Serie A

Porto dos milagres

Pellissier, no Chievo desde 2002, é o principal símbolo recente do clube (Reuters)

O Ádige é o segundo maior rio da Itália e banha a cidade de Verona, que não tem um grande porto. Na falta de um destes, um time modesto se tornou a melhor opção para se tornar o porto dos milagres da cidade, com o perdão do trocadilho. Em sua oitava participação na Serie A, tal “honra” para o Chievo está diretamente ligada à família Campedelli, em especial o atual presidente Luca, que em 1992 herdou o clube do pai com apenas 23 anos. Até então, o sétimo lugar na Serie C1 era a maior honra da história dos burros alados, na época time de um bairro de 3 mil habitantes.

O primeiro milagre veio em 1994, com a inédita subida para a Serie B, deixando para trás concorrentes mais renomados, como Reggina, Salernitana e Avellino. Depois, trabalhando com pouco dinheiro e muita competência, o segundo milagre tardou, mas veio. Quando assumira o Chievo, Campedelli havia escolhido o conselheiro particular de seu pai, Giovanni Sartori, para o cargo de diretor esportivo. O aniversário de dez anos da parceria foi um sucesso, marcado pelo Chievo dei Miracoli, o Chievo dos Milagres, como foi batizado pela imprensa italiana.

Com a base recém-chegada da Serie B pouco alterada, Luigi Del Neri aparecia comandando um time extremamente bem montado e motivado. Lupatelli tinha a melhor temporada da carreira no gol, D’Angelo e D’Anna formavam uma dupla de zaga afinadíssima, os “flechas negras” Luciano (então Eriberto) e Manfredini faziam miséria pelas laterais no meio-campo… Em 2002, ao fim da temporada, o Chievo fechava sua primeira participação na Serie A no quinto lugar, a um só ponto da classificação para Liga dos Campeões.

Daquele time, nove temporadas depois, restam dois jogadores: o lateral-direito Moro e o brasileiro Luciano. Em campo, uma das poucas semelhanças do Chievo de hoje com aquele do início da década se dá na defesa consistente, sólida mesmo jogando avançada para os padrões italianos. E também nos resultados, com o time a quatro pontos da Roma, última entre os da zona de classificação para a Liga dos Campeões. O 4-4-2 rápido de Del Neri é só recordação, perto do firme 4-3-1-2 que Di Carlo escolheu desde sua chegada.

Temporada passada, o treinador salvou com atencipação o Chievo de uma queda que era dada como certa e continuou no cargo mesmo sabendo que o time não poderia investir em contratações. E, outra vez, os resultados estão à mostra. Fisicamente, os gialloblù terminaram o último campeonato muito melhor do que começaram, sob o comando de Beppe Iachini. A força continua nos trabalhos atuais e Di Carlo sabe tirar o melhor dela. Com um meio-campo em losango, divide bem a função de seus jogadores e não exige que Pinzi, o encarregado pela criação, se sobrecarregue nisto que não é seu ponto forte.

Apostando forte na motivação dos seus jogadores, Di Carlo consegue ótimos resultados. Prova disso é a recuperação do artilheiro e capitão Pellissier, que corre por fora pela convocação para a Copa da África do Sul. Outro renascido é o meia Marcolini, que tem jogado ainda mais do que fazia pela Atalanta, onde já era tão elogiado. No gol, a surpresa fica por conta do experiente Sorrentino, finalmente mostrando na Itália porque foi tão elogiado em suas duas temporadas pelo AEK, de Atenas.

Além de fazer o Chievo jogar bem, conseguir bons resultados e ainda fazer um dos jogos mais divertidos da Serie A, Di Carlo ainda consegue valorizar os jogadores que Sartori garimpa a custos próximos do zero, como Bentivoglio, Rigoni e Mantovani. O próprio Sartori deu a volta por cima, depois de péssimas intervenções no ano passado, como Sardo, Makinwa e Langella. Com continuidade e um pouco de sorte, no ambiente calmo que é reservado para o Chievo em Verona, é possível fazer com que os burros alados continuem voando, quem sabe rumo ao terceiro milagre da gestão Campedelli. Que bem deve saber que três destes são suficientes para pedir uma santificação.

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