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Karl Aage Praest compôs histórico tridente dinamarquês da Juventus

Mesmo não sendo um exímio artilheiro, Karl Aage Praest tem seu legado na Juventus respeitado. Ponta esquerda de velocidade e dribles insinuantes, se destacou também pelas assistências e ainda balançou as redes mais de 50 vezes pela agremiação de Turim. Ao lado de Karl Aage Hansen e John Hansen, formou o trio de dinamarqueses que levou a Velha Senhora ao scudetto em 1952, conquistado sobre adversários fortíssimos, que também começavam a buscar estrangeiros após a Primeira Guerra Mundial.

Nascido em Copenhagen, capital da Dinamarca, Karl – cujo nome, muitas vezes, também é grafado “Carl”– passou a maior parte de sua carreira em seu país natal. Mesmo se tratando de um futebol não profissionalizado, evoluiu como atleta no Osterbros e não demorou muito para chegar à seleção dinamarquesa. Com um estilo agudo, era o típico ponta inconsistente, mas que podia desequilibrar qualquer duelo com seus dribles e sua imprevisibilidade. Não era forte no jogo aéreo, porém, tinha classe para finalizar.

A Dinamarca só convocava jogadores que atuavam no futebol local na época, então, sua passagem pelos alvirrubros se limitou aos anos que defendeu o Osterbros. Em 24 jogos representando seu país, marcou incríveis 17 gols, de 1945 até 1949. O feito mais marcante ficou por conta da Olimpíada de 1948, em que, junto de outros jovens talentos, levou o bronze da competição. O mais importante para esses atletas acabou sendo mesmo o confronto das quartas de final.

No mata-mata, Praest, John Hansen, Karl Aage Hansen, Knud Lundberg e Johannes Plöger, enfrentaram a Itália, país que estaria no horizonte de muitos deles – 10 integrantes do elenco nórdico disputariam a Serie A após a Olimpíada. É que, no confronto, fizeram bonito. John Hansen marcou quatro (!) gols e Plöger matou o jogo a cinco minutos do fim. 5 a 3 no placar e a classificação para as semifinais encaminhada. Ou mais importante que isso, possíveis negócios já estavam a vista.

Na disputa de terceiro lugar, Praest deixou dois na vitória também por 5 a 3 que garantiu a medalha aos dinamarqueses. Apenas um ano depois, a Juventus assinou com o craque, ao mesmo tempo que fechou também com outros gringos. O inglês Jesse Carver chegava para comandar a equipe, que sofrera com o domínio do Grande Torino e não vencia o Italiano havia mais de uma década. Rinaldo Martino, meia argentino, estava no pacotão ao lado do goleador Hansen.

O começo até que foi tranquilo para os novos gringos da Vecchia Signora. No início da temporada, já obtiveram um expressivo 5 a 2 sobre a Fiorentina, com gols de Giampiero Boniperti, Martino e uma tripletta de Hansen, o grande artilheiro daquela equipe. Foram cinco vitórias consecutivas, com 16 tentos.

Praest e Boniperti, flagrados em alongamento durante treino da Juventus, foram estrelas da equipe na década de 1950 (Wikipedia)

Praest marcou seus dois primeiros gols nas rodadas seguintes à inaugural: contra Lazio e Bari, ajudou nas vitórias por 3 a 1 e 4 a 0, respectivamente. Pouco tempo depois, na 12ª jornada, guardou sua única tripletta com a camisa bianconera, no triunfo por 3 a 0 sobre o Pro Patria. No tento que iniciou a contagem, fez uma pintura, chapelando o defensor e colocando no cantinho.

Ao fim da Serie A, a Juventus se sagrou campeã, com exatos 100 gols marcados e a melhor defesa do campeonato. A Velha Senhora saía da fila, que durava desde o histórico Quinquennio d’oro, encerrado em 1935, e muito dos méritos foi atribuído aos 39 tentos anotados pela dupla dinamarquesa: Hansen fez 28 e Praest, 11. O ano seguinte seria ainda melhor para Karl em termos de redes balançadas, já que guardou 15 durante todo o certame. Porém, em títulos, foi mais complicado.

A liga nacional não foi conquistada pela Juventus. Quem ficou com o título foi o Milan do imparável Gunnar Nordahl. Ao final da temporada, pintou um convite da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para os rossoneri disputarem a Copa Rio, o primeiro torneio intercontinental no mundo, que não foi aceito. A bola passou para a campeã do ano anterior, a Juve, que topou embarcar nessa aventura.

Apesar de alguns outros europeus terem recusado a participação, o torneio contou com nomes de peso da época, como Estrela Vermelha e Sporting, ambos campeões nacionais, e os brasileiros Vasco e Palmeiras. Praest terminou como o vice-artilheiro da competição, com cinco gols marcados, atrás apenas de Boniperti. Já o título ficou com o alviverde paulista.

A sorte voltou a sorrir para os bianconeri em 1952. Reforçada com Karl Aage Hansen, que ocupou a vaga de estrangeiro aberta após a saída de Martino, a colônia dinamarquesa voltou a levantar o scudetto ao final da Serie A. Desta vez, o poderoso Milan ficou com o segundo lugar, enquanto a Juve disparou. John Hansen mais uma vez foi o artilheiro, com 30 gols e Praest deixou sua marca apenas três vezes, mas contribuiu com nove assistências nessa campanha.

Insinuante pela ponta esquerda, Praest fez história na Itália (Arquivo/Juventus)

No jogo do título, Karl fez o último gol da vitória por 3 a 1 sobre o Milan. Em sua jogada tradicional pela ponta esquerda, balançou para cima do defensor e foi para o fundo. O cruzamento não saiu como o esperado, indo rasteiro na primeira trave, mas Ezio Bardelli aceitou.

Depois disso, foram mais quatro anos em Turim, com apenas 21 gols marcados. A queda foi notória, mas não lhe impediu de terminar a passagem pelo Piemonte com números expressivos. Com 55 tentos, tem mais bolas nas redes pela equipe do que nomes como Carlos Tévez, Mario Mandzukic, Paolo Rossi e até o compatriota Michael Laudrup.

Ao fim de sua passagem pela Juventus, ainda jogou mais uma temporada na Lazio, onde não rendeu o esperado – apesar disso, ajudou os celestes a chegarem na terceira posição da Serie A, a segunda melhor da história da equipe até então. Praest voltou para a Dinamarca em 1957 e foi obrigado a se aposentar, já que a federação de futebol do país (DBU) não admitia que atletas profissionalizados voltassem a atuar na liga local. Curiosamente, essa proibição cairia muito por causa de Karl.

Praest e John Hansen adquiriram casas de veraneio em Liseleje, balneário popular no país, e começaram a fazer partidas de exibição recheadas de craques profissionais – batizada como “Juve”, a residência de Karl era um dos pontos de encontro dos atletas. Como os jogos estavam competindo com a liga local, a DBU derrubou o veto anterior e passou a permitir que os atletas que retornavam do exterior atuassem no campeonato após cumprirem uma quarentena de dois anos.

Como ficou claro, Karl continuou ligado à Juventus. E, em 1969, ele e Flemming Nielsen, ex-Atalanta, organizaram um jogo amistoso entre o time da Dinamarca que faturou o bronze olímpico em 1948 e a Velha Senhora, com renda destinada ao Osterbros. Em 2008, três anos antes de falecer, Praest foi homenageado com a indicação ao Hall da Fama do Futebol Dinamarquês devido a seus feitos pela seleção do país e pela equipe italiana.

Karl Aage Andersen Praest
Nascimento: 26 de fevereiro de 1922, em Copenhagen, Dinamarca
Morte: 19 de novembro de 2011, em Copenhagen, Dinamarca
Posição: atacante
Clubes: Osterbros BK (1940-49), Juventus (1949-56) e Lazio (1956-57)
Títulos: Bronze Olímpico (1948) e Serie A (1950 e 1952)
Seleção dinamarquesa: 24 jogos e 17 gols

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