Mercado Serie A

O Frosinone mostra aos clubes pequenos que disputar a Serie A requer inteligência e coragem

O que explica o fato de o Frosinone realizar uma das campanhas mais surpreendentes da edição 2023-24 da Serie A mesmo sendo um clube modesto e que, além disso, começou a temporada como um dos favoritos ao rebaixamento? Os canários aprenderam com erros do passado, planificaram seu crescimento e têm tudo para fazerem história até o fim do campeonato.

Fundado em 1906, o Frosinone é um clube da região do Lácio que nunca tinha disputado a Serie A até 2015. O time gialloblù passou todo o século XX nas divisões inferiores, chegando no máximo até o terceiro nível da pirâmide do futebol italiano. O primeiro movimento de ascensão na história dos ciociari foi dado em 2003, quando o empresário Maurizio Stirpe adquiriu a agremiação, então na quarta categoria nacional.

Natural de Frosinone, Maurizio não era exatamente alguém alheio à história do clube: seu pai, Benito Stirpe, e seu tio, Roberto, foram presidentes dos ciociari na década de 1960. Do genitor, Stirpe herdou também a Prima, fábrica de componentes plásticos para automóveis e eletrodomésticos, e a fortuna – aumentada na medida em que se tornou dirigente da Confederação-Geral da Indústria Italiana, a Confindustria.

Apesar de Stirpe ter patrimônio considerável, os investimentos no Frosinone nunca foram excessivos. O clube gialloblù conseguiu subir para a Serie B pela primeira vez em 2006, no mesmo ano em que Juventus, Napoli, Genoa e Bologna também disputaram a segundona. Os ciociari disputaram a categoria por quatro temporadas, quando tornaram ao terceiro nível – no qual passou um triênio.

Maurizio Stirpe assumiu o Frosinone em 2003 e, prometendo gestão sustentável, o levou da quarta à primeira divisão (Getty)

Nesse período na Lega Pro Prima Divisione, o time se reestruturou para poder ascender nas divisões italianas de forma mais sustentável. Assim, acabou fazendo um salto duplo inesperado e chegou até a Serie A em 2015-16. Portanto, estrearia na elite cerca de uma década após participar da segundona pela primeira vez.

Ao aportar na Serie A, a diretoria do Frosinone se deparou com o clássico dilema colocado pelo choque de orçamentos entre divisões. Na elite nacional, os canários teriam acesso a altíssimas receitas, mas também encarariam mais despesas. No fim das contas, os responsáveis pelo futebol contrataram vários jogadores por empréstimo e mantiveram Roberto Stallone, técnico que comandava o elenco desde 2012, na terceirona. Porém, de forma não usual na Itália, os cartolas decidiriam investir parte considerável do dinheiro recebido pela participação no campeonato em infraestrutura, o que certamente iria beneficiar o time – porém, apenas a longo prazo.

O Frosinone utilizaria a verba para construir um centro de treinamentos moderno e entraria em acordo com a prefeitura para tirar do chão um novo estádio – que seria batizado de Benito Stirpe. O trato com a administração municipal consistia em abandonar o antigo Comunale, chamado carinhosamente de Matusa pelos cidadãos locais devido a sua antiguidade, e assumir um antigo projeto de praça esportiva, tornando-a privada.

Em dias de jogos, o Matusa, utilizado pelo Frosinone desde 1932, era considerado um problema por estar localizado próximo ao centro histórico da cidade e gerar diversos problemas logísticos para os moradores – além disso, era obsoleto e de difícil requalificação. O trato entre os gialloblù e a administração municipal permitiria que o estádio fosse parcialmente demolido e transformado num parque público, ao passo que os ciociari se mudariam para a Rua Casaleno, numa região periférica, onde a prefeitura tinha antigo projeto de construir uma arena.

A construção do estádio Benito Stirpe seria um dos maiores trunfos do Frosinone (Getty)

As obras desse segundo estádio estavam paradas desde os anos 1980 por falta de financiamento, mas Stirpe bancou a finalização dos trabalhos, fazendo com que o Frosinone se tornasse o terceiro clube dono de um estádio na Itália, após Juventus e Udinese – além do Sassuolo, cuja arena pertence à Mapei, empresa da família Squinzi, proprietária dos neroverdi. No total, foram investidos 15 milhões de euros na praça esportiva e mais 2,5 mi na Cidadela do Esporte, onde fica o centro de treinamentos dos ciociari atualmente.

O estádio Benito Stirpe seria inaugurado apenas em 2017, de modo que o Frosinone ainda mandou no Matusa os seus jogos na temporada de estreia na elite – na qual o time foi prontamente rebaixado. Entretanto, em relação a outras agremiações, com a diferença de que o clube gialloblù construiu pilares e estava ciente de seu tamanho e potencial. Segundo as palavras de Maurizio Stirpe ao jornal Tuttosport, “o futebol italiano não é como o inglês ou o alemão, mas um ambiente em que os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres ficam cada vez mais pobres”. Assim, os canários precisam jogar com um baralho de cartas marcadas.

Em sua jornada, o Frosinone foi eliminado nos playoffs de acesso à Serie A em 2017 e retornou para a elite no ano seguinte, já atuando no Benito Stirpe. Com capacidade de 16 mil espectadores, correspondendo às expectativas realísticas do tamanho da torcida gialloblù, o estádio virou um caso de sucesso e estudo nas universidades italianas, pois foi feito de uma maneira não apenas sustentável, mas com um projeto de urbanização altamente moderno e benéfico para os habitantes da cidade.

A arena tem painéis solares que permitem atingir a cota energética de autossuficiência, além de ter revitalizado toda a região do entorno, com a instalação de pista de corrida, vestiários para os praticantes de atividades físicas, iluminação e pavimentação pública. O Stirpe concorreu ao prêmio de Estádio do Ano em 2017 e merece reconhecimento em um país que é conhecido por não reformar suas praças e por ter clubes que sequer são donos dos campos em que jogam – ponto crucial para o aumento de receitas no competitivo futebol do século XXI.

O jovem goleiro Turati ganhou destaque na campanha do título do Frosinone na Serie B e se tornou líder do elenco gialloblù (Getty)

Em sua volta à primeira divisão, o Frosinone viveu, dentro de campo, mais um ano decepcionante: foi rebaixado, repetindo o penúltimo lugar de 2015. Nesta temporada, em janeiro de 2019, o time sofreu críticas até de Aurelio De Laurentiis, presidente do Napoli, que acusou os canários de sequer tentarem competir na Serie A e ainda afirmou que a participação dos ciociari não agregava à liga em interesse de público nos estádios ou em número de telespectadores. “Se uma equipe não consegue competir e acaba na lanterna, que pague uma multa e nem receba a sua respectiva cota de televisão”, disparou em entrevista ao New York Times.

Na época, Stirpe rebateu as palavras do rival napolitano com veemência. À Radio Marte, ironizou De Laurentiis, que teria “esquecido de onde iniciou sua gestão no Napoli”, jogando contra o Frosinone na terceirona italiana.

Ao site CalcioNapoli24, o cartola ciociaro foi além. “Vejo nele alguém com Síndrome de Napoleão. Na vida é necessário respeito, e o esporte nos ensina a tê-lo com os adversários. Nosso projeto tem como base o crescimento de forma saudável e sustentável, através dos nossos próprios meios. Injetamos dinheiro no futebol e não colocamos um centavo no nosso bolso. Fomos capazes de fazer nosso próprio estádio, enquanto outros com muito mais recursos do que os nossos nunca entregaram um empreendimento do gênero para a sua cidade”, afirmou.

O rebaixamento do Frosinone à Serie B ofuscou um pouco a resposta de Stirpe – que viria a ter a razão posteriormente. O fato é que, naquela temporada, o clube ciociaro mudou um pouco o perfil de contratações em relação a sua primeira participação na elite e, apesar de ainda contar com muitos veteranos, deu espaço a alguns jogadores jovens e promissores, como Paolo Ghiglione, Francesco Cassata e, principalmente, Andrea Pinamonti. Todos eles haviam passado por seleções de base italianas e o último dos citados chegaria à Nazionale adulta.

Os ciociari têm se caracterizado por valorizar jovens, como Ibrahimovic, emprestado pelo Bayern Munique (Getty)

Depois dessa queda e com as fundações já estabelecidas, o time manteve os pés no chão, sabendo de suas limitações, e confiou o projeto esportivo nas mãos de tetracampeões mundiais pela Itália – Alessandro Nesta e, depois, Fabio Grosso. Com o ex-zagueiro, quase voltou à elite de imediato, em 2020. Depois, foram mais duas temporadas em que permaneceu na primeira metade da tabela da Serie B até conseguir subir mais uma vez, em 2023, graças ao título da segundona, o mais importante de sua história.

Para a disputa de sua terceira Serie A, o Frosinone não contaria com Grosso, que optou por não renovar seu contrato. Assim, no início de julho, o time gialloblù anunciou Eusebio Di Francesco, que vinha de três péssimos trabalhos e estava fora do comando de alguma equipe profissional havia praticamente duas temporadas. Uma escolha temerária, ainda que o seu estilo de jogo propositivo tenha agradado muito no Sassuolo e na parte inicial de seu trabalho na Roma, em meados da década passada.

Como acontece com todo time recém-promovido à elite, se imaginava que o Frosinone fosse atrás do famoso pacotão de reforços para a disputa da Serie A. Entretanto, os gialloblù passaram grande parte da janela de transferências parados, para a surpresa de muita gente. Até o início do campeonato, no dia 18 de agosto, o elenco dos ciociari era modestíssimo, o que fazia com que todos os prognósticos apontassem para o rebaixamento dos canários e, mais especificamente, para a sua condição de lanterna do certame.

O que não se sabia até aquele momento é que isso fazia parte da estratégia do diretor de futebol Guido Angelozzi, homem por trás do mercado do Frosinone desde outubro de 2020. Com passagens por Sassuolo, Spezia, Lecce, Bari, Perugia e Catania desde a virada do milênio, o experiente cartola notou algo que nenhum dos seus colegas tinha visto até hoje: é possível reforçar um time e economizar na janela de transferências de julho e agosto.

Contratado pelo Frosinone no fim da janela de transferências, o argentino Soulé tem aparecido como um dos melhores atacantes da Serie A (Getty)

Após a primeira rodada, entre os dias 19 e 31 de agosto, o Frosinone colocou em ação a tática de Angelozzi, que consistia em usufruir de uma espécie de Fergie Time do calciomercato. Nesse período, o time contratou simplesmente 12 jogadores, entre eles Walid Cheddira, Matías Soulé, Pol Lirola, Caleb Okoli, Arijon Ibrahimovic e os brasileiros Kaio Jorge e Reinier. Mas por que deixar para contratar grande parte do elenco de última hora?

De acordo com o dirigente, alguns motivos explicam essa escolha. O primeiro seria encarar o fato de que o Frosinone é um clube modesto e que economizar dois meses de salários com alguns jogadores faria diferença no balanço anual. O segundo diz respeito a aproveitar melhores condições de negociação. Os gialloblù ficaram aguardando que jogadores que já seriam emprestados por outras equipes ficassem com situação indefinida até a reta final da janela de transferências, o que obrigaria as detentoras dos passes desses atletas – e os próprios desportistas – a toparem negócios menos vantajosos, de modo a não correrem o risco de um desfecho não ocorrer antes de a sessão de mercado se encerrar. Nos casos de Lirola e Reinier, por exemplo, Marseille e Real Madrid aceitaram pagar parte dos salários de seus contratados.

E o último motivo é o mais importante: quando um belo e sólido projeto está em jogo, aumenta a boa vontade de todas as partes envolvidas para um final feliz para as negociações. O jogador sabe que será titular ou que receberá mais minutos em um ambiente saudável e o time que o empresta até pode pagar parte do salário, mas sabe que o atleta ganhará visibilidade e valorização – algo importante, por exemplo, para uma venda futura.

Todos sabem que essa é uma estratégia arriscada, mas respeitável. O Frosinone não gastou o dinheiro que não tem, mas pode ter jogadores de respeito. E, o mais importante, jovens a serem valorizados. Atualmente, o time ciociaro conta com apenas quatro atletas de mais de 30 anos em seu elenco, sendo que apenas dois foram contratados nesta janela – o volante Mehdi Bourabia (33) e o terceiro goleiro Pierluigi Frattali (38). Todos são reservas.

O Real Madrid aceitou pagar parte do salário do brasileiro Reinier, que tem feito bons jogos pelo Frosinone (Getty)

Desde a campanha vitoriosa na Serie B o Frosinone vem buscando valorizar jovens – o fez, por exemplo, com os atacantes Samuele Mulattieri e Luca Moro, emprestados pelo Sassuolo. Do elenco campeão da segundona em 2023, continuam, entre aqueles que têm idade olímpica, o goleiro Stefano Turati (22), que teve cessão renovada junto aos próprios neroverdi, o zagueiro Ilario Monterisi (22) e o lateral-direito Anthony Oyono (22). Outro remanescente, ainda que não seja mais um garoto, também representa a aposta em gente que demonstrou talento cedo: o capitão Luca Mazzitelli, 28, foi figurinha carimbada nas seleções de base italianas.

No mercado tardio do Frosinone, vários outros garotos chegaram. Entre os brasileiros, Reinier (21) e Kaio Jorge (21) têm encontrado espaço, ao passo que até o zagueiro Mateus Lusuardi (19), adquirido para se juntar ao time sub-19, já estreou pelos ciociari. Okoli (22), da seleção sub-21 italiana, e Ibrahimovic (18), tarimbado na base do Bayern Munique e nas equipes juvenis da Alemanha, também são outros nomes que têm sido importantes. O destaque, contudo, é Soulé (20), destaque da Argentina no Mundial Sub-20. Com seis gols e uma assistência, o ponta é um dos melhores da posição na Serie A e viu até seu retorno à Juventus em janeiro ser ventilado – deve permanecer no Benito Stirpe, porém.

Com essa garotada em alta, o Frosinone tem obtido resultados que contrariam os prognósticos iniciais. Na Coppa Italia, a campanha dos canários já é histórica: jogando fora de casa, o time eliminou o Torino e depois fez 4 a 0 sobre o Napoli, atual campeão italiano, numa daquelas ironias do destino. Ao deixarem De Laurentiis com cara de tacho, os ciociari alcançaram as quartas de final do torneio pela primeira vez em sua existência. Além disso, a equipe gialloblù ocupa a 13ª colocação da Serie A, com 19 pontos. Jamais havia somado tanto a esta altura da competição e não passa a impressão de que o seu rendimento irá cair, pois tem atuado bem.

O Frosinone faz algo muito interessante e inovador nesses últimos anos. Ter ciência de suas próprias limitações não significa se curvar aos times de grande poderio econômico e é uma jogada de mestre saber usar isso a seu favor, de modo a inverter a lógica das negociações e conseguir ter capacidade de barganhar mesmo sem ter uma excelente condição financeira. Sim, é preciso ter coragem para construir o próprio estádio na Itália contando com uma pequena torcida ou para realizar as contratações da temporada nos derradeiros dias da janela de transferências. E, para atingir o sucesso, a bravura é requisito essencial.

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