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Valentino Mazzola foi a encarnação do Grande Torino

Valentino Mazzola foi um dos jogadores mais completos da história do futebol italiano. Talvez o rumo que tomou o mundo da bola fosse diferente, caso não tivesse ocorrido o Desastre de Superga, em 1949, quando Mazzola morreu junto com todo o time do Grande Torino. Com certeza a sala de troféus do clube granata estaria mais cheia, muito provavelmente a Itália teria feito uma apresentação bem melhor na Copa de 50 e talvez, só talvez, o Real Madrid não teria ganho as cinco primeiras Ligas dos Campeões.

Aquele era o melhor time italiano da década, quiçá da Europa, e Mazzola era um de seus principais jogadores. Polivalente, com grande habilidade e forma física bem acima da média, Valentino antecipou a ideia de jogador universal. É consenso geral de quem viu Mazzola em ação que ele era um jogador à frente de seu tempo. Seu comprometimento e paixão com a bola nos pés o tornavam diferente, em um futebol que não era tão profissional como o de hoje.

Nascido na província milanesa de Cassano d’Adda, em 1919, Valentino não teve uma infância fácil. Seu pai morreu cedo e ele teve que deixar a escola para trabalhar e ajudar a mãe com as despesas de casa. Não por isso deixou de se divertir: conciliava seu trabalho com o futebol. Jogava pelas equipes menores da cidade, até ser contratado por um time de fábrica, o Alfa Romeo Milano, que disputava a Serie C nacional.

Não demorou muito para que um time da Serie A prestasse atenção no garoto e levasse-o para a divisão maior do futebol italiano. Foi o Venezia que assinou com o jovem de 20 anos recém-completados. No mesmo ano, chegava ao clube outro garoto: Ezio Loik, que formou dupla inseparável com Valentino até o fim de suas carreiras. Juntos, levaram o Venezia ao maior título de sua história, a Copa da Itália de 1941. Conseguiram, ainda, fazer com que o time chegasse a uma inédita terceira colocação na Serie A de 1942.

Mazzola e a camisa “scudettata” do Torino (Storie di Calcio)

Foi o suficiente para convencer Ferruccio Novo, então presidente do Torino, que aqueles dois tinham que estar na squadra vencedora que ele montava. O único problema é que a Juventus já tinha um acordo verbal com o Veneza para assinar com Mazzola. Ferruccio resolveu o imbróglio oferecendo duzentas mil liras a mais e mais dois jogadores para o clube do vêneto. O resto da história é conhecido: o time de Turim assinou com Valentino e Loik, venceu todos os Campeonatos Italianos disputados até 1949, formou um dos maiores times da Europa naquela década e tornou-se a base da seleção italiana.

Como capitão do Toro, Mazzola alcançou grandes números. Foram 123 gols em 195 partidas disputadas, sendo 29 só na Serie A de 1946-47, quando se sagrou artilheiro da competição. No ano seguinte, ajudou o Torino na fantástica campanha do tetra, quando a equipe venceu o scudetto com 16 pontos de vantagem para o segundo colocado, somando 125 gols marcados e apenas 33 sofridos. Lembrando que na época a vitória valia apenas dois pontos.

Mazzola só não foi maior porque jogou em tempos de guerra. Por causa da Segunda Guerra Mundial, dois campeonatos nacionais e duas Copas do Mundo não ocorreram, diminuindo sua história na seleção nacional para apenas 12 jogos e quatro gols. Uma pena um dos maiores jogadores italianos de todos os tempos não ter um título mundial no currículo. Mesmo assim, Mazzola entrou para a história e povoa a memória dos fanáticos por futebol, com grandes histórias.

Em 1947, o Torino terminou o primeiro tempo do jogo contra a Roma perdendo por 1 a 0. Há relatos de que no intervalo Mazzola teria perguntado para seus companheiros se eles queriam ver como o futebol deve ser jogado. O jogo terminou 7 a 1 para o time de Turim. Isso explica a frase de Enzo Bearzot anos mais tarde: “O maior jogador italiano de todos os tempos foi Valentino Mazzola. Ele era um homem que podia carregar um time todo em suas costas”. Nas palavras do escritor Gianpaolo Ormezzano, “Valentino jogava no Torino, juntava o Torino e era o próprio Toro”.

Ferruccio e Sandro, que também viraram jogadores, carregam foto do pai, Valentino (Old School Panini)

Valentino Mazzola fez sua última partida dia 3 de maio de 1949, na vitória por 4 a 1 contra o Benfica, em Portugal. Marcou um dos gols. Na volta para a Itália, o avião que levava os jogadores se chocou com a Basílica de Superga, nas proximidades de Turim, e matou todos os tripulantes. Mas sua herança para o futebol não ficou apenas na memória ou nos escritos. Valentino deixou no mundo dois filhos, Ferruccio, em homenagem ao presidente que o levou ao Torino, e Sandro. O segundo todos conhecem: o ídolo da Inter da década de 1960, Sandro Mazzola. Vocês relembram um pouco da carreira dele quinta-feira, aqui no blog.

Valentino Mazzola
Nascimento: 26 de janeiro de 1919, em Cassano d’Adda, na Itália
Posição: atacante
Clubes: Alfa Romeo (1938-39), Venezia (1939-42) e Torino (1942-49)
Seleção italiana: 12 jogos, 4 gols
Títulos: 5 Campeonatos Italianos (1943, 1946, 1947, 1948 e 1949) e 2 Copas da Itália (1941 e 1943)

1 comentário

  • Caro Rodrigo:

    Li o seu texto e gostei do que li. Conhecendo, porém, muito bem a história do jogo de 3 de Maio de 1949, com o Benfica, não posso deixar de lhe referir que o encontro resultou numa vitória dos portugueses por 4-3 e não, como erroneamente refere, na derrota dos mesmos por 1-4.

    Cordiais cumprimentos,
    Luis Lapão
    Lisboa

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