Serie A

O futuro do futebol italiano?

Seu patrimônio é calculado em 8,5 bilhões de dólares: segundo a Forbes, o 80º homem mais rico do mundo. George Soros, húngaro radicado nos Estados Unidos, fez fortuna com especulação cambial. Apóia Barack Obama na corrida pela Casa Branca. Tem 78 anos, cinco filhos e duas ex-mulheres. Já doou mais de quatro bilhões de euros em filantropia. E, possivelmente, já comandará a Roma a partir da próxima temporada.

John Fisher, milionário herdeiro da GAP, havia tornado público seu interesse na aquisação da sociedade, há algumas semanas. Tom Hicks, conhecido no Brasil graças a seus investimentos em Corinthians e Cruzeiro na década de 1990, também. Assim como os magnatas do petróleo Anatoli Kolotilin e Sulemain Kerimov. Desde que a direção romanista iniciou o projeto de recapitalização do clube através de Rosella Sensi (administradora delegada), Cristina Mazzoleni (diretora financeira) e Ciro Di Martino (vice-presidente administrativo), a Roma tornou-se pauta também nos cadernos de economia.

Para entender melhor a situação do clube, vale lembrar que a Roma não é independente. O balanço do último ano da Italpetroli, holding da A.S. Roma S.p.A., indicou que a venda do braço esportivo dos negócios da família Sensi pode ser essencial para salvar a empresa petrolífera. Assim, a Italpetroli voltaria a respirar. A empresa tem pressa. Soros também. O diário La Repubblica, na edição desta sexta-feira, apontou que o investidor teria dado um prazo de oito dias para a resposta final de Franco Sensi. O que balançou o mercado de ações: a Roma é um dos três times italianos cotados na bolsa (os outros são Lazio e Juventus), e suas ações subiram mais de 20% após as primeiras especulações relativas ao interesse da aquisição.

A possível proposta é bem cotada porque, pela primeira vez, mexe de verdade com os Sensi. Além de chegar em boa hora, os 250 milhões de euros que teriam sido ofertados cobririam boa parte do rombo da empresa petrolífera, que hoje chega a 360 milhões. Franco Sensi, que havia adquirido a Roma em 1993, apostou cegamente no sonho de chegar ao scudetto. Para cobrir as despesas, teve de se desfazer de seguidas empresas, e agora só lhe sobra sua holding. O projeto do time de 2001, a longo prazo, deu mais dívidas que alegrias. Apenas Montella, Batistuta, Emerson e Samuel custaram, juntos, perto de 100 milhões de euros (dados do site Transfermarkt).

George Soros não poupou elogios a Francesco Totti, prometeu reforços de ponta para o elenco, a construção de um estádio próprio e o cargo de presidente honorário a Franco Sensi. Seus emissários já se reuniram com Gian Roberto Di Giovanni, advogado designado por Rosella Sensi, primogênita do presidente, para gerir os contatos. Apesar da identificação da família com o clube e a torcida, seria arriscado aguardar a bancarrota da Italpetroli para ver uma negociação às pressas de forma a evitar um leilão. É certo que os Sensi não têm qualquer intenções de vender “sua” Roma. Mas nem só de boa vontade pode viver o futebol.

A provável venda romanista deve alavancar uma mudança de rumos em todo o futebol italiano logo que a figura de um megainvestidor aporte em Trigoria. Faria Moratti abrir os cofres para montar uma Inter mais confiável e imbatível. Berlusconi e a família Agnelli acelerarem o processo de reconstrução de Milan e Juventus, respectivamente. Lotito avaliar os riscos de apostar alto para que a Lazio não fique para trás no cenário local. E Della Valle lutar para segurar as peças-chave de sua Fiorentina. Clubes com maior fluxo de caixa, como Sampdoria, Udinese e Napoli também seriam obrigados a reforçar seus elencos para não se verem deixados para trás.

Tal conjunto de reações aumentaria a qualidade do campeonato, voltaria os olhos da imprensa internacional para a península e, invariavelmente, ampliaria o valor da Serie A como um produto – a partir daí, os clubes poderiam retomar as conversas por melhores direitos de transmissão. Se combinado com a reestruturação institucional prometida pelos dois principais candidatos ao cargo de premiê italiano (em especial Walter Veltroni, ex-prefeito da capital), até mesmo a média de público nos estádios pode voltar a crescer. Outra medida, esta por conta da FIGC, já discutida e de boa aceitação, seria a diminuição da Serie A para apenas 18 times.

Pelo segundo ano consecutivo, a Inglaterra põe três times nas semifinais na Liga dos Campeões e conquista cada vez mais audiência – e dinheiro – ao redor do mundo. Clubes como Portsmouth possuem folhas salariais maiores que a de times tradicionais da Itália, como Lazio ou Torino. Soros, quem diria, pode ser o estopim para que a Itália mantenha seu orgulho internacional, antes de perdê-lo de vez.

8 comentários

  • Aqui todo mundo està apavorado. Se o o Soros chegar, Roma vai contratar varios baita campeoes e quem manda tradicionalmente no “calcio” dificilmente puderà engolir essa. Jà o Galliani aconselhou Rosella Sensi para permanecer no cargo…(eheh olha que estranho,o Galliani filantropo nessa hora).
    Abraço

  • [i]”Faria Moratti abrir os cofres para montar uma Inter mais confiável e imbatível.”[/i]

    [b]A gestão Moratti tem um déficit de quase 1 bilhão de euros![/b] Ele vive com os cofres abertos, apenas não investe tão bem quanto gasta.

  • Isso é verdade, Enzo. Mas se você for pegar o que o Mancini pediu e o que conseguiu, por exemplo, há uma boa diferença. Nem o Konko Moratti levou… preferiu Maniche.

    Abraço.

  • Transações assim são comuns hoje, e os clubes ingleses mostram que não perde-se a instituição, a tradição e etc.

    A intenção de Soros é ganhar dinheiro, obviamente, e o mercado italiano é pouco explorado neste sentido. Os clubes são administrados “à Eurico”, e a perpetuação nem sempre traz bons resultados. A Roma, e o calcio, precisam de uma reviravolta.

  • Não resta dúvida que o calcio precisa urgentemente fazer uma depuração e se livrar de gente como Zamparini, por exemplo. Mas é arriscado negociar com o Soros. Ele, como explicita o texto, é um especulador, não investidor. O investidor pode esperar décadas pelo ROI de um determinado negócio – uma hidrelétrica, por exemplo. Já a paciência do especulador é bem mais limitada. A isso você soma a impressionante ansiedade em ver logo a cor azul dominar completamente os balanços financeiros… Caso o controle acionário precise mudar de mãos, o melhor seria que a Roma continuasse com alguém com alguma ligação com o clube. Se o próximo proprietário tiver o perfil do Soros, por exemplo, e a coisa não decolar, o clube pode ir para o limbo e ficar com investimentos reduzidos até que o famoso break even point seja atingido. Por outro lado, caso seja ele mesmo o futuro proprietário, vocês, depois de duas séries perdidas para o United na CL, terão muito a ganhar com a expertise dele em bater os britânicos. No começo da década passada, o cara quase quebrou a libra esterlina…

  • Muito bom, Gilson.

    Mas não acho que Soros esteja interessado em ganhar dinheiro com a Roma. Claro que quanto mais rápido der lucro, melhor. Mas há várias maneiras de dinheiro rápido… e um time (ainda mais na Itália) definitivamente não é uma.

  • Pois é amigo Braitner, agora acabou!

    A época romantica do futebol italiano…..dando espaço aos petrodólares, ao Euro desta época do “capitalismo concorrencial”

    Também acabou a corrida pelo título!
    Domenica in questa sera, vou ver o que acontece com o pobre time do Torino!

    Mas resta uma vaga na Champions :
    quem quiser opinar, palpitar, e puder PRESTIGIAR nosso humilde blog, fique a vontade :

    http://futeboldaitalia.zip.net/

    Uma vez mais , parabéns QUATRO TRATTI pelo blog!
    Se puder, dê uma força pra gente amigo!

    falando em força, FORZA AZZURRA NA EURO!

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