Na transição entre as décadas de 1960 e 1970, o Ajax de Rinus Michels e Johan Cruyff começava a escrever sua história como potência que dominaria a Europa. Vice-campeão continental em 1969, com derrota para o Milan na decisão, já deixava entrever o futebol total que mudaria o jogo para sempre. Em seu percurso de amadurecimento, o time de Amsterdã participou da Copa das Feiras e puniu o Napoli, que vivia os primeiros meses da gestão de Corrado Ferlaino e só colheria os frutos da mudança de comando anos mais tarde. A equipe italiana, sem os veteranos José Altafini e Kurt Hamrin em plena forma, sucumbiu diante de um adversário que simbolizava o futuro do esporte num duelo que começou no clima ameno do Mediterrâneo e terminou marcado pelo rigor do inverno holandês, com direito a adiamento do confronto de volta por nevasca e intensa neblina.
Em dezembro de 1968, o Napoli viu Antonio Corcione, que ascendeu à presidência pouquíssimos meses antes, morrer de forma repentina. Em janeiro de 1969, com a bênção de Achille Lauro, que detinha um terço das ações, Ferlaino – que já era diretor azzurro – adquiriu as cotas do falecido e se tornou novo o novo cartola de referência do clube. Na poltrona decisória, teve que administrar situações complicadas de cara, como a sucessão de eventos que culminaram em sua posse deixava antever.

Em janeiro de 1970, uma agasalhada delegação do Napoli – com Hamrin ao centro – desembarcou em Amsterdã para encontrar o Ajax (Anefo)
Em sua primeira sessão de mercado na condição de presidente, Ferlaino conduziu a dolorosa despedida do brasileiro Cané, ídolo popular, que rumou ao Bari (voltaria três anos depois) e também se desfez do veterano Harald Nielsen e do promissor Claudio Sala. Em contrapartida, foi buscar um nome de peso do futebol europeu: o sueco Hamrin, maior artilheiro da história da Fiorentina, vice-campeão mundial em 1958 e que havia acabado de chegar ao topo da Europa pelo Milan, graças à vitória na final contra o Ajax. O atacante chegava já veterano, aos 35 anos, mas com currículo e aura capazes de inspirar, juntamente ao também multivitorioso e goleador Altafini, um vestiário sem tantas estrelas.
O incipiente Napoli de Ferlaino era comandado por Giuseppe Chiappella, que brilhara como jogador e técnico na Fiorentina, tendo sido colega e comandante de Hamrin. O treinador lombardo apostava na mescla entre experiência e juventude. Ao lado de referências como Antonio Juliano, Dino Zoff, Ottavio Bianchi e o já citado Altafini, emergiam promessas como Giovanni Improta, Vincenzo Montefusco e Pierpaolo Manservisi – este último, de 25 anos, era o mais velho dos garotos citados e marcaria seu nome no confronto.
O time partenopeo vinha de um sétimo lugar na Serie A e entrava na Copa das Feiras para tentar angariar prestígio internacional – naquele momento, o clube tinha apenas os títulos de uma Coppa Italia, uma Copa dos Alpes, uma Serie B e de uma divisão do Italiano pós-Segunda Guerra Mundial. Disputada entre 1955 e 1971, a competição continental foi o embrião da Copa Uefa (atual Liga Europa) e foi criada originalmente para promover as cidades com feiras internacionais de comércio. Com essa motivação, o torneio passou a reunir clubes de médio e grande porte e, posteriormente, foi expandido para aceitar aqueles que não haviam se classificado para as principais disputas europeias – a Copa dos Campeões e a Recopa, restrita aos ganhadores de títulos das ligas e dos mata-mata nacionais, respectivamente.

Nada feito: por baixa visibilidade devido a um nevoeiro, o jogo de volta entre Ajax e Napoli foi adiado (Anefo)
O início de temporada do Napoli, porém, era vacilante: após 11 rodadas da Serie A, ocupava o 13º lugar, com apenas três vitórias, e flertava com a zona de rebaixamento. Na Coppa Italia, os azzurri conseguiram ser eliminados na fase inicial, num grupo com Casertana, Foggia e Reggina. Hamrin, entre lesões e declínio físico, pouco jogava. O consolo estava no torneio europeu, onde os partenopei superaram o Metz por um placar agregado de 3 a 2, com um empate fora e vitória em casa, garantida por um pênalti convertido por Improta. Nos 16-avos de final, passaram pelo Stuttgart com novo resultado magro: 0 a 0 na Alemanha e 1 a 0 no San Paolo, graças a gol de Virginio Canzi.
O Ajax, portanto, era favoritíssimo nas oitavas da Copa das Feiras. A equipe de Michels já vinha provando o seu valor fora das fronteiras nacionais e não enfrentou tantos problemas nas fases anteriores, nas quais superou o alemão Hannover 96 (4 a 2 no agregado) e o polonês Ruch Chorzów (9 a 1). Também dominava o cenário dos Países Baixos em 1969-70 – mais tarde, faria a dobradinha, com taças da Eredivisie e da copa local. Para o Napoli, o duelo tinha caráter híbrido: era simultaneamente vitrine econômica e campo de experimentação esportiva, além de lhe permitir tentar surpreender o continente. Caso tivesse sucesso, protagonizaria a afirmação de um time do sul da Itália numa época em que brilhavam quase exclusivamente os gigantes do norte.
O duelo de ida aconteceria no dia 10 de dezembro de 1969, no San Paolo. O Ajax desembarcou na Itália sem seus principais intérpretes: Cruyff e Piet Keizer. A ausência do craque era importante, mas os holandeses tinham um conjunto fortíssimo e uma ideia de jogo trabalhada, de modo que o desafio dos azzurri era imenso. A equipe de Michels unia disciplina, fluidez e uma ideia quase espiritual de sinergia coletiva, já começando a esboçar os conceitos do totaalvoetbal – que mudaria o esporte para sempre. Cada jogador era peça móvel de uma engrenagem viva, com movimentações constantes e pouco usuais nas fases ofensiva e defensiva. O Napoli teria diante de si uma obra filosófica disfarçada de time.
Contando com o que tinha de melhor, o Napoli superou o abismo em relação ao Ajax, que, apesar de não ter à disposição Cruyff e Keizer, ainda podia confiar em Wim Suurbier, Barry Hulsoff e Gerrie Mühren, além do futuro azzurro Ruud Krol. Aos 37 minutos, então, a surpresa: empurrado por sua fanática torcida, o time campano chegou ao gol. Mario Zurlini cruza na medida para Altafini; o brasileiro ajeitou e serviu Manservisi, que completou de cabeça e estufou a rede. De físico esguio e rosto inocente, ao ponto de ser apelidado como “passarinho”, o garoto se impunha sobre gigantes.
O Ajax tentou reagir com o ímpeto dos que se sabem superiores: Krol avançava com frequência, o centroavante Dick Van Dijk rondava a área, mas Bianchi, Juliano e Montefusco davam sustentação heroica ao sistema defensivo napolitano, composto por Zurlini, Dino Panzanato, Luciano Monticolo e Luigi Pogliana, que resistiam como gladiadores diante de leões holandeses. O apito final selou um 1 a 0 histórico, porém o feito logo se diluiu no noticiário. Dois dias depois, a Itália mergulhava no luto da tragédia de Piazza Fontana, que deixou 17 mortos e 88 feridos em Milão. O atentado, no escopo da tática terrorista de estado chamada “estratégia de tensão”, é considerado o marco inaugural dos anos de chumbo italianos.
O futebol, contudo, não parou. A Serie A seguiu, e, em 14 de dezembro, o Napoli viajou até a Emília-Romanha para bater o Bologna por 2 a 1, com doppietta de Altafini. O time se preparava para o retorno da batalha europeia, numa Amsterdã coberta pela neve. A partida estava marcada para 7 de janeiro e a delegação italiana chegou à capital dos Países Baixos dois dias antes, muito bem agasalhada e elegante, trajando belos e negros sobretudos – Juliano, por sua vez, se protegia com um chapéu de pele. Jaap van Praag, histórico presidente do Ajax, fez questão de ir ao aeroporto de Schiphol receber os adversários.
O Napoli não contaria com Altafini, que se lesionou por volta da virada do ano e nem viajou para a Holanda. O sueco Hamrin, acostumado com o clima inclemente do norte da Europa, por sua vez, estava disponível. Entretanto, quando caiu a noite em 7 de janeiro, um denso nevoeiro se abateu sobre Amsterdã e seu estádio Olímpico, que já tinha o gramado coberto por alguns centímetros de neve. O árbitro Rudolf Glöckner fez a inspeção da situação, pouco enxergou devido à neblina e comunicou às delegações dos dois times que o jogo estava adiado por falta de visibilidade e condições climáticas adversas.
O segundo ato, então, seria disputado em 21 de janeiro de 1970. Para o azar do Napoli, Cruyff e Keizer voltavam ao time do Ajax, Altafini ainda não havia se recuperado e Hamrin tornara a sofrer com problemas físicos – ao longo de 1969-79, o sueco fez apenas seis jogos, todos entre dezembro e janeiro. Nada disso cheirava bem para os azzurri.
Ainda fazia muito frio e todos os atletas do Napoli foram a campo com mangas longas e malhas térmicas por baixo dos calções e meiões – alguns dos jogadores do Ajax faziam o mesmo. O time italiano manteve o espírito combativo da ida, mas aos 31 minutos, Nico Rijnders levantou bola na área, a zaga azzurra não cortou e Giacomo Vianello não viu a infiltração de Sjaak Swart: num lance meio grotesco, chutou o vazio, enquanto o neerlandês só escorava para a rede, vencendo Zoff.

O Ajax bem que tentou no tempo normal, mas o Napoli segurou a derrota magra e o jogo foi para a prorrogação (Anefo)
O jogo foi com esse placar para o descanso e o show do intervalo teve uma apresentação bem típica da época. Uma encenação do espetáculo musical Hair, que marcou o fim da década de 1960 com seu pano de fundo contracultural, acontecia num teatro próximo ao Olímpico e os atores que participavam da peça foram convidados a dar uma palhinha no gramado. Não foi o combustível necessário para alterar o placar: o 1 a 0 persistiu até o fim do tempo regulamentar, levando o confronto à prorrogação.
Foi então que surgiu um personagem secundário, destinado a um lampejo único: Ruud Suurendonk, atacante reserva que entrou no lugar de Van Dijk e vestia a camisa 14 – a mesma que, pouco depois, Cruyff tornaria lendária; naquele jogo, a lenda neerlandesa vestia a 9. O jogador era pupilo de Michels, que o treinara no JOS Watergraafsmeer, e foi levado ao Ajax, embora pouco atuasse. E, após aquela noite, voltaria ao semianonimato.
Aos 109 minutos, Cruyff conduziu a bola do meio de campo, deixando um marcador para trás, emendou uma rápida triangulação e deixou Suurendonk na cara do gol – ele bateu forte de canhota e não deu chances a Zoff. Em sequência fulminante, o centroavante marcou outras duas vezes até os 115, aproveitando a desatenção de um Napoli grogue. Na casa dos 110, os azzurri se defenderam mal e, no rebote do arqueiro em chute de Mühren, o camisa 14 só rebateu para a rede; depois, Suurbier cruzou na medida, no desenrolar de um escanteio, e atacante escorou para o barbante.

Os azzurri desabaram em poucos minutos e terminaram eliminados da Copa das Feiras com uma goleada (Anefo)
Os três dos quatro únicos gols de Suurendonk por competições europeias em toda a sua carreira derrubaram o Napoli e apagaram o milagre do San Paolo. A vitória por 4 a 0 classificou o Ajax, que seria eliminado nas semifinais pelo Arsenal, que ficou com a taça, mas estava a um passo da glória. A partir do ano seguinte, o time holandês inauguraria a hegemonia continental ao faturar três Copas dos Campeões consecutivas, com Cruyff coroado como imperador do futebol total – e carrasco de Inter e Juventus, batidas em 1972 e 1973, respectivamente.
O Napoli, eliminado na Copa das Feiras, reagiria na Serie A e a concluiria em sexto, enquanto o Cagliari de Luigi Riva conquistava o primeiro scudetto de sua história. Na Campânia, a felicidade demoraria um pouco a reinar, mas a gestão de Ferlaino semeava o germe para vitórias futuras. Após bons resultados em diversas competições, o time que teve a digital do brasileiro Luís Vinício e que ainda contava com Pogliana e Juliano, remanescentes da derrota para o Ajax, levantaria a Coppa Italia em 1976.
Napoli 1-0 Ajax
Napoli: Zoff; Panzanato, Monticolo, Pogliana; Zuclini; Juliano, Bianchi, Montefusco; Hamrin (Bosdaves), Altafini, Manservisi. Técnico: Giuseppe Chiappella.
Ajax: Bals; Suurbier, Hulshoff, Vasovic, Krol; Muller, Rijnders; Swart, Mühren, Söndergaard; Van Dijk. Técnico: Rinus Michels.
Gol: Manservisi (35′)
Árbitro: Anton Bucheli (Suíça)
Local e data: estádio San Paolo, Nápoles (Itália), em 10 de dezembro de 1969
Ajax 4-0 Napoli
Ajax: Bals; Suurbier, Hulshoff, Vasovic, Krol; Rijnders, Mühren; Swart, Cruyff, Keizer (Muller); Van Dijk (Suurendonk). Técnico: Rinus Michels.
Napoli: Zoff; Nardin, Panzanato, Pogliana; Vianello (Improta); Juliano, Monticolo, Bianchi; Bosdaves (Canzi), Manservisi, Barison. Técnico: Giuseppe Chiappella.
Gols: Swart (31′), Suurendonk (109′), Suurendonk (110′) e Suurendonk (115′)
Árbitro: Rudolf Glöckner (Alemanha Ocidental)
Local e data: estádio Olímpico, Amsterdã (Países Baixos), em 21 de janeiro de 1970


