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Itália ou Argentina? Na Copa de 1990, racha na Bota foi realçado pelo amor por Diego Maradona

Em toda a história, poucos jogadores conseguiram se tornar sinônimos de uma seleção e de um clube ao mesmo tempo. Pertencente a este grupo exclusivo, Diego Armando Maradona foi (e é) a cara da Argentina e do Napoli, time do sul da Itália pelo qual construiu uma bela trajetória ao longo de sete anos – inclusive, o Pibe teve seu nome atribuído ao estádio de Nápoles como homenagem póstuma. Curiosamente, na Copa do Mundo de 1990, quis o destino que o grande ídolo partenopeo, vestindo a camisa albiceleste de seu país, encontrasse justamente a Nazionale italiana na semifinal da competição. O embate ganhou um tempero extra por acontecer no antigo San Paolo, casa adotada pelo craque, e realçar questões sociopolíticas.

Nápoles foi a base da Argentina na fase de grupos do Mundial. Foi uma decisão arbitrária tomada pelo comitê organizador da competição, para aproveitar o público que Maradona, potencialmente, levaria ao San Paolo. O mesmo ocorreu com a Itália, que fincou raízes em Roma, capital do país, e com a Alemanha Ocidental, que foi alocada em Milão por conta das estrelas que atuavam pela Inter – Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann e Andreas Brehme.

Se tudo corresse conforme as expectativas e as três seleções confirmassem as primeiras posições em suas chaves, elas permaneceriam nas respectivas cidades até as quartas de final da Copa. Itália e Alemanha Ocidental não escorregaram e seguiram o trajeto planejado. A Argentina, porém, passou por poucas e boas na fase de grupos, se classificando na bacia das almas, como uma das melhores terceiras colocadas. O passo em falso na estreia pelo Mundial contribuiu para fortes emoções logo na fase inaugural – e para um caminho surpreendente para a albiceleste, que defendia o título obtido em 1986.

Logo no debute, assim como em 2022, a Argentina perdeu um jogo em que era claramente favorita. A zebra da vez foi Camarões, na partida de abertura – a única da fase de grupos que a albiceleste mandou fora de Nápoles. Num San Siro que cobriu Maradona de vaias, os africanos bateram os portenhos por 1 a 0. O gol foi anotado pelo atacante François Omam-Biyik, que chegou a defender a Sampdoria por seis meses em 1998. Depois do revés em Milão, os hermanos seguiram em frente aos trancos e barrancos, mesmo sem jogar o melhor futebol.

Bergomi, da Inter, e Maradona, do Napoli, eram os capitães de Itália e Argentina num duelo que evocava rivalidade entre norte e sul da Bota (imago)

Na segunda partida, no San Paolo, a Argentina venceu a União Soviética por 2 a 0, com gols de Pedro Troglio, na época volante da Lazio, e Jorge Burruchaga – e também graças a uma mãozinha de Maradona, que usou o braço para evitar um tento vermelho. No duelo decisivo contra a Romênia, Dieguito finalmente deu as caras e assistiu Pedro Monzón no único tento sul-americano no empate por 1 a 1. Os quatro pontos foram suficientes para as oitavas de final, que seriam ainda mais difíceis.

Para encarar o adversário seguinte, a seleção albiceleste teve de cruzar a Itália: trocou Nápoles, no sul, por Turim, no norte. No Delle Alpi, nova casa da Juventus, Maradona enfrentaria o ódio dos bianconeri por sua figura, identificada como sinônimo de um dos grandes rivais da Velha Senhora. Pior: encararia o Brasil, que vinha com uma campanha de 100% de aproveitamento na primeira fase e passava por um momento bem menos conturbado do que o vizinho.

O artilheiro brazuca, Careca, não conseguiu ofuscar Dieguito, seu colega de equipe. Maradona, aliás, novamente fez a diferença, mesmo jogando com uma infiltração no tornozelo desde a peleja contra a União Soviética, por conta de uma pancada sofrida no duelo com Camarões. A seleção canarinho já tinha acertado três vezes a trave quando o camisa 10 da Argentina produziu uma jogada genial já nos derradeiros minutos do clássico sul-americano. O craque arrancou, deixando três adversários para trás, e ainda deu um passe de direita por entre as pernas de Mauro Galvão, que se chocou com Ricardo Gomes. Claudio Caniggia saiu cara a cara com Taffarel, driblou o arqueiro e balançou as redes.

Nas quartas de final, outro jogo duríssimo para a Albiceleste: empate em 0 a 0 com a Iugoslávia, em Florença. Tal qual nas outras praças distantes de Nápoles, Maradona foi hostilizado pelos italianos presentes. Dessa vez, o argentino saiu por baixo, porque perdeu a sua cobrança de pênalti, mas duas defesas de Sergio Goycochea garantiram a equipe sul-americana entre as quatro melhores do mundo, junto de outras três seleções europeias: Inglaterra, Alemanha e Itália. No San Paolo, a Argentina enfrentaria a dona da casa – mas com um anfitrião a tiracolo.

Após rebote de Goycochea, o oportunista Schillacci abriu o placar para a Itália, ainda no primeiro tempo (Getty)

Com um sistema defensivo impecável, a Squadra Azzurra chegou às semifinais sem sofrer um gol sequer. Primeiro bateu a Áustria por 1 a 0. Posteriormente, os Estados Unidos, em um dos casos raros em que a anfitriã enfrentou o país-sede da edição seguinte – de novo, o placar foi de 1 a 0. Azeglio Vicini promoveu alterações após a segunda rodada: alçou ao onze inicial Roberto Baggio e Salvatore Schillaci, que o levaram a uma vitória mais tranquila sobre a Checoslováquia (2 a 0), e na sequência, os triunfos no mata-mata sobre Uruguai e Irlanda, por 2 a 0 e 1 a 0, respectivamente. Então, depois de cinco jogos consecutivos no Olímpico de Roma, a Nazionale foi para outro palco da Velha Bota e não teve a mesma sorte.

Como dito no começo do texto, a Itália não era a única jogando em casa – pelo menos nesse confronto. Maradona e seu laço com a cidade de Nápoles compunham um ingrediente a mais para esse duelo histórico. Diego não poupou palavras antes da partida, e tentou trazer para seu lado e de seu país todos os napolitanos que o idolatravam – ainda que, numa entrevista concedida ao jornalista Gianni Minà, da Rai, tenha declarado que não premeditou esse efeito.

“Pedem para os napolitanos serem italianos por um dia, enquanto, durante os outros 364, se referem a eles como terroni”, disparou o craque. Tudo passava pela questão da rivalidade regional: o norte do país e seu preconceito contra o povo do sul. Aliás, o termo pejorativo citado na fala, terroni, é uma palavra de cunho xenófobo para se referir aos sulistas. Em sua entrevista, Maradona lamentava ainda o fato de ver faixas ofensivas e ouvir cânticos racistas em direção aos partenopei sempre que atuava na parte setentrional da Itália, em cidades como Verona e Milão.

Podem até dizer que Maradona não pensava antes de falar, mas dessa vez escolheu a dedo o que sairia de sua boca para confundir os corações mais indecisos. Ainda que, a jornalistas, ele tenha pontuado que não estava tentando atrair o apoio dos aficionados pelo Napoli. “Não peço a torcida dos napolitanos, apenas o respeito deles – e que a Itália os respeite. Eu e meus colegas de seleção sabemos que eles são italianos, mas os próprios italianos é que devem entender que os napolitanos também são italianos”, afirmou.

Schillaci, que se sagraria artilheiro da Copa, não passou em branco na semifinal contra os argentinos (AFP/Getty)

Depois de tudo o que o Pibe d’Oro falou, o San Paolo não chegou a ter uma atmosfera meio a meio. Porém, com certeza havia simpatizantes do craque argentino no estádio – e críticos à Itália também, visto que o Hino de Mameli chegou a ser vaiado por parte do público presente. O clima predominante, no entanto, foi sintetizado pela frase presente numa das faixas colocadas nas tribunas: “Maradona, Nápoles te ama, mas a Itália é nossa pátria”. No fim das contas, para muitos partenopei, não era um jogador contra a Nazionale. Era a Argentina.

A seleção sul-americana contava com o histórico goleiro Goycochea e atuava com três zagueiros – José Serrizuela, Oscar Ruggeri e Juan Simón formavam a retaguarda. No meio-campo, Julio Olarticoechea fazia a ala esquerda, enquanto Gabriel Calderón, Jorge Burruchaga e Ricardo Giusti ocupavam a faixa central e José Basualdo fechava na direita. Lá na frente, Caniggia e Maradona resolviam a parada para o treinador Carlos Bilardo.

Uma das formas de parar esse ataque genial era com uma defesa igualmente acima da média, o que era o caso da Itália. Logo na meta, o homem-aranha Walter Zenga ocupava o posto debaixo das traves. À frente, as lendas rossoneri Paolo Maldini e Franco Baresi jogavam com os nerazzurri Riccardo Ferri e Giuseppe Bergomi, esse último o capitão da seleção.

Caniggia perdeu o duelo para Baresi até meados do segundo tempo da partida disputada em Nápoles (imago/Colorsport)

O meio-campo tinha Luigi De Agostini e Giuseppe Giannini se alternando pelo setor canhoto, enquanto a porção direita do 4-4-2 contava com Fernando De Napoli e Roberto Donadoni, que caía pelo flanco. No ataque, Gianluca Vialli, que não atuava desde a segunda partida da fase de grupos, ganhou a vaga de Baggio para jogar praticamente como um ponta esquerda caindo para dentro. Por sua vez, Schillaci mantinha o posto como centroavante. E Totò foi o grande nome da primeira etapa de uma peleja truncada.

O jogo teimava em não fluir pelo excesso de faltas. Ambos os times mostravam muita vontade de vencer, principalmente na marcação, porém pecavam na criatividade, optando muitas vezes pelas bolas longas e por finalizações de longa distância. A primeira oportunidade veio do lado argentino, com uma pancada de Burruchaga e boa defesa de Zenga. No troco italiano, a chance foi melhor aproveitada.

Com 15 minutos de bola rolando, os azzurri fizeram boa troca de passes até que Giannini executou a jogada diferenciada, que estava faltando. De primeira, aproveitou o passe pingando que veio em sua direção e chapelou o defensor. Ajeitando de cabeça, deixou para Vialli emendar uma bomba de voleio. Goycochea não conseguiu segurar, e o matador Schillaci não perdoou. O San Paolo ia à loucura, enquanto a seleção italiana se empolgava com a dianteira no placar.

Num lance fortuito, Zenga saiu mal do gol e Caniggia acabou sendo o responsável por vazá-lo pela primeira vez na Copa (STAFF/AFP/Getty)

Mais confortáveis em campo, os europeus souberam aproveitar a vantagem e mantiveram o duelo morno. Além das faltas, conseguiam gerenciar uma posse mais cadenciada e tinham facilidade para chegar na meta adversária. Maradona, praticamente apagado, só teve uma chance na primeira etapa: fazendo duas embaixadinhas na frente da grande área, bateu girando em direção ao gol, para defesa tranquila de Zenga.

O arqueiro italiano, aliás, bateu recorde ainda antes do intervalo como goleiro que ficou mais tempo sem sofrer gols em Copas do Mundo. No total, foram 517 minutos seguidos sem que sua meta fosse violada. Um número absoluto, que perdura até hoje. No entanto, a segunda etapa não teve uma exibição tão segura de sua parte, o que custou o fim dessa contagem.

Ainda com mais posse após o descanso, a Itália não ofereceu perigo. Por sua vez, seu adversário buscava opções de ataque, o que deixava o jogo mais aberto. A primeira chance ocorreu aos 57 minutos, em chute firme de Olarticoechea, que parou em boa defesa de Zenga. Pouco tempo depois, Caniggia foi acionado, mas na hora de concretizar a jogada com arremate no contrapé do arqueiro, Baresi chegou para bloquear a finalização.

Caniggia só marcou gols importantes na Copa: afundou o Brasil, nas oitavas, e igualou o jogo com a Itália, na semifinal (imago)

Na primeira falha defensiva italiana, o empate argentino saiu do papel. Maradona acionou Burruchaga, que descia pela ponta esquerda. Puxando para dentro, o meia cruzou em direção ao gol com a direita, e o arqueiro saiu mal para socar a bola. Esperto, Caniggia se antecipou e só escorou com a cabeça, tirando a pelota da trajetória dos azzurri e fazendo-a morrer no fundo das redes.

Num confronto travado, a média era de uma falta a cada 60 segundos. Criar jogadas era difícil e, assim, Vicini decidiu tirar Baggio do banco e colocá-lo na vaga de Vialli – Robi, porém, pouco fez no tempo regulamentar. A melhor chance caiu no pé de De Agostini, a 10 minutos do fim. Donadoni puxou rápido ataque, foi esperto, e esperou a hora certa para tocar para o companheiro. No chute, Luigi não foi bem, e Goycochea estava bem posicionado para evitar o gol.

A prorrogação entregou ainda mais momentos de tensão, especialmente para os argentinos. Na grande chance da meia hora a mais de futebol, o jovem Baggio já mostrava sua categoria ao bater falta com seu típico capricho. A bola buscava o ângulo e Goycochea precisou se esticar todo para evitar o golaço do craque. Na sequência, a Albiceleste ficou em situação complicada, graças à expulsão de Giusti, mas a Itália não conseguiu criar nenhuma ocasião memorável em mais de 20 minutos de prorrogação. A conta veio.

Baresi começou a disputa de penalidades e bateu firme para abrir o marcador. Sob vaias do estádio inteiro, Serrizuela por pouco não parou em Zenga. Chutou no meio do gol, mas o goleiro se mexeu um pouco antes, não pegando por um detalhe. Baggio também passou por fortes emoções. Goycochea acertou o lado e tocou na bola, que entrou mesmo assim. No segundo pênalti argentino, Burruchaga só deslocou o adversário. De Agostini mandou a terceira batida italiano no ladinho da rede com uma bela chapada. Um dos melhores da partida, Olarticoechea também converteu o seu. Depois desse momento, começou a brilhar a estrela do arqueiro portenho.

Donadoni e Serena, em seguida, pararam em Goycochea – e a Itália ficou pelo caminho (AFP/Getty)

Donadoni cobrou do jeitinho que os goleiros gostam: fraco e a meia altura. Goycochea voou no canto certo e espalmou para longe. Sem pensar duas vezes, Maradona foi para a quarta penalidade argentina e, na sua classe habitual, tirou de Zenga com categoria. O clima do estádio, tomado por uma completa melancolia, passou a contribuir para os visitantes daquela noite. Aldo Serena foi para a última cobrança, encheu o pé cruzado e, novamente, o arqueiro portenho pulou para defender, se consagrando como o herói da noite.

Na sequência do torneio, a Itália conseguiu dar o prêmio de consolação aos seus torcedores batendo a Inglaterra na disputa de terceiro lugar, com gols de Schillaci, o artilheiro do Mundial, e de Baggio, cada vez mais em via de consolidação com a camisa da Nazionale. Para Maradona, os dias seguintes seriam complicados.

A Argentina viajou para a capital italiana para disputar a decisão com a Alemanha Ocidental, e se concentrou no centro de treinamentos da Roma, em Trigoria. El Diez, porém, reclamou do tratamento dado por Dino Viola, presidente giallorosso, que estaria dificultando o acesso ao mínimo de infraestrutura necessária para a delegação portenha se acomodar e desenvolver suas atividades. Houve, ainda, um tumulto envolvendo Raúl, irmão do craque, o próprio Diego, policiais e vigilantes do CT. Para Maradona, tudo fazia parte de um complô, motivado por revanchismo.

Nunca será possível mensurar se aquele clima tenso atrapalhou a preparação albiceleste. Mas o fato é que, na finalíssima, a Argentina acabou derrotada pela Alemanha, ficando com o vice. Jogando no Olímpico, os sul-americanos tiveram seu hino vaiado. “Hijos de puta, hijos de puta”, devolveu Maradona para os torcedores, que seguiam na bronca com o Pibe d’Oro. A câmera da transmissão fechou nele durante os assobios dos milhares de italianos presentes no estádio e a imagem de um Dieguito revoltado ficou eternizada na história das Copas do Mundo. A de uma Itália dividida, no subtexto, também.

Itália 1-1 Argentina (3-4 nos pênaltis)

Itália: Zenga; Bergomi, Ferri, Baresi, Maldini; Donadoni, De Napoli, Giannini (Serena), De Agostini; Schillaci, Vialli (Baggio). Técnico: Azeglio Vicini.
Argentina: Goycochea; Ruggeri, Simón, Serrizuela; Basualdo (Batista), Giusti, Calderón (Troglio), Olarticoechea; Burruchaga; Maradona, Caniggia. Técnico: Carlos Bilardo.
Gols: Schillaci (17′); Caniggia (67’)
Pênaltis convertidos: Serrizuela, Burruchaga, Olarticoechea e Maradona; Baresi, Baggio e De Agostini
Pênaltis desperdiçados: Donadoni e Serena
Cartão vermelho: Giusti
Árbitro: Michel Vautrot (França)
Local e data: estádio San Paolo, Nápoles (Itália), em 3 de julho de 1990

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