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John Charles, o gigante gentil do tridente mágico da Juve

Alto, mas não desengonçado. Grande, mas altamente técnico. Ágil, comprometido e autêntico gentleman: assim poderíamos definir o galês John Charles, que jogou na Juventus. O jogador atuou pela equipe bianconera por apenas cinco temporadas, mas deixou grande legado à Itália e ao futebol. Condecorado Comandante do Império Britânico, o galês também foi incluso no hall da fama do esporte.

O pai de John Charles também havia sido jogador de futebol e teve a carreira abreviada por uma lesão, mas viu seus dois filhos, John e Mel, se tornarem estrelas do futebol galês. Eles começaram cedo, jogando bola em um parquinho de Swansea. John Charles entrou pra escola aos 12 anos e, aos 14, foi para o Swansea Town. Não demorou muito para Jack Pickard, olheiro do Leeds, descobri-lo numa partida local.

Depois de duas semanas de testes no Leeds, acabou contratado, aos 16 anos, e fez sua estreia profissional contra o Queen of the South, no ano seguinte, em 1949. O técnico pediu para ele marcar Billy Houliston, atacante internacional escocês que, dez dias antes, havia marcado dois gols na vitória de 3 a 1 sobre a Inglaterra. Ao fim do jogo, Houliston disse que aquele menino de 17 anos era o melhor centro-médio que havia enfrentado.

Além de ótimo no meio-campo, Charles era onipresente dentro da área. Apesar de quase 1,90m, o galês se mostrava extremamente ágil. Talentoso e com bom primeiro toque e controle de bola, era mestre no jogo aéreo, não somente pela habilidade de subir mais que os zagueiros como pela força que cabeceava a bola. Esse foi um dos motivos que ajudou o jogador a marcar 43 gols na segunda divisão de 1953-54, recorde do Leeds. A imprensa local duvidava que ele fizesse tanto sucesso na temporada seguinte, quando jogou na elite, mas Charles marcou mais 39.

Em abril de 1957, Charles capitaneou o País de Gales pela primeira vez, contra a Irlanda do Norte. Quem acompanhou a partida no estádio em Belfast foi Umberto Agnelli, presidente da Juventus. A negociação para contratar o jogador durou três meses. À época, os agentes dos jogadores eram praticamente incomunicáveis, mas o meia-atacante era representado pelo comentarista Kenneth Wolstenholme, que era um grande admirador do futebol italiano.

O Leeds precisava de dinheiro, e só a venda de um jogador do escalão de Charles podia ajudar a equipe inglesa. Após uma longa negociação, que envolveu também o interesse de Real Madrid e Lazio, além da interferência de um empresário italiano, o jogador se transferiu para a Juventus por 65 mil libras, valor recorde para a época.

A Juve não conquistava um scudetto há seis temporadas e chegou até lutar contra o rebaixamento. Paralelamente, o Milan ascendia na Serie A com o trio sueco formado por Gunnar Nordahl, Gunnar Gren e Niels Liedholm. Para sair da má fase, Agnelli investiu alto e, além de Charles, contratou também o ousado Omar Sívori. Juntos, engataram o Trio Mágico com Giampiero Boniperti, ídolo do clube desde a década de 1940. Muitos jornalistas ingleses disseram que o galês seria o flop da península, mas ele provou que estavam errados. Na primeira temporada, John Charles foi o artilheiro do campeonato vencido pela Juventus com 28 gols em 34 jogos, sendo eleito o melhor jogador da temporada.

Sempre cavalheiro, galês impressionou a Itália pela humildade (Tumblr)

O atacante se tornou não somente um herói bianconero, mas como do futebol italiano pelo seu modo de se portar dentro e fora do campo, com hombridade e, por isso, ganhou o apelido de “O Gigante Gentil”. Sua filosofia de fair play pode ser vista quando disputou pela primeira vez o dérbi contra o Torino. Em uma disputa de bola no meio-campo, ele acidentalmente acertou o meio-campista rival com o cotovelo. Na sequência do lance, tinha apenas o goleiro à sua frente, mas preferiu chutar a bola para fora para que o jogador do Torino fosse atendido.

Após esse clássico vencido por 3 a 2 pelo Toro, os torcedores rivais acordaram o jogador às 3h da manhã. Ao invés de gritar, xingar ou chamar a polícia, Charles convidou os fanáticos para beber todos os vinhos de sua adega. Eles aproveitaram a oportunidade para tentar convencer o atacante a trocar o branco-e-preto pelo grená. Não conseguiram.

O ex-meia bianconero Rino Ferrario disse que Charles até devia ter seus problemas para se adaptar ao novo país, mas, sempre que o via, o galês estava com um largo sorriso no rosto. “Ele era um perfeito cavalheiro”, disse. Boniperti completou: “ele era uma pessoa extraordinária, e diria até que de outro planeta devido a suas qualidades humanas. John era uma das pessoas mais leais e honestas que conheci”.

Era possível ver que Charles tinha excelente técnica, velocidade, habilidade com ambos os pés, resistência e força. O melhor jogador da Itália era o grande nome da seleção galesa na Copa do Mundo de 1958. Entretanto, o meia-atacante não pode jogar a semifinal contra o Brasil de Pelé porque foi massacrado contra a Hungria e acabou se machucando. De volta à Juventus, liderou a equipe por mais quatro temporadas, marcando 105 gols que valeram à Velha Senhora três scudetti e duas Coppa Italia. Mesmo com a habilidade de Sívori e a idolatria à Boniperti e seus gols, há quem diga que o melhor jogador do tridente era mesmo Charles.

A aposentadoria de Boniperti, em 1961, fez com que o tridente se desfizesse, mas a Juventus não se renovou, a não ser no banco de reservas, com a chegada de Carlo Parola, jovem treinador e ex-zagueiro do clube. Fisicamente mal, Sivori e Charles não renderam e, somada à inexperiência do treinador, a Juventus acabou amargando a 12ª posição, a pior da história do clube – à exceção do rebaixamento por causa do Calciopoli. Ao fim da temporada, Sívori e Charles trocariam de clube.

Atacante, com estilo bastante físico, era temido pelas defesas. Na foto, enfrenta o Arsenal, em Highbury

Com o desejo de que seu filho fosse alfabetizado em inglês, Charles optou pelo retorno ao Leeds, que estava na segunda divisão, em 1962, por 53 mil libras. No entanto, o jogador acabou nãos e readaptando ao futebol inglês e logo decidiu retornar à Itália. Por 70 mil libras, transferiu-se para a Roma, onde começou bem, mas logo começou a sofrer com lesões e ter problemas pessoais, atuando apenas dez vezes.

Após a passagem relâmpago, foi jogar no Cardiff City, maior rival do Swansea. Para a ira dos torcedores do Swans, Charles conquistou duas Copas e participou da goleada por 5 a 0 que rebaixou o clube para a terceira divisão em 1965. Antes de pendurar as chuteiras, jogou e treinou o Hereford United por cinco anos, marcando 80 gols. Ele encerrou a carreira em 1974, aos 43 anos, no Merthyr Tydfil.

Em 1997, em ocasião das comemorações do centenário da Juventus, Charles foi votado como o melhor estrangeiro que jogou no clube, ficando à frente de craques como Zbigniew Boniek, Zinedine Zidane e Michel Platini. Quatro anos depois, o ex-jogador foi condecorado Comandante do Império Britânico e tornou-se o primeiro não-italiano a integrar o hall da fama azzurro.

John Charles morreu em 2004, em Wakefield, na Inglaterra, um mês depois de sofrer um ataque cardíaco que resultou na amputação parcial de sua perna. Na história, permanecem os feitos da lenda do Gigante Gentil, o homem que nunca foi expulso nem sequer advertido em sua carreira.

William John Charles
Nascimento: 27 de dezembro de 1931, em Swansea, País de Gales
Falecimento: 21 de fevereiro de 2004, em Wakefield, Inglaterra
Posição: meio-campista e atacante
Clubes como jogador: Swansea Town (1946-48), Leeds United (1948-57 e 1962), Juventus (1957-62), Roma (1962-63), Cardiff City (1963-66), Hereford United (1966-71) e Merthyr Tydfil (1972-74)
Clubes como treinador: Hereford United (1967-71), Merthyr Tydfil (1972-74) e Hamilton Steelers (1987)
Títulos como jogador: 3 Serie A (1957-58, 1959-60, 1960-61), 2 Coppa Italia (1958-59, 1959-60), 2 Copas do País de Gales (1964 e 1965.
Seleção galesa: 38 jogos e 15 gols

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