A Atalanta chegou a Bruxelas sabendo que o acesso direto às oitavas da Liga dos Campeões já era improvável, mas saiu com uma sensação ainda mais amarga do que a tabela sugeria do estádio Constant Vanden Stock, do Anderlecht, onde o Union Saint-Gilloise mandou seus jogos na competição. A derrota por 1 a 0, decidida por um gol de Khalaili no segundo tempo, não mudou o destino matemático – mesmo vencendo, a Dea ficaria fora do G8 –, porém escancarou uma atuação pobre, sem ritmo e sem competitividade, descrita pelo próprio comandante Raffaele Palladino como a pior de sua gestão em nível técnico.
O contexto ajuda a explicar, mas não absolve a Atalanta. Palladino promoveu um rodízio quase total na equipe, preservando titulares e apostando em um onze inicial profundamente alternativo. Kossounou, Hien e Ahanor formaram a linha defensiva, Musah reapareceu no meio, Samardzic jogou mais adiantado, enquanto De Ketelaere e Carnesecchi começaram no banco. Sportiello, goleiro reserva, voltou a disputar uma partida de Champions League depois de mais de dois anos. Apenas três jogadores que começaram a partida fizeram parte da escalação do jogo contra o Parma, e o resultado foi uma equipe desconectada, sem entrosamento e incapaz de controlar o ambiente.
Desde os primeiros minutos, o Union Saint-Gilloise, eliminado antes mesmo do apito inicial, mostrou mais disposição. Aos 2, Hien entregou um presente para Florucz, que driblou Sportiello e finalizou com o gol vazio; o próprio zagueiro se redimiu ao salvar em cima da linha. O susto não despertou a Atalanta. Pelo contrário, os belgas seguiram encontrando brechas: Florucz voltou a incomodar, e o brasileiro Guilherme Smith quase marcou em chute colocado após mais uma hesitação defensiva. Do lado italiano, o vazio ofensivo, pautado por um inócuo Samardzic, foi quase absoluto. Em 39 minutos, a única conclusão digna de nota foi um chute de Lookman no primeiro pau, defendido por Scherpen.
A leitura do jogo levou Palladino a corrigir cedo. Aos 52, lançou De Ketelaere, De Roon e Sulemana; pouco depois, Scamacca também entrou. Houve mudança de postura, mas não de qualidade. A Atalanta passou a ocupar mais o campo adversário, sem transformar presença em perigo real. E, quando parecia ensaiar algum controle, sofreu o golpe decisivo: El Hadj efetuou cruzamento na área em cobrança de falta, Zappacosta cometeu erro de marcação e permitiu o cabeceio certeiro de Khalaili, até então discreto. Um lance suficiente para construir uma vitória histórica do USG.
O gol expôs outro limite da noite nerazzurra: a dificuldade de reagir em jogos “sujos”, travados, cheios de rebotes e disputas pela segunda bola. A Atalanta tentou empurrar o adversário para trás, Palladino ainda lançou Pasalic, mas o ataque seguiu estéril. Não houve um único chute realmente perigoso no segundo tempo. A melhor chance de empate apareceu já aos 91, em cruzamento desperdiçado por Sulemana diante da baliza. A síntese cruel de uma atuação sem precisão.
As palavras de Palladino após o jogo não foram uma explicação definitiva, já que os nerazzurri têm jogado bem, mas sintetizaram a noite. Ao falar em erros técnicos elementares, falta de adaptação ao clima do jogo e incapacidade de competir quando o confronto sai do roteiro ideal, o treinador descreveu exatamente o que se viu em campo. A Atalanta foi previsível, lenta e se mostrou mentalmente distante, diante de um adversário modesto que perdeu todas as partidas anteriores em casa na competição.
No fim, o Union Saint-Gilloise se despediu da Champions League com orgulho e vitória, enquanto a Atalanta acumula arrependimentos. A equipe italiana, 15ª colocada, vai aos playoffs, onde enfrentará Borussia Dortmund ou Olympiacos, não pelo resultado em Bruxelas, mas apesar dele. A classificação mantém o caminho europeu aberto; a atuação, porém, deixa alertas claros sobre competitividade e leitura de jogo desse time. Em noites assim, a Liga dos Campeões cobra mais do que talento, e isso já foi visto na temporada passada, quando a eliminação na fase de 16-avos de final, às custas do também belga Club Brugge, foi inesperada. Nessas duas situações, o torneio cobrou presença, e a Dea não apareceu.


