbitro: Harkham (AUT)

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