Serie A

Mesmo calcio, outro caos

Torcedores sempre se encontram pelas auto-estradas italianas em dia de jogo. Por conta da proximidade das cidades, ir de automóvel, na maioria das vezes, é a maneira mais simples de se chegar ao estádio adversário. Como ocorre há décadas, torcedores de Juventus e Lazio se encontraram na região de Arezzo. Os laziali seguindo para Milão, os juventini descendo para Parma. Muitas vezes, as provocações descambam para brigas de pequenas proporções, assim como a que ocorreu neste domingo. Um policial atirou duas vezes. Na primeira, para cima, tentando dispersar os arruaceiros. Na segunda, acertou o dj Gabriele Sandri, laziale, 28 anos, jamais ligado a algum movimento ultra. Alegou ter atirado sem querer, enquanto corria. A recomendação é de ter a arma guardada no coldre, após o primeiro disparo. Intencional ou não, o estrago já está feito. Na família de Sandri, na família do policial… e, outra vez, no futebol italiano.

Sandri: 28 anos, mais uma vítima da violência no calcio

Polícia versus torcedores
O episódio que culminou na morte do inspetor Filippo Raciti no dérbi siciliano entre Catania e Palermo, em fevereiro último, foi mais um entre os vários incidentes envolvendo torcida e polícia na Itália. Porém se eternizou por 250 ultrà catanesi iniciaram um embate com as forças de ordem, numa guerrilha urbana sem precedentes dentro de um estádio. Um amistoso da Itália contra a Romênia que ocorreria três dias depois foi cancelado, mas o campeonato recomeçou normalmente. Apenas o Catania foi obrigado a jogar de portões fechados em campo neutros (Lecce, Cesena e Rimini) até o fim do campeonato.

Ações foram tomadas, o que se questiona é a efetividade das mesmas a longo prazo. Esporte e segurança continuaram a ser trabalhados de forma separada, e os stewards continuaram de mãos atadas. Estes últimos são membros de força de guarda contratados pelos times mandantes, para auxiliar na administração de seus estádios em dia de jogo, sem porte de arma ou poder de voz de prisão. Talvez nem isso adiantasse. A guerrilha foi instaurada em Roma, Milão, Taranto e Bérgamo na noite de ontem, contra policiais, civis e instituições. Mais de quarenta policiais foram feridos numa “aliança” inesperada entre as torcidas de Roma e Lazio. Por mais inapta que seja a polícia, o comportamento dos ultrà chegou a um ponto ridículo.

Questão ultra e ineficácia governamental
Difícil encontrar um adjetivo melhor que palhaçada, para este caso. O torcedor que vai a campo tem direito a assistir o jogo pelo qual pagou, torcendo, gritando, incentivando, vaiando. Mas nenhum pode tirar do outro este direito, como fizeram parte dos ultrà da Atalanta, na partida contra o Milan. Bellini e Doni ainda tentaram, sem sucesso, convencer esta parte da torcida de que os outros estádios estavam com situação normalizada, e só no Atleti Azzurri ocorria tal manifestação. A morte de um torcedor – por mais lamentável que seja – não é motivo para o cancelamento de uma partida que ocorrerá menos de uma hora depois. Faixas pedindo por justiça, cantos de luto, minuto de silêncio… Sempre há várias alternativas válidas. Encerrar uma partida já iniciada é um ato grosseiro, que mostra até onde chegam os tentáculos das organizadas italianas.

Talvez o mais certo, mesmo que não o mais agradável, seja dar os pontos da partida ao Milan, além de punir a Atalanta por outros jogos. Já se antecipando aos fatos, Ivan Ruggeri, presidente do clube bergamasco, anunciou, com uma declaração polêmica, que sua curva estará fechada: “se não resolve o Estado, eu o faço.” E deu um bom exemplo de como é o relacionamento dos torcedores organizados com as autoridades. Ao ser questionado pela Sky, disse que falar com o comando dos ultrà “é como falar com um muro.” O observatório da Federcalcio anunciou, também hoje, que o programa para o cadastramento dos torcedores será acelerado, o que dará uma nova configuração às torcidas. Pelo menos na teoria.

Repetir o modelo inglês no combate à violência, algo tão discutido no Brasil e na Itália, pode esbarrar nas questões culturais do país. Porém continua sendo um projeto com bastante crédito no qual se inspirar. Difícil é aguardar que, a curto prazo, os campos italianos voltem a estar lotados. Mesmo que a violência seja controlada, a péssima infra-estrutura da maioria dos estádios continuará coibindo a presença do “torcedor comum”.

Paralisação do campeonato
Eis o ponto mais crítico entre as reações que se seguiram ao homicídio de Sandri. Antonio Matarrese, presidente da Lega Calcio, deixou clara em sua declaração como seriam delicadas as conversas a favor de uma paralisação: “peço aos expoentes do calcio para cogitarem a possibilidade de suspender o campeonato por algumas semanas.” Entenda-se por estes expoentes as equipes que estão em competições européias (as duplas de Roma e Milão, além da Fiorentina) e a Juventus. Além do fato de que uma longa paralisação atrapalharia o desempenho destes times em âmbito europeu, a possível revisão dos contratos de patrocínio e dos direitos televisivos.

Salernitana-Ancona, jogo adiado valendo a liderança do grupo B da Serie C1, hoje ocorreu normalmente. Mas os jogos deste fim de semana pelas séries B e C foram adiados para data ainda a confirmar. A Serie A já previa recesso por conta do encontro da Azzurra com a Escócia, pelas Eliminatórias da Eurocopa. É impossível, hoje, saber o que esperar. Além das perdas financeiras e esportivas, uma suspensão do campeonato “por algumas semanas”, como pediu Matarrese, pode gerar um aperto no fim do calendário, com o campeonato se encerrando muito próximo à Euro. Já uma “decisão exemplar”, nas palavras da ministra das políticas juvenis e das atividades esportivas Giovanna Melandri, poderia acarretar, em última instância, um rompimento unilateral das relações entre a Federcalcio e os principais clubes. Uma liga alternativa à federação não seria uma ocorrência impossível, nessa situação.

15 comentários

  • “Maioria dos estádios italianos” não significa San Siro, San Filippo e Olimpico di Roma. Ou ainda o San Paolo, que em setembro recuperou o direito de sediar partidas internacionais.

    Até os mais famosos estádios apresentam graves problemas de infra-estrutura hoje. O Delle Alpi foi fechado para reformas, para, entre outras coisas, melhorar a visibilidade, consertar os problemas de irrigação do gramado e ampliar sua capacidade. O Artemio Franchi de Florença, apesar da bela arquitetura, apresenta má visibilidade nas tribunas centrais e dificuldade na entrada e saída de torcedores.

    A maioria dos campos italianos, aliás, possuem pista de atletismo, para garantir auxílio financeiro do Coni, o comitê olímpico local.

    E infra-estrutura não é somente a beleza do estádio. Inclui desde sua acessibilidade até a segurança de quem está lá dentro, além de itens básicos, como alimentação e higiene. A situação não é mais crítica porque a norma Pisanu, de fevereiro, obrigou todos os estádios italianos a passarem por reformas razoáveis. Mas não é com consertos de uma semana que se resolve um grande problema.

    Fique à vontade para me convencer do contrário 🙂

  • Concordo con Braitner. Os estadios italianos passaram por reforma na epoca da Copa do 90 mas como sempre acontece, o dinheiro foi desviado…Conheço muitos estadios italianos e no Brasil jà fui em muitos estadios(Maracanà,Morumbi, Pacaembu, Vila Belmiro,São Januario,Fonte Nova,Moises Lucarelli e… nem lembro mais).Não me constou uma grande diferença entre os estadios de aqui e os brasileiros, alias em alguns do Brasil que são particulares, anotei mais recursos do que aqui.Mas voltando no assunto do seu post, o problema infelizmente è cultural e por conseguinte, politico.Dos tumultois de anteontem aqui em Roma participaram cerca de 800 torcedores e apenas 3 ficaram presos, agora dizem que serão tomadas medidas de urgencia…mas aquelas do fevereiro pasado jà eram de urgencia…
    Abraço

  • A reforma Pisanu reformou pouco, atrapalhou ainda mais o torcedor e mudou apenas as entradas com portões que possuem acesso por catracas eletrônicas. Falam que aumentou a segurança…alguém me explique o porquê.

    A grande loucura foi a construção das pista de atletismo que atrapalham muito a visão e garante auxílio financeiro (pouco na realidade), não do CONI, porém das prefeituras, donas dos estádio (apenas o Olímpico de Roma é do CONI).
    O que esta abaixando muito o publico foi “moggiopoli”, as violências, a TV digital que passa ao vivo todos os jogos e os preços altíssimos dos bilhetes em um país que viu aumentar do 100% os preços de todos os bens com a chegada do “maldito” euro.

    Os 3 presos de Roma são a conseqüência do desastroso governo Prodi, culturalmente a esquerda italiana é a favor das penas leves (a prova é o recente indulto que soltou para as ruas até homicidas). O ministro do Interior Giuliano Amato deu a vergonhosa ordem de evitar o contato físico com os bandidos que estavam assaltando as estações da policia em Roma, coisa que nunca aconteceu depois do fim da II Guerra mundial. Pessoalmente teria mandado o exercito de carros armados.
    E’ muito triste ver o italiano estar com saudade do ex-primeiro ministro Berlusconi…

  • Concordo com tudo o que o Igor falou, parabens! vc està por dentro da realidade do meu Pais.
    O problema è politico-cultural com “capricho” do interesse economico das emissoras via-cabo.
    Verdade que a catraca eletronica nada resolveu, tampouco a lei absurda de não puder vender o ingresso no dia do jogo. Sobre as pistas do atletismo elas são heranças das Olimpiadas do 1960. E’ verdade que tivemos a Copa do 90, mas muito dinheiro foi desviado. E mais, como o Igor ressaltou, o problema è que aqui não existem estadios particulares. Aqui em Roma se cogita de construir um estadio particular desde a epoca do Dino Viola (o presidente que trouxe Falcão e Cerezo aqui).Mas nada de concreto foi feito.No entanto, na proxima rodada da serie A estão proibidas quase todas as caravanas dos torcedores…
    Abraço

  • Este episódio, na minha opinião não afecta o futebol. Ela pode acontecer em qualquer lugar e ser qualquer pessoa envolvida. Aqui trata – se de um assassinato que teve muito clamor, pois apenas diz respeito a uma fã do Lazio. No entanto, é direito de suspender, durante pelo menos uma semana campeonatos para evitar confrontos entre policiais e torcedores. Desculpe pelo terrível português 🙂

  • E aì Braitner! viù o que o nosso esport amado proporcionou? Encontrei seu blog em que escrevem outros italianos tais quais o Igor e o Mad Riot, que jà era “fregues” do meu blog mas nem sabia que ele falasse o portugues! Futebol tem que nos-unir e não dividir 🙂 e assim foi entre a gente, pelomenos isso me doa uma esperança…
    Viva o Quattrotratti!
    Via o Futbolandia!
    Abraço
    http://futbolandia.ilcannocchiale.it

  • Mad Riot escreveu bem, aconteceu que um policial enlouqueceu e começou atirar em cima de um carro pra acalmar uma briga de modestas proporções. Nada a ver com o futebol.

    A reação dos “ultras” foi injustificável, indigna de um país civil. A reação inerme do estado foi ainda pior… Esse povo deve aprender que episódios assim levam pra cadeia.

    Brahma e Mad Riot….. sport, Italia, Brasile…..l’unione si vede qui, tre italiani uniti da un blog brasiliano…ehhehe
    Imparassero gli ultras violenti…..

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