Liga dos Campeões

Inferno branco

Sneijder chuta, a bola passa por entre as pernas de Bonucci e gol; Buffon nada pode fazer na eliminação da Juventus (Foto: Reuters)

Se você acordou hoje de um sono de beleza que durou três dias, provavelmente não ficou sabendo que o jogo entre Galatasaray e Juventus foi suspenso, na última terça-feira. Atuar na Türk Telekom Arena é um terror para a equipe visitante. Não à toa o estádio é chamado de “inferno turco”. Só que o inferno gelou, a neve cobriu o gramado, a partida foi reiniciada no dia seguinte (hoje) e… Entenda.
Ontem
Não foi a primeira vez que um Juventus-Galatasaray foi interrompido ou suspenso. Lá no ano de 1998, em 25 de novembro, a partida válida pela Liga dos Campeões foi adiada porque o líder do partido trabalhista do Curdistão, Abdullah Öcalan, estava no território italiano, à época. Como o Curdistão quer se separar da Turquia e do Iraque, havia uma questão diplomática forte e a partida foi remarcada para a semana seguinte. As equipes empataram em 1 a 1, em Istambul. A Juve, então vice-campeã europeia, chegou à semifinal e caiu ante o futuro campeão Manchester United. 
Em 2003, no mesmo dia do confronto supracitado, o jogo foi adiado devido aos atentados na capital da Turquia. A partida foi realizada na Alemanha e o Gala venceu por 2 a 0. Mesmo assim, a Juve conquistou o primeiro lugar no grupo. Foi eliminada nas oitavas para o Deportivo La Coruña.
Só que também não foi a primeira vez que Antonio Conte levou um baile do tempo. Em maio de 2000, a Juventus dependia apenas dela para se tornar campeã italiana. A Lazio fez o que precisava: venceu a Reggina e esperou. No começo da partida, o céu em Perugia e em Roma estava azul. Assim permaneceu somente na capital. 
Duas horas ao norte, na Umbria, o árbitro Pierluigi Collina precisou interromper o segundo tempo por 82 minutos. Após a tempestade, o confronto foi reiniciado, Alessandro Calori marcou o único gol, a Juventus perdeu o jogo e o título para a agremiação laziale. (E olha que em 1976 a Vecchia Signora também deixou o scudetto escapar na última rodada, para o Torino, porque foi derrotada com gol de Renato Curi, do Perugia, fora de casa).
Nicola Amoruso foi o único bianconero que conseguiu vencer Taffarel na partida adiada de 1998. Antes da decisão por uma vaga na fase de oitavas de final da Liga dos Campeões 2013-14, o ex-atacante da Juventus afirmou que “Tévez e Llorente se complementam e a dupla pode ser comparada a Del Piero e Trezeguet”.
Hoje
Os jogadores de frente da Juventus, porém, fizeram pouquíssimo ante a forte defesa turca, na Türk Telecom Arena. Tévez, contratado a peso de ouro para ser a grande solução pro ataque, não marcou um único gol na Liga dos Campeões. Os seis tentos marcados pela Velha Senhora na competição foram divididos igualitariamente entre Vidal, Llorente e Quagliarella.
Em tempo, um parágrafo para o momento decisivo: o lançamento longo, o desvio de cabeça de Drogba, o domínio de destra de Sneijder, o chute cruzado que passou milimetricamente por entre as pernas de Bonucci e o golpe de vista de Buffon. Sneijder, logo ele, que nunca havia feito gol na Juventus. Gol esse que levou o Galatasaray às oitavas com o pior saldo de gols (-6) desde a classificação do Rosenborg, em 1996-97, com -4. 
E que resposta, também, aos membros diretivos da Juventus, que não fizeram tanto esforço para assinar com Drogba nas últimas duas janelas de transferências. O experiente atacante foi brilhante tanto em Istambul, quanto na partida em Turim.
Amanhã
Depois de ser o primeiro time italiano a ser eliminado na fase de grupos nos últimos quatro anos, alguns pontos para serem repensados:
– A Juventus demorou a acordar na temporada. Só depois da sova levada no Artemio Franchi, contra a Fiorentina, a equipe andou: dez partidas, oito vitórias, 21 gols marcados e sete sofridos (nenhum no campeonato italiano, porém). Os pontos perdidos para Kobenhavn, fora, e Galatasaray, em casa, foram cruciais para a eliminação.
– O amigo e quattrotrattiano Thiéres Rabelo fez as contas: nas últimas 16 partidas de Liga dos Campeões, a Juventus de Antonio Conte venceu apenas seis, ou seja, 37,5% de aproveitamento. Adianta alguma coisa empatar fora de casa com o Nordsjælland, como na última temporada?
– A Velha Senhora embolsou mais dinheiro que o campeão Bayern de Munique na última Liga. Por dividir os direitos televisivos apenas com o Milan – o Bayern dividiu com outros dois times -, a Juventus guardou quase R$ 200 milhões em seus cofres. Ter de atuar o segundo semestre na competição de escalão inferior não trará nem perto deste valor à agremiação de Turim. (Atualização: em caso de título da Liga Europa, Juve deixa de ganhar R$ 8,3 mi – ou 2,6 mi euros – se comparado à premiação da edição 2012-13 da Champions. Valor máximo a ser recebido na competição do segundo semestre é de R$ 28,2 mi.)
– Equipes europeias podem arregalar os olhos com essa eliminação bianconera. Afinal, o mercado de transferências será aberto em pouco menos de um mês. Nesta semana, Vidal renovou seu contrato até 2017, mas Pogba, Marchisio e Lichtsteiner seguem na lista de desejos de muitos times por aí. É difícil acreditar que a Juventus negociaria seus principais jogadores, pois luta pelo título nacional e ainda ninguém sabe do futuro de Pirlo, mas é possível que rodem alguns atletas que estão no banco de reservas – inclusive Peluso já foi sondado pelo Livorno. 
– Entrar diretamente na fase eliminatória da Liga Europa pode ser complicado. O técnico Vincenzo Montella, da Fiorentina, já disse que “nós já sabemos qual será um dos finalistas”. Tá certo ele, pois. Que jogue o favoritismo ao adversário e ele que se vire com isso. No ano passado, jogando adversamente, a Juventus conseguiu a classificação no último jogo da fase de grupos e caiu somente para o Bayern, nas quartas. Esse ano, como vimos, não foi bem assim. Por outro lado, é a chance da Juve lutar pelo título da competição exatamente em sua arena. 
E ganhar um título em casa tem sempre um gosto especial.

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