Liga dos Campeões

Um péssimo dia para falhar

Em segundo tempo irreconhecível, Juve levou o mesmo tanto de gols que
sofreu em toda a campanha até a final e foi atropelada pelo Real
Madrid; o sonho da tríplice coroa escorreu pelas mãos pela segunda vez
em apenas dois anos e Buffon continua sem levantar a orelhuda (Foto: AP)

Menos de dois anos após a derrota para o Barcelona na final da Liga dos Campeões 2014-15, a Juventus voltava à decisão do maior torneio da Europa com a impressão de que dessa vez estava mais preparada para vencer e, finalmente, conquistar a desejada tríplice coroa. Se naquele 6 de junho de 2015 uma vitória contra o poderoso MSN seria considerada zebra total, neste 3 de junho de 2017 tinha até quem apostasse na sólida Juve de Allegri como ligeira favorita.

O sonoro 4 a 1 sofrido contra o Real Madrid, em Cardiff, portanto, surpreendeu e deixou gosto amargo que há muitos anos os torcedores da Velha Senhora não sentiam. Um amargor forte de decepção, de quem foi quase perfeito em todo o caminho, mas fraquejou e falhou logo na linha de chegada. No vice-campeonato de 2015, contra o Barcelona, o sentimento ao fim do jogo era de dever cumprido, de que o time foi até onde deu. Dessa vez, a impressão é que a equipe podia mais, que os jogadores não foram aos seus limites. 

O torcedor juventino não consegue parar de se perguntar como um time que tomou apenas três gols em toda a campanha conseguiu levar quatro em 90 minutos – e logo no jogo mais importante. Como deixaram o Cristiano Ronaldo solto dentro da área duas vezes? Por que Dybala sumiu? Onde foi parar o Higuaín matador do Campeonato Italiano? E o Daniel Alves agudo e eficiente das semifinais?

Mais fácil acreditar que todos os jogadores foram sequestrados no intervalo e que aqueles que voltaram para o segundo tempo eram apenas sósias do que encontrar as respostas para essas perguntas. Porque a Juve da segunda etapa esteve irreconhecível. Aquela concentração do primeiro tempo que fez o time superior ao Real Madrid nos primeiros 45 minutos virou pó após o intervalo. 

Na primeira parte, a Juve teve forças para empatar o jogo – em belíssimo gol de Mandzukic – logo após após a única falha do primeiro tempo, que deixou Cristiano Ronaldo sem marcação para abrir o placar. Mas, na segunda, não soube o que fazer com o deslocamento de Isco para o lado esquerdo do campo. O meia espanhol desmontou a marcação italiana ao fazer dupla com Marcelo por ali e faltou brio para a Velha Senhora entrar de novo no jogo. Em condições normais, Bonucci teria se jogado para completar aquela cabeçada de Alex Sandro que passou ao lado da trave e poderia ter incendiado o jogo em um hipotético 3 a 2. 

Mas, antes, o 2 a 1, em chute de Casemiro desviado pela zaga, logo no início do segundo tempo, e o 3 a 1 de CR7, já tinham abalado demais toda a equipe. Do banco, o técnico Massimiliano Allegri pouco pode fazer para recolocar seu time na partida. Tentou mudando o esquema com a entrada de Cuadrado no lugar de Barzagli, mas o colombiano pouco ficou em campo, vítima de mais uma malandragem de Sergio Ramos. Marchisio, outro longe de seus melhores momentos, também foi opção, no lugar de Pjanic, mas em nada mudou a postura do time, que ainda teve a substituição de seu maior craque, Dybala, para dar lugar a Lemina.  

Do outro lado, Zidane tinha um banco de reservas muito melhor para manter a supremacia do seu time e viu Bale, Morata e Asensio entrarem bem para não deixarem o ritmo cair e levarem o Real ao 12º título da Liga dos Campeões da sua história, se tornando o primeiro bicampeão consecutivo da era moderna do torneio. Quem diria que logo Zidane, craque pela Juventus em solo italiano, daria tanta alegria a interistas um dia? Pois os torcedores do lado azul de Milão podem comemorar: a Inter continua a única italiana a ter alcançado o triplete. 

A derrota faz da Juve a maior vice-campeã da história da Liga dos Campeões, com sete derrotas em finais (perdeu as últimas cinco que disputou), e estraga o sonho de milhões que torciam para Buffon finalmente conquistar o único título que lhe falta, mas não significa terreno devastado em Turim. O time continua um dos mais competitivos da Europa, deve manter o projeto com Allegri para os próximos anos (a renovação já está encaminhada) e conta com o apoio da torcida: mesmo abalada pela derrota e pelo pânico que deixou mais de 1500 feridos na Praça San Carlo, recebeu os vice-campeões com aplausos no aeroporto de Turim. A cidade e a equipe precisam juntar as forças e tentar de novo na próxima temporada.

Juventus 1-4 Real Madrid

Juventus: Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Daniel Alves, Khedira, Pjanic, Mandzukic, Alex Sandro; Dybala e Higuaín. Técnico: Massimiliano Allegri. 

Real Madrid: Navas; Carvajal, Varane, Sergio Ramos, Marcelo; Casemiro, Kroos, Modric; Isco, Benzema e Cristiano Ronaldo. Técnico: Zinédine Zidane. 

Gols: Cristiano Ronaldo, Mandzukic, Casemiro, Cristiano Ronaldo e Asensio. 

Local: Millennium Stadium, em Cardiff, no País de Gales. 

Árbitro: Felix Brych (Alemanha)

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