Técnicos

Excêntrico e injustiçado: Alberto Malesani treinou timaços, mas não teve chances em gigantes

Explosivo. Imprevisível. Inexorável. Excêntrico. É extensa a lista de adjetivos utilizados para se referir a Alberto Malesani, treinador clássico dos anos 1990 no futebol italiano, que poderia ter sido muito mais do que foi. Dono de um temperamento tão forte quanto seu senso tático, Malesani representou a antítese da figura “padrão” do técnico de futebol. Meio esfarrapado, com bermudas e um cabelo bagunçado, reconstruiu o Chievo, liderou equipes encantadoras de Fiorentina e Parma, mas nunca trabalhou num gigante do país. O motivo disso talvez seja, justamente, o seu comportamento errante.

Visto com desconfiança por grande parte da imprensa, dirigentes e torcedores, o treinador sofreu com uma curva abrupta em sua trajetória. De revolucionário nos campos, o seguidor dos métodos de Johan Cruyff se converteu em um personagem caricato fora da cancha. No momento em que as declarações aborrecidas e comemorações efusivas passaram a simbolizar Malesani, suas credenciais como um bom técnico de futebol foram, praticamente, invalidadas. Nos anos 2000, flutuou por vários times da Serie A sem conseguir uma grande sequência.

Ainda caiu no conceito popular, ao receber o apelido de “mollo” – algo como “moribundo, em português. Incapaz de lutar contra seus estigmas, se afastou do fardo na metade da década de 2010, quando os sucessivos fracassos forçaram a interrupção de seu ofício. Malesani se aposentou e foi viver no sossego de sua vinícola, uma antiga paixão, nos arredores de Verona. Lá, onde tudo começou, o italiano certamente refaz na memórias os passos de sua trajetória. Uma carreira de início altamente promissor, mas que perdeu seu traçado. Se a culpa disso é, de fato, do seu perfil, o ex-treinador não tem motivos para se arrepender.

Sem jamais ter dito o que os outros queriam ouvir, o italiano economizou em diplomacia e extrapolou na emoção à beira do gramado – e nas coletivas de imprensa. Alberto Malesani é representante nato de uma geração despreocupada de técnicos, que dispensava os ternos e sapatos de grife e tinha aversão ao aspecto comercial do jogo. Para ele, futebol era bola e campo, e não uma questão de recursos humanos. Ele, contudo, era humano, e errou e acertou como qualquer outro ser imperfeito. Por isso, foi capaz de despertar sentimentos conflitantes por onde passou.

Num clássico entre Fiorentina e Empoli, Malesani cumprimenta Luciano Spalletti (Massimo Sestini)

Das máquinas fotográficas aos gramados

Alberto Malesani não vingou como atleta. Teve passagens pela base do Vicenza e pela Audace de San Michele Extra, bairro veronês em que cresceu, antes de se aposentar com apenas 24 anos, com um modesto título da Serie D no currículo. Meio-campista limitado por certa lentidão, tinha, porém, boa sensibilidade tática e visão de jogo dentro das quatro linhas – algo que se refletiria posteriormente durante sua trajetória como técnico.

Entretanto, não foi fácil alcançar tal posição. Após pendurar as chuteiras, o jovem nascido em Verona se aventurou longe do esporte – ou nem tanto. Malesani trabalhou na seção de logística da Canon, multinacional que fabrica máquinas fotográficas e outros produtos eletrônicos. Na transição entre as décadas de 1970 e 1980, a divisão italiana da gigante japonesa era comandada por Ferdinando Chiapman, homem de negócios vêneto e presidente do Hellas entre 1986 e 1990, de modo que grande parte das operações da empresa eram realizadas na cidade de Romeu e Julieta.

Em 1987, enfim, Malesani deixou os escritórios da Canon para ter sua primeira experiência à beira do gramado. No começo, se dividiu entre a Olimpia Montoro, equipe amadora de Verona, e os juvenis do então minúsculo Chievo. Em seu primeiro ano pelos gialloblù, acumulava ainda outras funções, atuando como um verdadeiro gerente: participava das negociações de contratos de jovens jogadores e até da venda de carnês de ingressos. Aos poucos, foi subindo na hierarquia interna do clube. Se tornou assistente e, então, em 1993, treinador principal, após a saída de Carlo De Angelis.

Malesani crescera com a influência do jogo praticado nos Países Baixos, que teve grandes momentos na década de 1970 com o Ajax e a própria seleção. Alberto tentava se espelhar no futebol total, estilo consagrado pelo Carrossel Holandês na Copa de 1974, e que foi continuado por Cruyff, integrante daquela lendária seleção, em seus anos como técnico. A obsessão do vêneto por este sistema era tão grande que ele viajou até a Catalunha em sua lua de mel na tentativa de acompanhar as sessões de treinamento do Barcelona comandado pela lenda.

Seria impossível escrever um roteiro mais cinematográfico para o ano de debute de Malesani no Chievo. Com uma campanha memorável, ele conseguiu o acesso à Serie B da Itália – o primeiro da história do pequeno clube provinciano, que praticamente se limitava ao bairro homônimo. Baseado em um jogo ofensivo, estruturado no 3-4-3 e inspirado nos dogmas do futebol total, Alberto conseguiu manter os clivensi na segunda divisão durante as três temporadas seguintes e ainda flertou com a promoção à elite, em 1996-97.

No entanto, sua contribuição para o desenvolvimento da equipe ainda é um pouco subestimada. Um erro, já que a estabilidade entregue por Malesani certamente potencializou o surgimento do “Chievo dos Milagres”, o time que, treinado por Luigi Delneri, chocou a Itália no início dos anos 2000 com campanha histórica na Serie A e a conquista de uma vaga na Copa Uefa.

O sucesso do técnico no Vêneto despertou a atenção de centros mais agitados do futebol italiano. E o sossego, de certa forma, à frente de uma equipe com poucos adeptos como o Chievo, seria substituído pelo frenesi total de uma sociedade apaixonada. Na temporada 1997-98, Alberto Malesani deixou sua cidade natal para assumir a Fiorentina, do presidente Vittorio Cecchi Gori, uma figura tão excêntrica quanto o próprio treinador.

À frente do Parma, Malesani conquistou os maiores títulos de sua carreira (Allsport)

Os lampejos na Viola e o ápice na Emília-Romanha

Em Florença, Malesani encontrou um time estrelado. Como o próprio técnico já tinha dito, seria “um sonho” treinar Gabriel Batistuta. À frente de uma equipe campeã da Coppa Italia e da Supercopa nacional em 1996, ele tinha a responsabilidade de vencer… e convencer. Substituir Claudio Ranieri tinha tudo para ser uma dura missão.

De imediato, seu estilo avassalador e divertido foi implementado no talentoso time violeta. Alguns escorregões no caminho não foram suficientes para diminuir o apreço da torcida gigliata pelo futebol vistoso que se apresentava a cada semana no Artemio Franchi. Nas rédeas dessa carruagem potente, Malesani empolgava com suas comemorações efusivas a cada gol do clube – como aquela na tripletta de Batistuta contra a Udinese, que lhe rendeu o apelido de “treinador ultra”.

Com o espírito que a cidade de Florença ansiava, ele conquista resultados empolgantes: 3 a 0 na Juventus, em casa, e outras sete vitórias na Serie A com pelo menos quatro gols marcados. A base deste sucesso de artilharia se encontrava no tridente formado por Batigol, Luís Oliveira e Domenico Morfeo, com Rui Costa, de maestro, atrás desta linha. Com Malesani, o português se tornou um jogador mais cerebral e cresceu de produção.

A potência ofensiva, contudo, esbarrava em certa inconstância na retaguarda, o que resultou em uma quinta colocação no campeonato nacional. Posição digna, mas justificativa fácil para Cecchi Gori romper com o treinador após somente uma campanha. Os motivos extrapolavam as quatro linhas e diziam respeito a um choque de temperamentos explosivos: de um lado, Malesani, irredutível. Do outro, um presidente vaidoso, que não aceitava ser contrariado.

O resultado deste embate foi a inesperada liberação do treinador, que havia assinado apenas um contrato anual com a Viola. Inesperada, ao menos, aos olhares da torcida, satisfeita com o estilo divertido de jogo e sedenta por uma renovação com o comandante. Não foi o que aconteceu. E Alberto, que ainda colecionou alguns atritos com o brasileiro Edmundo, em sua primeira temporada em Florença, acabou por deixar a cidade símbolo do Renascimento.

Malesani, porém, não ficou desempregado. O sucesso na Toscana acionou um sinal de alerta no Parma, que firmou acordo com Alberto em abril, na reta final da temporada 1997-98, quando já se sabia que ele não permaneceria na Fiorentina – e que Carlo Ancelotti também não seguiria no Ennio Tardini. Àquela altura, o perfil controverso do técnico ainda não era pauta primordial nas rodas de debate e sua saída de Florença podia ser vista como simples capricho de um presidente excêntrico. Por isso, a chance na equipe da Emília-Romanha não tardou a aparecer.

No Parma, Malesani teve à disposição um elenco estrelado, com craques como Thuram (imago/Magic)

De bermudas, Malesani se apresentou ao manda chuva do clube, Calisto Tanzi, para assinar o contrato – cena rara no universo da cartolagem e que revelava a “ingenuidade” do técnico, algo do qual ele ainda seria “acusado” no futuro próximo. Não se tratava de desrespeito do treinador. A espontaneidade fazia apenas parte do seu jeito.

No Parma, Malesani teve em mãos, novamente, um elenco poderoso. Talvez até mais redondo e completo do que o encontrado em Florença. A diferença estava, notavelmente, na defesa. Enquanto o ataque se mantinha efetivo, como na Viola, a retaguarda contava com Gianluigi Buffon na meta, resguardado por um trio de defesa composto por Fabio Cannavaro, Lilian Thuram e Roberto Sensini. No meio-campo, o argentino Juan Sebastián Verón regia as ações ofensivas, que terminavam nos pés de Hernán Crespo e Enrico Chiesa. Dois artilheiros natos. Com estas peças, variando entre o 3-4-3 e o 3-4-1-2, Alberto atingiu o ápice de sua carreira e foi considerado um dos melhores treinadores europeus no ano de 1999, quando faturou nada menos que três títulos à frente dos crociati.

A taça da Coppa Italia foi conquistada diante da Fiorentina, com dois empates no confronto final. O triunfo nacional seria apenas a entrada para o prato principal daquela temporada: uma histórica campanha na Copa Uefa, que resultou no quarto título continental dos gialloblù. Ao longo desta trajetória, Malesani se encantou com as vinícolas da região de Bordeaux, para onde viajou nas quartas de final do torneio. Posteriormente, o treinador inauguraria a própria propriedade de produção de vinho nas proximidades de Verona. Antes disso, porém, ele venceu o troféu europeu. Curiosamente, também contra uma equipe francesa: em Moscou, Crespo, Paolo Vanoli e Chiesa marcaram para o Parma, que atropelou o Marseille por 3 a 0.

Para encerrar a trinca de troféus no inesquecível 1999, a sobremesa: Malesani e companhia superaram o campeão italiano Milan, em pleno San Siro, por 2 a 1, na Supercopa nacional, já no início da segunda temporada do vêneto no Tardini. A conquista de quase tudo pelos emilianos fez o sarrafo subir para o jovem treinador. Aos 45 anos, caiu sobre suas costas a obrigação de alçar voos maiores com o forte elenco do Parma. E isso queria dizer a conquista de um scudetto – missão inglória num campeonato recheado de potências. As taças conquistadas em 1999 serviram mais como lembretes da pressão existente do que como garantias de permanência, e o caminho até então promissor de Alberto se desvirtuou.

A reviravolta se deve a uma sucessão de fatores: a natural expectativa exacerbada, sustentada por imprensa e torcida, somada ao perfil efervescente de Malesani. Como pano de fundo, uma equipe que se assemelhava a uma bomba-relógio, envolvida em orçamentos estourados. A diretoria sabia que o tempo era curto para se atingir o sucesso. A conta estava prestes a chegar e o treinador não resistiu ao “fracasso” (entre muitas aspas) em âmbito nacional.

Após os títulos em 1999, o comandante faturou, respectivamente, um quinto e quarto lugares no Campeonato Italiano nas duas temporadas seguintes. Nas competições restantes, nenhuma outra taça foi levantada. Os resultados não satisfizeram a Tanzi, presidente dos ducali. Malesani acabou sendo demitido após a 13ª rodada da Serie A 2000-01, se tornando o primeiro técnico exonerado pela gestão da Parmalat, que começara no fim da década de 1980. Assim, seu posto de treinador da década na Itália (ou até mesmo de “novo Arrigo Sacchi”) começou a se comprometer.

O treinador retornou a sua cidade natal, mas degringolou no Verona (imago/Buzzi)

O retorno às origens antes do ostracismo

Utilizado, mais uma vez, como bode expiatório de um clube com problemas internos, Malesani acabou regredindo na carreira. Após comandar as fortes equipes de Fiorentina e Parma, o salto para um time de ponta não aconteceu. Certamente, uma injustiça revestida de certo preconceito por conta do perfil exótico do treinador. Os resultados estavam em cima da mesa, mas, de repente, ele não era “adequado” para dirigir um gigante da Itália.

Diante dessa situação, Malesani – que não gostava de ficar sem trabalhar – não esperou por grandes ofertas. Ao contrário, precisou se contentar com um projeto bem mais modesto. De volta a Verona, sua cidade natal, dessa vez para comandar a outra equipe da cidade, ele se deparou com um objetivo simplório: manter o Hellas na Serie A.

Ao menos no aspecto emocional, Malesani conseguiu rapidamente se conectar com seu novo time. A cena mais marcante dessa passagem, que durou 77 jogos, certamente foi a do duelo contra o Chievo, pela 11ª rodada da Serie A. Este, que foi o primeiro clássico entre ambas as equipes de Verona na elite do futebol italiano, reafirmou o seu apelido de “treinador ultra”.

Alucinado após uma derrota por 2 a 0 se transformar em triunfo por 3 a 2, o técnico correu em direção à curva sul, no estádio Marcantonio Bentegodi, onde se localizava a torcida dos butei. Debaixo de chuva, Alberto exorcizou seus demônios num ritual catártico. Vibrou de maneira efusiva, como prometera caso vencesse aquela verdadeira batalha campal. Ali, naquele momento, ele quis mostrar que ainda podia ser relevante em um alto grau de exigência. A mídia, todavia, já não o levava mais a sério.

Munido de um jovem time, que contava com peças como Alberto Gilardino, Adrian Mutu e Mauro Camoranesi, Malesani foi incapaz de se sustentar na primeira divisão. A temporada parecia controlada, mas uma derrota atrás da outra culminou em um vexame na última rodada, quando uma derrota por 3 a 0 para o Piacenza decretou o rebaixamento do Verona.

Malesani não quis pular do barco. Aceitou reduzir seu salário e embarcou no projeto da equipe na segunda divisão. No entanto, tudo o que conseguiu em sua segunda temporada no clube gialloblù foi a modesta 14ª colocação na Serie B. Ao final de 2002-03, foi novamente despedido, num movimento que representou a encruzilhada de sua carreira.

Dali em diante, Malesani não conseguiria mais se estabilizar em nenhuma outra equipe italiana. Desprestigiado, se tornou uma caricatura aos olhares da imprensa. Uma figura cômica, desarrumada e bronca, que já não se destacava pelas escolhas táticas, mas pelas escolhas de palavras em suas entrevistas.

Esta chacota generalizada certamente incomodava Malesani. Ele não queria ter sido alçado a este papel perante os demais. Não foi sua intenção ultrapassar na perigosa linha que divide o folclórico do ridículo. Mas ali estava ele. Apelidado, também de naïf (“ingênuo”, em português), ele não conseguia entender por que os repórteres não lhe perguntavam sobre o jogo nas quatro linhas e continuavam a bater nas mesmas teclas desgastadas a respeito de sua personalidade.

Na temporada 2003-04, Malesani retornou à Serie A para assumir o Modena. Depois de um belo início, em que chegou a deixar os canarini na quinta posição, viu a sorte mudar: criticado pela imprensa por não conseguir gerenciar jogadores desmotivados, não foi defendido pela diretoria e acabou demitido em março, após 33 partidas pela equipe. O time da Emília-Romanha ainda seria rebaixado ao final daquele campeonato.

Malesani virou uma figura pop depois de uma entrevista cheia de palavrões nos tempos de Grécia (Intime)

A tragicomédia no Panathinaikos

Depois do fracasso à frente do Modena, Alberto Malesani passou um ano parado. Em fevereiro de 2005, aceitou o convite do Panathinaikos – clube que havia rejeitado antes de acertar com o Verona – e viveu dias de altos e baixos pela equipe grega, a única de fora da Itália na qual trabalhou.

A experiência em terras helênicas serviu para potencializar na cultura popular a figura de Malesani como um circense da bola. Dentro de campo, o treinador conseguiu a segunda e a terceira colocações no Campeonato Grego, além de ter levado o time verde a uma participação honrosa na Champions League. Fora dos gramados, porém, é que ganhou destaque.

O italiano ficou em evidência mais precisamente por causa de uma entrevista coletiva concedida em dezembro de 2005, após um empate com o Iraklis, na qual perdeu completamente a compostura diante de uma pergunta oportunista de um repórter. Revoltado, disparou a palavra “cazzo” (“cacete”, em português) em 21 oportunidades durante sua resposta. Entre os xingamentos, defendeu o presidente do clube grego, Giannis Vardinogiannis, e reforçou seu comprometimento com o trabalho “24 horas por dia, todos os dias”.

Aquilo foi uma armadilha, que caiu nas graças do público em geral. Uma entrevista que se tornou um fenômeno pop – e só não foi ainda mais potencializada porque não havia smartphones naquela época e as redes sociais ainda engatinhavam. Ainda assim, até hoje, referências a este momento espontâneo e enlouquecido de Malesani estão espalhadas por aí. Foi o limite para o Alberto, saturado com o modus operandi da imprensa esportiva – e do mundo futebolístico em si. Com seu jeito excêntrico, tentou transparecer seriedade em seus protestos, mas tudo o que conseguiu foi ser motivo de zombaria.

Este estigma, que já vinha sendo construído na Itália, chegou ao ápice no time grego. Isso explica, também, o porquê da sucessão de fracassos de Malesani após retornar ao futebol italiano: dali em diante, não houve mais clima em clube algum, perante dirigentes, jogadores e torcida, para a sustentação do técnico. Nos anos seguintes, em somente uma ocasião o vêneto pode realizar um trabalho de pré-temporada. Em sete outras, pegou o bonde andando.

Malesani comandou Udinese, Empoli e Siena num intervalo de três anos, entre 2007 e 2010. Nestas equipes, manteve sempre a mentalidade ofensiva, mas jamais conseguiu convencer ao ponto de ser mantido no cargo. O resultado disso foram passagens de menos de 30 partidas nestes times: após deixar os friulanos no meio da tabela, acumulou dois rebaixamentos na Toscana.

O último suspiro futebolístico de Alberto Malesani como treinador se deu no Bologna, na temporada 2010-11, numa campanha inusitada. Franco Colomba se demitiu antes do início da Serie A e o vêneto acabou escolhido pela diretoria rossoblù, sendo lançado ao centro de uma grave crise do clube, que vivia atrasos de pagamento e um caos administrativo.

No Bologna, Malesani teve as suas últimas alegrias no futebol (Getty)

A situação era bastante complicada para o Bologna, que teve quatro presidentes ao longo de 2010-11 e foi punido com a perda de três pontos por conta das dívidas. Malesani, no entanto, conseguiu blindar o elenco, que se uniu em torno do experiente Marco Di Vaio, e conseguiu conseguiu cumprir o objetivo de permanecer na elite – os felsinei, aliás, se salvaram com cerca de dois meses de antecedência. Após a salvação, o time caiu de rendimento, mas o modesto 16º lugar na tabela era suficiente àquela altura.

Seguindo em sua carreira errante, Malesani iniciou a temporada 2011-12 no Genoa, onde viveu uma nova situação constrangedora perante a imprensa. Em dezembro de 2011, foi taxado por um jornalista local como “desmotivado” e “moribundo” – “mollo”, em italiano. Revoltado com as definições, repetiu 35 vezes a palavra “mollo” numa entrevista coletiva, salientando que alguém decrépito jamais poderia trabalhar em alto nível por tantos anos e, ironicamente, conferiu a si próprio o apelido de “Il Mollo”.

Alberto foi demitido 20 dias depois e chamado de volta no início de abril – para uma nova passagem de apenas três semanas pela agremiação do intempestivo Enrico Preziosi. Posteriormente, Malesani teve curtíssimas passagens por Palermo e Sassuolo. Os três empates na Sicília e as cinco derrotas na Emília-Romanha referendaram o seu processo de esgotamento no cenário nacional e representaram o fim de sua carreira. O técnico vinha maturando esta ideia desde antes de assumir o Siena, mas só anunciou oficialmente o encerramento de suas atividades esportivas em novembro de 2020, após quase sete anos sem clube.

Ingênuo ou não, Malesani não conseguiu driblar as peças que foram pregadas em seu caminho. Com muito potencial e ideias inovadoras, tinha um perfil que não se encaixava no elegante e pomposo futebol da Bota. Em entrevista concedida à Gazzetta dello Sport, em 2008, ele assumiu esta condição. “Eu era um ‘urso’. E se você quiser alcançar o mais alto nível, não tendo sido um grande jogador e sem ter indicações, não pode ter modos selvagens. Senti isso na pele”, afirmou.

Podemos dizer que Malesani foi um dos últimos cavaleiros errantes do futebol italiano. Vivendo quase que fora de seu tempo, teve certo sucesso enquanto somente o campo e a bola falaram por ele. Desde o momento em que passou a ser adjetivado por atitudes externas, perdeu as estribeiras. Ora, então trata-se de um inocente em meio a inúmeras figuras malvadas? Certamente, não é tão simples assim. O treinador também tem sua culpa. Não por usar bermudas em um encontro com dirigentes, mas por não ter entendido que não basta, somente, ter as ideias de Cruyff esclarecidas na mente. Parte do sucesso em um time passa, necessariamente, pelas relações humanas. E, neste departamento, ele nem sempre conseguiu agradar. Aliás, jamais fez questão de agradar.

Em tempos em que o catenaccio ainda dava o tom, Malesani foi um dos primeiros a abrir o leque de possibilidades para um jogo mais vistoso, propositivo, pautado na busca por espaço e nas transições em campo. Não podemos nos enganar. Ele foi um profissional extremamente inteligente, mas que esbarrou em questões pessoais difíceis de serem contornadas – ao menos com seu temperamento.

Por isso, os títulos se tornaram escassos. Basicamente, aqueles conquistados no Parma, na mágica temporada de 1998-99. Ali era o momento do salto na carreira, para uma equipe gigante. Contudo, sem respeitar as “regras de etiqueta” do futebol italiano, Malesani acabou vendo essa oportunidade passar bem diante de seus olhos. Como um trem, atravessando as pradarias do norte da Itália rumo a sua Verona onde, se recolheu na vinícola que abriu com a família. Agora, ele vive no sossego das montanhas, entre uma ou outra taça de vinho. Não que se incomode com isso, como deixou bem claro ao jornal La Repubblica. “Não cuspo no prato em que comi, mas hoje estou feliz e melhor assim”, garantiu.

Alberto Malesani
Nascimento: 5 de junho de 1954, em Verona, Itália
Clubes: Chievo (1993-97), Fiorentina (1997-98), Parma (1998-2001), Verona (2001-03), Modena (2003-04), Panathinaikos (2005-06), Udinese (2007), Empoli (2007-08), Siena (2009-10), Bologna (2010-11), Genoa (2011 e 2012), Palermo (2013) e Sassuolo (2014)
Títulos: Serie C1 (1994), Coppa Italia (1999), Copa Uefa (1999) e Supercopa Italiana (1999)

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