Técnicos

Claudio Ranieri, com seu estilo afável, conseguiu se transformar em domador do improvável

Se o futebol ensinou uma lição na já distante temporada 2015-16 é a de que o mundo dá voltas. Poucos treinadores iniciaram a época tão desacreditados quanto o italiano Claudio Ranieri: ele conseguiu fracassar com a Grécia nas Eliminatórias para a Euro 2016 e foi demitido da seleção após perder para Ilhas Faroe, deixando os gregos na lanterna de seu grupo. Desprestigiado, ele assumiu o Leicester, tido como favorito ao rebaixamento na Premier League, e a confirmação de sua chegada não foi nada auspiciosa: reforçou o senso comum de que os Foxes cairiam. O próprio técnico admitia que o objetivo era brigar para evitar a queda. Entretanto, o que aconteceu foi exatamente o inverso e o provável lanterna foi campeão inglês, no trabalho que marca o auge da carreira de quase quatro décadas do comandante romano.

A confirmação do título do modesto Leicester naquela temporada foi, sem dúvidas, um dos maiores feitos da história do esporte: em tempos de gigantes endinheirados e elencos estelares, o time azul escreveu um roteiro digno de filme, capaz de quebrar casas de apostas da Inglaterra. Ao mesmo tempo, ao guiar Riyad Mahrez, Jamie Vardy, N’Golo Kanté e companhia em uma sensacional campanha cercada de improbabilidade, Ranieri não flertou apenas com o sonho e se redimiu de uma carreira de altos e baixos, mas pôs em prova a sua especialidade: tirar o melhor de onde não se espera.

Foi assim que o romano conseguiu deixar de lado a sua reputação de treinador medíocre e fracassado – fama que permeou sua trajetória por times grandes – e passou a ser um queridinho do mundo do futebol. Até mesmo na Itália: Ranieri foi o primeiro técnico de time estrangeiro a ser manchete principal da capa do Corriere dello Sport, um dos maiores diários esportivos italianos. Conhecido por sua educação e simpatia, o treinador será lembrado também por ter promovido uma rodada de pizza para unir o time e por suas prioridades: não viu o jogo entre Chelsea e Tottenham, que poderia definir o título do Leicester, porque viajou para sua terra natal no intuito de visitar a mãe de 96 anos e estava voando de volta para a Inglaterra na hora do clássico.

Primeiro trabalho relevante do romano foi com o Cagliari de Francescoli e Fonseca (LaPresse)

A carreira de Ranieri no banco de reservas é quase imagem e semelhança dos seus anos como jogador. O ex-zagueiro foi revelado pela Roma, mas não foi aproveitado pelo seu time do coração e desenvolveu sua carreira como destaque do pequeno Catanzaro, à época (anos 1970 e 1980) flutuando entre as séries A e B. Como treinador, também não se deu bem nas grandes praças do futebol italiano e mundial: obteve seus principais resultados com equipes de menor expressão ou em clubes médios que buscavam se reerguer.

O início empolgante

Ranieri começou sua vida como técnico em times praticamente amadores. Seu primeiro trabalho foi na Vigor Lamezia, da província de Catanzaro, pela qual faturou o Campeonato Interregionale e uma das 12 vagas de acesso à quarta divisão, em 1987. Em seguida, na Campânia, também no sul da Itália, a passagem pela Puteolana, na Serie C1, já não foi das melhores: terminou 1987-88 rebaixado.

Mesmo com o descenso, Claudio ganhou uma chance maior: fechou com o tradicional Cagliari, que quase duas décadas após a conquista de seu único scudetto, estava fadado à Serie C1. À época, o treinador tinha apenas 37 anos, mas já chegou causando impacto: na primeira temporada, os rossoblù faturaram os títulos da terceirona e da Coppa Italia da Serie C. Na segunda, o romano foi responsável por comandar o time ao segundo acesso consecutivo, desta vez para a elite do futebol italiano – que não disputavam desde 1983. Ali tinha início a idolatria do comandante na Sardenha.

O treinador se tornou amado em Florença nos quatro anos de trabalho, período em que faturou três taças, incluindo a Coppa Italia (EMPICS/Getty)

Para a primeira experiência na Serie A, Ranieri ganhou os reforços dos uruguaios José Herrera, Daniel Fonseca e Enzo Francescoli, além do volante italiano Gianfranco Matteoli. Apesar das boas contratações, o elenco era um dos mais frágeis do campeonato e chegou a ocupar a lanterna, na 22ª rodada. Em incrível arrancada – o time perdeu só uma vez nas 12 jornadas seguintes – os casteddu conseguiram se safar do rebaixamento e Ranieri foi contratado para substituir Alberto Bigon no Napoli, campeão italiano um ano antes, em 1990.

Em Nápoles, Ranieri tinha a grande tarefa de lidar com a saída de Diego Armando Maradona, suspenso por doping, e decidiu confiar a missão a Gianfranco Zola – um autêntico filho da Sardenha, que atuara por Nuorese e Torres, mas não no Cagliari, antes de chegar aos azzurri, em 1989. No primeiro ano pelo time de Fuorigrotta, o romano de Testaccio levou os partenopei a um quarto lugar da Serie A e à Copa Uefa.

Na temporada seguinte, o técnico romano ganhou um reforço importante: Fonseca, que dirigira no Cagliari. O fato de o Napoli ter ido atrás de dois nomes relevantes dos rossoblù em anos consecutivos, a propósito, gerou revolta na Sardenha e intensificou a rivalidade dos casteddu com os azzurri. Para os partenopei, a felicidade não foi tão grande. O uruguaio, por um lado, terminou a época com 24 gols e no posto de artilheiro do time. Ranieri, contudo, sequer concluiu a época: foi demitido na 9ª rodada da Serie A e substituído por Ottavio Bianchi, depois de uma surra do Milan em pleno San Paolo. Os rossoneri ganharam por 5 a 1, com quatro de Marco van Basten.

Apesar de o trabalho não ter sido exatamente ruim, as expectativas sobre Ranieri, um dos técnicos emergentes do início da década de 1990, eram maiores, e ele fracassou. Foi a partir de então que a carreira do romano se dividiu entre passagens opacas em equipes grandes e bons períodos em times desacreditados.

Entre suas primeiras experiências no exterior, Ranieri enfrentou dificuldades num Atlético de Madrid à beira da falência (Allsport)

Entre altos e baixos

Assim que saiu do Napoli, Ranieri passou alguns meses parado e recebeu uma proposta da Fiorentina, que acabara de ser rebaixada para a Serie B. O romano aceitou o desafio de trabalhar novamente nas divisões inferiores e se tornou um ídolo em Florença, cidade em que morou entre 1993 e 1997. Logo em seu primeiro ano, levou uma Viola guiada por Gabriel Batistuta, Francesco Baiano, Francesco Toldo e Stefan Effenberg ao título da segundona. Nos três anos seguintes, continuou fazendo excelente trabalho na elite.

Na volta à máxima categoria nacional, a Fiorentina se desfez de Effenberg, mas ganhou o reforço do português Rui Costa. Em um campeonato de transição, no qual o objetivo era continuar na Serie A, Batistuta fez 26 gols, já preparando os gigliati para o ano seguinte.

Em 1995-96, o craque argentino deu outro show: anotou 19 tentos no Italiano e oito na Coppa Italia. A Fiorentina foi campeã na competição de mata-mata, superando a Atalanta na final, e se livrou de um jejum de 21 anos sem títulos – além disso, foi terceira colocada na Serie A. Em 1996-97, a Fiorentina de Ranieri também conquistou a Supercopa Italiana, com tripletta de Batigol sobre o Milan, e chegou às semifinais da Recopa Uefa, sendo eliminada apenas pelo Barcelona de Ronaldo Fenômeno, que bateria o Paris Saint-Germain de Raí e Leonardo na decisão. Foi a temporada de despedida do romano, que venceu 76 dos 174 jogos em que comandou os gigliati.

O italiano encontrou vários compatriotas no Chelsea, mas acabou saindo do clube pela pressão por resultados mais expressivos (AFP/Getty)

O fim do período na Toscana coincidiu com o início de um longo “exílio”: até 2005, Ranieri só trabalhou em clubes de fora da Itália. Foram tempos de muitos altos e baixos para o técnico, que alternou títulos de segundo escalão com momentos de pressão e demissões. Foi assim em duas passagens pelo Valencia, clube em que brigou com Romário, ganhou uma Copa Intertoto, uma Copa do Rei e obteve uma vaga na Liga dos Campeões – na primeira delas, entre 1997 e 1999. Na outra, em 2005, acabaria demitido precocemente.

Após a primeira boa experiência pelos che, com uma razoável campanha em 1998-99, quando faturou os títulos supracitados e o quarto lugar em La Liga, Ranieri foi mais uma aposta italiana do polêmico presidente Jesús Gil y Gil, do Atlético de Madrid. Em anos anteriores, o cartola havia contratado Christian Vieri, Michele Serena, Giorgio Venturin e Stefano Torrisi, além do lendário treinador Arrigo Sacchi.

Porém, Don Claudio não se acertou de jeito algum na capital espanhola e sucumbiu à bagunça colchonera daqueles tempos: se demitiu após a eliminação nas quartas de final da Copa Uefa, frente ao Lens, e pelos maus resultados no campeonato nacional. No fim das contas, o time, que tinha vários bons nomes e atravessava um processo de falência, terminaria rebaixado à segunda divisão.

Ranieri não conseguiu repetir, em sua segunda experiência pelo Valencia, os bons momentos da primeira passagem (Bongarts/Getty)

Em setembro de 2000, Ranieri recebeu uma oportunidade no Chelsea, clube em que teve o compatriota Gianluca Vialli como antecessor no comando técnico. Na época, o time londrino ainda não era comandado pelo bilionário Roman Abramovich e vivia um período de apostas em italianos – quando da chegada do treinador, eram sete no elenco, incluindo Zola, seu velho conhecido – e de conquistas eventuais em copas.

No Chelsea, o técnico romano teve percurso similar ao que desenvolveu no Valencia. No Mestalla, Don Claudio iniciou o projeto que Héctor Cúper aperfeiçoou e Rafa Benítez concluiu, com final da Liga dos Campeões e título espanhol, respectivamente. No Stamford Bridge, preparou o terreno para que José Mourinho virasse um deus vivo em Londres.

Antes da chegada do dinheiro russo, o treinador – que ganhou o apelido de Tinkerman, equivalente a Professor Pardal, por mudar demais as escalações e nunca informá-las aos jornalistas – fez um trabalho bem avaliado pelos torcedores. Entre 2000-01 e 2002-03, o italiano levou o Chelsea a campanhas na metade superior da tabela da Premier League, incluindo um quarto lugar, e a um vice da FA Cup.

À frente do Parma, Ranieri conseguiu uma improvável salvação, com arrancada no fim da Serie A (imago/IPA Photo)

Depois, entretanto, Ranieri não suportou a pressão. Os Blues foram vice-campeões ingleses e alcançaram as semifinais da Liga dos Campeões em 2003-04, mas os resultados foram considerados inferiores ao ideal, já que Abramovich investira mais de 100 milhões de libras, com a contratação de jogadores como Juan Sebastián Verón, Hernán Crespo, Adrian Mutu, Joe Cole, Damien Duff e Claude Makélélé, que se juntavam a um elenco que já tinha John Terry, Frank Lampard, William Gallas, Marcel Desailly, Jimmy Floyd Hasselbaink e Eidur Gudjohnsen. Com isso, Ranieri acabou deixando Stamford Bridge.

Ranieri voltaria ao Valencia para substituir Benítez, que rumou ao Liverpool, e iniciou sua segunda passagem pelo clube espanhol com o título da Supercopa Uefa, sobre o Porto. Porém, emendou resultados ruins em La Liga e eliminações na fase de grupos da Champions League e, posteriormente, na Copa Uefa, perante um modesto Steaua Bucareste. Foi, então, demitido em fevereiro de 2005.

O Tinkerman encerrava sua primeira passagem pelo exterior e ficaria sem clube por quase dois anos, muito por causa da pecha de “perdedor”, que terminou colada em si por causa do trabalho no Chelsea. O período de inatividade foi interrompido quando Ranieri aceitou pegar uma batata quente, em fevereiro de 2007: foi convidado para treinar o Parma, que era o penúltimo colocado da Serie A. A partir da chegada do romano, os crociati começaram a jogar melhor e fizeram 24 pontos em 15 jogos, embalados por Igor Budan e Giuseppe Rossi, escapando do rebaixamento e ficando com a 12ª posição no campeonato.

O sucesso no Parma catapultou Ranieri aos grandes palcos, mas o futebol de sua Juventus seria muito criticado (AFP/Getty)

O fracasso onde houver expectativa

A arrancada do Parma fez com que Ranieri voltasse a ser apreciado pelos diretores esportivos italianos. Assim, ele ganhou a chance de comandar a Juventus em sua tentativa de reconstrução: a Velha Senhora precisou disputar a Serie B em 2006-07, punida por envolvimento no Calciopoli, e Didier Deschamps não prosseguiu no cargo após garantir a promoção. O seu cargo, então, caiu no colo do romano.

Ranieri assinou contrato de três anos com a Velha Senhora, mas não ficou nem dois. Apesar de ter classificado a Juve para a Liga dos Campeões duas vezes – algo que Ciro Ferrara e Luigi Delneri, seus sucessores, não conseguiram –, ele deixou Turim antes do fim da temporada 2007-08, por uma crise de resultados ruins que ameaçavam o vice-campeonato da Serie A. Além da sequência negativa, pesou para sua demissão o futebol pouco atrativo da equipe, que não passava confiança alguma.

Ainda assim, Ranieri conseguiu um outro trabalho em agremiação de ponta na Itália. Desta vez, foi escolhido não para iniciar a temporada, mas quase isso: a Roma, sua equipe do coração, decidiu reabrir as portas para ele. Luciano Spalletti foi demitido após derrotas nas duas primeiras rodadas da Serie A e o romano voltou a Trigoria.

Em “casa”, Ranieri viveu às turras com Totti e fez parte de romada histórica, durante a temporada 2009-10 (imago)

O trabalho do Tinkerman na Cidade Eterna durou pouco mais de um ano e meio. E ficou marcado pelos atritos com os lendários Francesco Totti e Daniele De Rossi – os dois chegaram a ser barrados de um clássico contra a Lazio, que terminou com vitória giallorossa.

Mas não foi só: Ranieri acabou participando de uma incrível “romada”. Em 2009-10, a Roma ultrapassou a Inter de Mourinho na reta final da Serie A e venceu nove dos 10 últimos jogos do certame, incluindo o dérbi capitolino. No entanto, perdeu para Sampdoria em casa, de virada, na 35ª rodada. A solitária derrota bastou para os nerazzurri retomarem a ponta e abocanharam o título de 2009-10, fundamental para a obtenção da única tríplice coroa de uma equipe italiana. Para piorar a situação, a Loba ainda perdeu a Coppa Italia para a Beneamata, em pleno Olímpico.

No campeonato seguinte, a Roma praticou um futebol pragmático e sem resultados, o que fez com que o treinador optasse por se demitir, em fevereiro de 2011. Já pressionado, Don Claudio entregou o cargo após uma derrota absurda contra o Genoa: a equipe giallorossa vencia por 3 a 0, mas levou a virada e saiu do Marassi com um 4 a 3 contrário.

Na Inter, assim como na Juventus, o gentil Ranieri não conseguiu fazer o seu time jogar um bom futebol (AFP/Getty)

Parecia que o Tinkerman, então com quase 60 anos, entraria na fase descendente de sua carreira. Foi aí a Inter surgiu no horizonte: em 2011, a Beneamata escolheu Gian Piero Gasperini como técnico, mas ele foi demitido logo no início da Serie A, por incompatibilidade com a diretoria e o elenco, que levaram a maus resultados.

Ranieri surgiu para tapar o buraco deixado pelo antecessor, mas não conseguiu nem concluir a temporada 2011-12. Don Claudio organizou o time defensivamente, mas o futebol opaco, com um 4-4-2 muito rígido e sem criatividade, e a falta de resultados, além da eliminação na Liga dos Campeões, fizeram com que sua rescisão de contrato acontecesse. Ainda assim, ganhou o respeito da torcida nerazzurra por seu jeito afável e pela cordialidade habitual.

A reviravolta do “senhor gentileza”

Em todos os clubes pelos quais passou, o Tinkerman ficou conhecido pela simpatia e pela gentileza com a torcida e com os jornalistas. Apesar de tudo, a ternura de Ranieri não importava muito: afinal, os torcedores gostam mesmo é de bons resultados e de bom futebol. Isso o romano não conseguiu entregar com regularidade em nenhum dos grandes clubes pelos quais passou.

Redenção: ao levar o Leicester ao título da Premier League, Ranieri protagonizou a maior façanha da história do futebol (Getty)

O (relativo) fracasso por Juve, Roma e Inter fechava as portas para Ranieri no topo do futebol italiano naquele momento – a não ser que ele topasse abaixar suas pretensões novamente e treinar uma equipe menor. Uma vez que Napoli e Fiorentina, clubes em que ainda dispunha de prestígio, tinham técnicos estabelecidos àquela altura, ou o romano tentava novas experiências no exterior ou ficaria parado. A primeira opção foi a escolhida.

O magnata russo Dmitry Rybolovlev acabara de adquirir o Monaco, então na segunda divisão francesa, e deu o comando do time a Claudio Ranieri. O italiano conquistou a categoria, levando o time para a Ligue 1 e, na elite, duelou com o Paris Saint-Germain pelo título – ficou com o vice e acabou licenciado do cargo. Dois meses depois, assinou com a Grécia e deu vexame, como citamos anteriormente, com três derrotas e um empate em míseras quatro partidas pela seleção helênica. Em 2015, o Leicester cruzou o caminho de Ranieri e o resto é história.

Depois do título da Premier League – o terceiro de um técnico italiano, após Roberto Mancini e Carlo Ancelotti – e da classificação dos Foxes para a Liga dos Campeões, a expectativa sobre Don Claudio era maior. Claro, repetir a dose seria algo muito complicado, mas se imaginava que o Leicester voltasse a fazer uma boa temporada no Campeonato Inglês. Por outro lado, ficar com uma pulga atrás da orelha com Ranieri, ao menos quando se espera muito do time dele, sempre foi prudente.

Ranieri se emocionou muito ao fim de sua sua segunda e última passagem pela Roma (Getty)

No fim das contas, venceu o histórico negativo do Tinkerman quando em posições do topo. O homem e o time que quebraram tantos paradigmas em 2015-16 sofreram na época seguinte e, ao mesmo tempo, faltou gratidão ao tailandês Vichai Srivaddhanaprabha, dono do Leicester. Ranieri foi demitido em fevereiro de 2017, quando os Foxes estavam um pouco acima da zona de rebaixamento da Premier League e haviam perdido o jogo de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões para o Sevilla. Sem Don Claudio, acabariam avançando às quartas e sendo eliminados pelo Atlético de Madrid. E não seriam rebaixados.

Àquela altura, Ranieri já havia sido reconhecido pela fábula que promoveu no Leicester, tida como maior feito da história do esporte em toda a história. O treinador foi eleito como melhor do ano de 2016 pela Fifa, pela World Soccer e pela Gazzetta dello Sport, além de ter recebido o Prêmio Bearzot e o Prêmio Gianni Brera. Também recebeu um Panchina d’Oro honorário e entrou instantaneamente no Hall da Fama do futebol italiano. Do Comitê Olímpico Italiano – CONI, recebeu uma raríssima Palma de Ouro ao mérito técnico, geralmente atribuída aos comandantes de títulos mundiais ou medalhistas dourados. O romano ainda recebeu o título de Grande-Oficial da Ordem do Mérito da República Italiana. Foi a quinta personalidade ligada aos desportos a recebê-lo.

Os anos finais

Por tudo o que havia conquistado, Ranieri bem que poderia dar um basta à carreira e aproveitar a vida. No entanto, decidiu seguir trabalhando e, em 2017, foi anunciado pelo Nantes da França – apesar do veto inicial do sindicato de treinadores local, que previa que clubes profissionais não podiam contratar comandantes com 65 anos ou mais. O italiano conduziu os canários a uma campanha de meio de tabela na Ligue 1, a três pontos da zona de classificação à Liga Europa, e a desempenho mediano nas copas. Terminou não renovando o contrato.

Em tempos pandêmicos, Ranieri deu esperanças à torcida da Sampdoria (Getty)

No fim de 2018, o italiano acertou com o Fulham e teve sua terceira experiência na Premier League – a pior delas, até então. Pegou o bonde dos Cottagers andando e acumulou resultados ruins, entre os quais uma eliminação na FA Cup para o Oldham, da quarta divisão, que era dirigido pelo interino Pete Wild, cuja única experiência anterior era com a seleção inglesa de amputados. Os alvinegros seria rebaixados à segundona e, antes disso, Ranieri foi demitido.

Don Claudio ficou sem clube por menos de duas semanas e, como se diz por aí, “caiu para cima”. Em março de 2019, a Roma demitiu Eusebio Di Francesco e confiou a condução do elenco, até o final daquela temporada, a uma figura conhecida, amada pelos romanistas e amante das cores da agremiação. Ranieri levou a Loba até a sexta colocação da Serie A e teve uma despedida emocionante no jogo contra o Parma, já que De Rossi também fazia sua derradeira aparição pela equipe.

Meses depois de romanistas de todo mundo se debulharem em lágrimas, Ranieri incluso, o técnico apareceu na Sampdoria, outra vez como substituto de Di Francesco. Don Claudio assumiu uma equipe que começava a dar indícios dos problemas financeiros que quase lhe levariam à falência, entre 2022 e 2023, e fez um trabalho absolutamente digno de sua história.

A idolatria que Ranieri conquistou em Cagliari ficou ainda maior após um retorno emocionante à Serie A (NurPhoto/Getty)

Na Ligúria, Ranieri ultrapassou os 1000 jogos como treinador e se tornou o primeiro comandante a disputar os grandes dérbis municipais da Itália – os de Turim, Roma, Milão e Gênova, nesta ordem de enfrentamento. Em uma relação de muito incentivo da torcida doriana, apesar das críticas dos blucerchiati à gestão do presidente de Massimo Ferrero e das restrições de distanciamento social, impostas pela covid-19, Don Claudio conduziu o time liderado por Fabio Quagliarella a duas campanhas de meio de tabela, sendo a segunda, em 2020-21, marcada por um ótimo nono lugar.

O romano acabou não entrando em acordo com o conterrâneo Ferrero e não renovou o seu contrato com a Samp. Ranieri ficou sem clube por alguns meses, até outubro de 2021, quando voltou à Inglaterra através de um chamado italiano – o de Giampaolo Pozzo, proprietário de Udinese e Watford. A passagem por Vicarage Road durou apenas 14 partidas e, com um rebaixamento encaminhado, Don Claudio ficou sem clube de janeiro a dezembro de 2022. Até que foi chamado para seu último ato no clube em que despontou para a elite do futebol mundial.

Ranieri voltou ao Cagliari em substituição ao demitido Fabio Liverani, com o time rossoblù apenas na 14ª colocação da Serie B, com pífios 22 pontos conquistados em 18 jogos – um rendimento baixíssimo, considerando que os casteddu haviam caído na temporada anterior. Mas Don Claudio revolucionou a campanha: somou 35 pontos em 19 rodadas e levou os isolani à quinta colocação, que rendeu a classificação para os playoffs de acesso.

Em sua despedida, Ranieri foi homenageado pelo povo de Cagliari antes e depois do jogo contra a Fiorentina (Getty)

Nas finais, pura emoção: o Bari empatou nos acréscimos do jogo de ida, na Sardenha, e jogava por um resultado igual para subir à Serie A, mas, na volta, Leonardo Pavoletti, aos 94 minutos, garantiu o triunfo do Cagliari em pleno estádio San Nicola. Assim, Ranieri conseguia um novo acesso com os casteddu 33 anos depois da primeira, obtida em 1989-90.

O veterano permaneceu no comando do Cagliari e quase chegou a se demitir após maus resultados, em fevereiro de 2024. Entretanto, foi demovido da ideia pelos jogadores e pela diretoria. Melhor assim: no fim da Serie A, salvou os isolani do descenso e recebeu merecidíssimas homenagens após anunciar que iria interromper o contrato uma temporada antes do fim e se aposentar, aos 72 anos – ao menos do futebol de clubes, deixando as portas abertas para uma seleção. A despedida, no Unipol Domus, foi com uma derrota por 3 a 2 para a Fiorentina, uma de suas antigas empregadoras, graças a um pênalti no último lance, o que deixou o treinador irritadíssimo. Porém, o que valeu foi o tributo recebido na capital da Sardenha, quando todos os presentes no estádio lhe aplaudiram por mais de um minuto.

Desde que estreou na elite italiana como técnico, em 1990, Ranieri somou 912 partidas em campeonatos de primeira divisão. Considerando as cinco grandes ligas europeias, só Arsène Wenger, com 988, colecionou mais no período. No total, foram 1404 jogos como treinador, sendo exatos 1400 por clubes. Números absolutamente expressivos, mas que são pequenos perto do carinho que Don Claudio recebeu em suas muitas aventuras no futebol, de Cagliari a Turim, de Nápoles a Milão, de Florença a Valência, de Gênova a Londres, ou do coração de Roma a Leicester. E algo ínfimo perto da façanha que protagonizou com os Foxes.

Claudio Ranieri
Nascimento: 20 de outubro de 1951, em Roma, Itália
Posição: zagueiro
Clubes como jogador: Roma (1972-74), Catanzaro (1974-82), Catania (1982-84) e Palermo (1984-86)
Carreira como treinador: Vigor Lamezia (1986-87), Puteolana (1987-88), Cagliari (1988-91 e 2023-24), Napoli (1991-93), Fiorentina (1993-97), Valencia (1997-99 e 2004-05), Atlético de Madrid (1999-2000), Chelsea (2000-04), Parma (2007), Juventus (2007-09), Roma (2009-11 e 2019), Inter (2011-12), Monaco (2012-14), Grécia (2014), Leicester (2015-17), Nantes (2017-18), Fulham (2018-19), Sampdoria (2019-21) e Watford (2021-22)
Títulos como treinador: Campeonato Interregionale (1987), Serie C1 (1989), Coppa Italia da Serie C (1989), Serie B (1994), Coppa Italia (1996), Supercopa Italiana (1996), Copa Intertoto (1998), Copa do Rei (1999), Supercopa Uefa (2004), Ligue 2 (2013) e Premier League (2016)

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