Jogadores Técnicos

Marcello Lippi foi xerifão da Sampdoria antes de ganhar o mundo em Berlim



Marcello Lippi está na história do futebol como um treinador muito vitorioso, tanto por clubes quanto pela seleção italiana. Porém, antes de ser técnico e comandar grandes elencos, com os quais conquistou campeonatos italianos, a Champions League e o tetracampeonato mundial, o toscano não conhecia o sabor de erguer uma taça. Lippi foi ídolo da Sampdoria antes de a equipe viver sua era de ouro e passou sua carreira como jogador sem ganhar intimidade com os canecos.

Lippi começou no pequeno Viareggio, clube que leva o nome da cidade em que ele nasceu. Aos 21 anos, antes de estrear como profissional, o zagueiro se transferiu para um time da elite do futebol italiano: a Sampdoria. Porém, Marcello teve que esperar para jogar pelos dorianos, uma vez que foi emprestado logo de cara para o Savona, que disputava a Serie C.

O jovem zagueiro atuou em 21 das 38 partidas da terceirona, se destacando pela quantidade de gols marcados para um defensor estreante – dois. Depois que o time ficou no meio da tabela, Lippi voltou a Gênova a pedido do treinador Fulvio Bernardini, e conseguiu uma vaga na equipe titular blucerchiata.

De acordo com o próprio Lippi, Bernardini foi o treinador que mais marcou a sua carreira – e o que mais o influenciou como técnico. “Foi o melhor professor que já tive. Ele impunha sua personalidade a todos sem anular os jogadores e, de fato, tirava o máximo deles”, declarou Marcello, que repetiria tais preceitos na qualidade de comandante.

Marcello herdou a faixa de capitão de Lodetti (Arquivo/Lippi)

Em sua primeira temporada com Bernardini, Lippi atuou em 28 partidas, com um gol marcado. Para quem ainda era um jovem jogador, o ano foi muito bom: teve até duas convocações para jogos da seleção olímpica azzurra. Contudo, os torcedores dorianos passaram por um sufoco, já que a Samp só escapou do rebaixamento na última rodada – e graças ao saldo de gols. Ao fim do campeonato, o treinador deixaria o clube após um ciclo de seis anos e daria espaço a Heriberto Herrera.

Marcello Lippi manteve o posto de titular mesmo com a troca de comando. Sob as ordens do paraguaio, o time melhorou de rendimento e terminou 1971-72 na oitava colocação, sem o desespero da temporada anterior. O líbero doriano até contribuiu com um gol de canhota num alucinante 4-4 com a Inter, em Milão.

Pelo ótimo momento como camisa 6 da Sampdoria, o jogador toscano viu crescerem as sondagens de Juventus e Milan. Em entrevista a Gianluca Di Marzio, Lippi revelou que chegou a ser elogiado até mesmo por Nereo Rocco num duelo entre Samp e Milan. “Ouvi alguém gritando: ‘Ei, loirinho! Nesse verão eu compro você’. Era Rocco. Mas, no fim das contas, eles adquiriram Maurizio Turone, do Genoa”, recordou o ex-zagueiro.

Em nove anos de Sampdoria, o zagueiro se afirmou como ídolo do clube genovês (Arquivo/Lippi)

Em 1973, quando vinha em franco crescimento, Lippi sofreria uma lesão que o tiraria de quase metade da temporada. Sem ele, a Sampdoria novamente escapou do rebaixamento na última rodada pelo saldo de gols. Ao fim da campanha, o cenário mudou de vez nos bastidores. O presidente Mario Colantuoni abriu espaço para Giulio Rolandi, novo cartola do clube, e o comando técnico também trocou de mãos: saiu Herrera e entrou Guido Vincenzi, ex-jogador do clube.

Contudo, as alterações na estrutura blucerchiata não surtiram efeito. Ao término da última rodada de 1973-74, o time estava rebaixado mesmo com Lippi voltando a ter mais partidas entre os titulares. Contribuía para a queda um problema do passado: a Samp tinha sofrido uma punição de três pontos em um julgamento da justiça desportiva, em virtude de atos de indisciplina do antigo presidente Colantuoni.

A sorte acompanhava os genoveses, apesar de tudo. Os dorianos foram salvos por um dos muitos escândalos de manipulação de resultados que já aconteceram na Itália. O chamado “escândalo do telefonema” eclodiu e teve como punições o rebaixamento direto do Verona e a perda de seis pontos do Foggia, que entrou na zona de descenso. Dessa forma, a Sampdoria ganhou duas colocações na tabela e ficou na primeira divisão.

Técnico e propositivo, Lippi foi líbero da Samp (Arquivo/Lippi)

Depois da salvação, o capitão Giovanni Lodetti rumou ao Foggia e Marcello herdou a braçadeira, que usaria até 1979, quando já seria uma bandeira do Doria. Lippi começou mais uma temporada sob as ordens de um novo técnico – desta vez Giulio Corsini – e mais uma vez contribuiu para que a Sampdoria se salvasse da queda na última rodada. O líbero era presença certa em campo e só não disputou uma rodada do campeonato.

Depois de mais uma lesão que o tirou dos gramados por mais da metade da temporada 1975-76, o toscano já descartava transferências para times maiores, como quase ocorrera anteriormente. Lippi, então, se consolidaria como ícone de uma Sampdoria que, após seguidas lutas ferrenhas pela permanência, capitularia em 1977. Lippi jogou todas as 30 partidas da temporada, mas a equipe estava enfraquecida e caiu.

O elenco doriano não melhorou nas duas campanhas seguintes e Lippi foi um gladiador quase solitário num time que não passava do meio da tabela na Serie B. No verão de 1979, então, Marcello deixou a Samp após 273 jogos pelo clube – número que o deixa entre os 20 atletas que mais defenderam a camisa blucerchiata. Aos 31 anos, o jogador voltou para a sua Toscana ao acertar com a Pistoiese, que também atuava na segunda categoria.

Já experiente, Lippi voltou à Toscana e ajudou a pequena Pistoiese a disputar sua única Serie A na história (Guerin Sportivo)

Depois de fazer história na Sampdoria, Lippi também marcou época na olandesina. Com o veterano líbero no centro da zaga, os laranjas fizeram uma temporada 1979-80 quase perfeita e, por apenas três pontos, não foram campeões da Serie B. Contudo, isso pouco importava, já que a Pistoiese garantiu a histórica promoção para a elite. Na primeira divisão, o time toscano foi um saco de pancadas e, com 16 pontos, foi o lanterna da competição. Novamente, pouco importava.

Depois do rebaixamento para a Serie B, Lippi rumou para a quarta divisão e encerrou sua carreira em 1982, aos 34 anos. O ocaso se deu com a camisa da Lucchese: os rossoneri fizeram uma campanha modesta na Serie C2 e ficaram apenas no meio da tabela. Um fim de carreira nada chamativo para quem conseguira tanto respeito em Gênova.

O respaldo da Samp, aliás, estava intacto. Tanto é que, logo depois de se aposentar, Lippi retornou a Gênova. “Antes de deixar a Sampdoria, o presidente Paolo Mantovani me prometeu que sempre haveria espaço para mim [no clube] depois que eu encerrasse minha carreira: voltei e disse a ele que queria ser treinador”, conta Lippi. E, nas categorias de base dos blucerchiati, Marcello deu início a uma nova e ainda mais sólida trajetória profissional.

Marcello Lippi
Nascimento: 12 de abril de 1948, em Viareggio, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Viareggio (1963-1969), Savona (1969-70), Sampdoria (1969-79), Pistoiese (1979-81) e Lucchese (1981-82)



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