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Osvaldo Bagnoli: nove anos em Verona e um scudetto inesperado

Bagnoli nasceu em 1935, em Milão, e começou a dar seus primeiros chutes nas equipes locais, como um jogador de meio-campo ofensivo, até chegar à equipe juvenil da então Ausonia Milano, atual SS Ausonia 1931. Suas atuações chamaram a atenção do Milan, onde chegou, em 1955, para depois vencer o scudetto e a Copa Latina, na temporada 1956-57. Depois disso, fez sua carreira como um jogador de nível discreto, e sua maior glória foi participar da campanha que devolveu a Serie A à Spal, da cidade de Ferrara, na temporada 1964-65. Encerrou a carreira na pequena Verbania, na Serie C, em 1973.

Ajudado pelos amigos dirigentes da equipe do Piemonte, ele passou dos gramados ao comando do banco de suplentes quase imediatamente. O início de sua nova carreira aconteceu nas categorias de base da Solbiatese, onde ficou por um ano. Transferiu-se para o Como, também para ser o técnico da equipe juvenil e, posteriormente, auxiliar técnico; foram três temporadas de trabalho pelo clube comasco antes do grande salto de qualidade.

Rimini, o sucesso de Fano e a glória em Cesena
Em 1977, Bagnoli chegou a Rimini para, finalmente, ser o treinador de uma equipe principal. O time se preparava para defender pelo segundo ano seguido sua posição na Serie B, conquistada entre mil dificuldades. A salvezza veio apenas na última partida (empate por 1×1, fora de casa, contra a Sambenedettese) e Bagnoli não foi reconfirmado no comando do clube biancorosso. Transferiu-se, então, para Fano, baixando duas categorias: da Serie B para a C2.

No Marche, Osvaldo se reencontrou com a vitória e soube dar um sonho à cidade com a vitória do campeonato e o acesso à C1, um categoria que o clube não alcançava desde 1948. Seu trabalho foi reconhecido e, mais uma vez, Bagnoli foi para a Serie B, dessa vez para treinar o Cesena, que tinha um projeto ambicioso de retornar à Serie A, três anos após seu último rebaixamento. Na primeira temporada, o acesso foi negado por apenas um ponto mas, na temporada seguinte, o Cesena conseguiu o terceiro lugar e a promoção após a histórica vitória contra a Atalanta, deixando para trás até a scudettata Lazio.

Nos tempos de Verona, Bagnoli orienta Briegel (Eurosport)

Nove anos em Verona: o scudetto e a Europa
Ao final da Serie B de 1980-81, Bagnoli era amado em Cesena, e a confirmação de seu nome para comandar a equipe na Serie A era certa. Ele, porém, preferiu aceitar uma oferta do Hellas Verona, permanecendo na cadetteria. O clube tinha muitos problemas estruturais e conseguira sua permanência na categoria apenas na última rodada.

O que parecia uma loucura, Bagnoli entendeu como a oportunidade de construir um trabalho desde o início. Com paciência e observação, ele montou as bases de uma equipe que – ninguém desconfiava – seria histórica: o goleiro Garella foi contratado à Sampdoria; o centroavante Antonio Di Gennaro estava entre os dispensados da Fiorentina, após uma passagem pelo Perugia; o lateral-esquerdo Penzo não encontrara lugar no Brescia e, ao mesmo tempo em que aguçava o olhar, Osvaldo Bagnoli dava oportunidade a jogadores que já estavam no clube há mais tempo, como o líbero Tricella. O resultado foi imediato: o Hellas Verona surpreendeu e conquistou a Serie B.

Bagnoli havia iniciado um ciclo. A equipe continuou sendo potencializada com “reforços alternativos” e os resultados foram acontecendo: logo na temporada de reestreia na Serie A, o seu Verona chegou a um inédito quarto lugar, obtendo a classificação para a Copa da Uefa. Os gialloblù também conquistaram o vice-campeonato da Coppa Italia, fato que se repetiria na temporada seguinte. Em 1984-85, a perícia de Bagnoli foi incrementada pelos investimentos do presidente Champian: a equipe recebeu os atacantes Hans-Peter Briegel e Elkjaer Larsen, alemão e dinamarquês, respectivamente.

Em um campeonato rico, em que as equipes eram conhecidas como “Juventus de Platini” ou o “Napoli de Maradona”, o time que liderou da primeira à última rodada foi o Verona de Bagnoli, um time que buscava fazer as coisas com simplicidade, como o próprio Bagnoli declarou, anos mais tarde, à Gazzetta dello Sport. A liderança foi mantida até que, em 12 de maio de 1985, contra a Atalanta, Bagnoli conheceu a glória e confirmou o histórico scudetto. Campeão e aclamado, Bagnoli teve muitos convites de trabalho em outros lugares, mas preferiu ficar em Verona, onde ainda conseguiu mais uma classificação para a Copa da Uefa, em 1986-87. Na ocasião, o Verona chegou até as quartas de final e foi eliminado, por um detalhe, pelos alemães do Werder Bremen.

Em 1990, em mais um dos detalhes cíclicos da vida de Bagnoli, seu Verona foi a Cesena para jogar a permanência na Serie A. Justamente contra a primeira equipe que o guiou à máxima série, Osvaldo reencontrou a cadetta, após uma derrota magra. Foi o fim de uma era à frente do Verona, que durou nove anos.

O treinador em seu segundo grande trabalho, à frente de um Genoa que chegou à Europa (Genoa CFC)

Genoa, Inter e anos finais
Após seu último jogo pelo Verona, Bagnoli foi contratado pelo Genoa para construir uma outra fábula na província. Guiado pelo atacante Aguilera e contando com grandes valores, como o lateral brasileiro Branco e o meia Bortolazzi, o seu grifone foi o melhor do pós-guerra e conquistou à inédita classificação à Copa da Uefa. Na primeira vez em que o Genoa chegava à Europa, o clube realizou sua melhor campanha, alcançando as semifinais. A equipe de Bagnoli eliminou Real Oviedo, Dinamo Bucareste, Steaua Bucareste e o Liverpool, com uma histórica vitória por 2 a 1, em Anfield Road. Nas semifinais, o time de Bagnoli parou no Ajax, que se sagraria campeão.

Mais uma vez, a capacidade de Bagnoli em fazer muito com poucos recursos tinha ficado evidente. Isto chamou atenção da Internazionale, que vinha de uma péssima temporada em 1991-92, duas temporadas após scudetto conquistado com um time repleto de alemães como Jürgen Klinsmann, Andreas Brehme e Lothar Matthäus, treinado por Giovanni Trapattoni.

Bagnoli deveria levar a experiência de seu passado vencedor e também um pouco de paciência, já que os nerazzurri haviam desfeito seu bloco alemão de sucesso e contavam com uma equipe mediana. Sem grandes investimentos, o começo foi difícil e os resultados não apareceriam até que Osvaldo revolucionasse a equipe, deixando de lado os medalhões e apostando em suas conhecidas soluções “alternativas”: a partir de janeiro de 1993, a Inter engrenou, conquistou o vice-campeonato da Serie A e a classificação para a Copa da Uefa.

Para a temporada seguinte, a diretoria da Inter resolveu realizar grandes esforços econômicos ao contratar, entre outros jogadores, o talentoso Dennis Bergkamp. Porém, o time não engrenou e, após apenas seis jogos, Bagnoli foi demitido. O tempo deria razão mais a Osvaldo que à Internazionale que, apesar de ter sido campeã da Copa da Uefa, ficou a apenas um ponto do rebaixamento para a Serie B.

Depois dessa má experiência, Bagnoli resolveu deixar a carreira de treinador e não desenvolveu mais nenhuma atividade ligada ao futebol. Deixou o seu estilo simples e direto de trabalho, que é melhor definido pelas palavras de Candido Canavò, histórico editor-chefe da Gazzetta dello Sport, escritas um dia após o Hellas Verona ter conquistado o scudetto, em 1985: “[…] um grande maestro no banco. Se queremos, mesmo, achar um segredo, procuremos neste Osvaldo Bagnoli, personagem tímido, rústico e amável, que não inventou o “futebol dos marcianos”, mas geriu sua obra de arte como se gere uma fábrica sã: conceitos e trabalho, trabalho e conceitos. E um pouquinho de coragem no momento certo”.


Osvaldo Bagnoli
Nascimento: 3 de julho de 1935
Equipes: Solbiatese (1973-74), Como (1974-1977), Rimini (1977-78), Fano (1978-79), Cesena (1979-81), Verona (1981-90), Genoa (1990-92) e Inter (1992-94)
Títulos: 1 Serie C2 (1979-79), 1 Serie B (1981-82) e 1 Serie A (1984-85)

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