Jogos históricos Seleção italiana

Itália e Inglaterra têm histórico parelho, mas os azzurri levam vantagem em grandes torneios

Postulantes ao título europeu em 2021, as seleções de Itália e Inglaterra têm escolas tradicionais de futebol e uma antiga história de confrontos, embora a rivalidade entre as equipes não seja das maiores – ambas nutrem antipatias em comum na relação esportiva com França e Alemanha, suas maiores adversárias. Isso não quer dizer, contudo, que italianos e ingleses não tenham feito duelos importantes: até julho de 2021, se enfrentaram, por exemplo, em duas edições de Copa do Mundo e de Eurocopas.

A primeira partida entre as duas seleções demorou bastante para acontecer, tendo em vista que os ingleses fazem jogos internacionais desde 1872 e os italianos, desde 1910. A partir de 1933, quando empataram em Roma, Itália e Inglaterra se enfrentaram 27 vezes, com 10 vitórias da Nazionale, nove igualdades e oito triunfos dos Three Lions, além de 31 gols itálicos e 33 britânicos. Nas nove pelejas realizadas na Grã-Bretanha, registra-se perfeito equilíbrio, já que ocorreram três sucessos para cada lado e o mesmo número de paridades.

Quando transportamos a análise para jogos realizados no estádio de Wembley, contudo, a Squadra Azzurra tem vantagem sobre a equipe inglesa, com duas vitórias, três paridades e apenas uma derrota – ocorrida em 1977. A Itália também estabeleceu ampla superioridade em partidas que ocorreram por grandes torneios, como a Euro e o Mundial: está invicta, com três êxitos (1980, 1990 e 2014) e um empate com classificação posterior nos pênaltis (2012).

Confira, abaixo, como foram os principais embates entre Itália e Inglaterra.

Numa violenta partida em Highbury, o goleiro Ceresoli cometeu pênalti a favor dos ingleses logo no primeiro minuto (imago/United Archives International)

A Batalha de Highbury

Um ano e meio depois do amistoso que inaugurou o histórico entre Itália e Inglaterra, as seleções voltaram a se encontrar em novembro de 1934, em Londres. Os azzurri haviam se sagrado campeões do mundo poucos meses antes e a partida ganhou ares épicos: os organizadores a vendiam como definidora da supremacia na modalidade. Afinal, colocava o grupo que estava no topo do planeta em oposição à equipe do país que inventara o futebol e que, por não ter sua federação filiada à Fifa, não disputava competições oficiais.

Para a partida realizada em Highbury, os donos da casa apostaram num grupo formado majoritariamente por atletas do Arsenal, com sete membros dos Gunners. Os visitantes, por sua vez, tinham nove campeões mundiais em 1934 – só o goleiro Carlo Ceresoli e o meia Piero Serantoni, que levantariam a Jules Rimet em 1938, não haviam integrado a campanha. As seleções se enfrentariam frente a 56 mil pagantes, numa tarde fria, com neblina, gramado pesado e grande possibilidade de que a chuva que caíra pela manhã voltasse a castigá-lo.

O cenário fez o time treinado por Vittorio Pozzo acreditar que a Inglaterra começaria o jogo de maneira estudada. Contudo, a Itália foi surpreendida pelo ímpeto imediato dos Three Lions: com apenas 1 minuto, Ted Drake foi derrubado por Ceresoli na área e conseguiu um pênalti. O goleiro se redimiu ao saltar e defender a cobrança de Eric Brook. Antes mesmo dos 2 minutos, o volante Luis Monti fraturou o pé numa dividida com Drake e, como não haviam substituições na época, teve de permanecer em campo só para fazer número – até que o técnico achou melhor sacá-lo.

A Inglaterra aproveitou a sequência de baques sofrida pela Itália para fazer incríveis 3 a 0 em apenas 12 minutos, com doppietta de Brook e um tento de Drake. O restante da peleja teve bastante violência, com entradas duras de parte a parte, o que levou os jornalistas da época a atribuírem ao encontro o epíteto de Batalha de Highbury. No entanto, a Nazionale também mostrou futebol no segundo tempo, debaixo de uma chuva persistente.

Motivada pelo capitão Attilio Ferraris, que passou a se dedicar por ele próprio e por Monti no centro do campo, a equipe azzurra marcou duas vezes com Giuseppe Meazza, aos 58 e aos 62, com assistências de Raimundo Orsi e do próprio Ferraris. Os italianos cresceram na partida e só não empataram porque o goleiro Frank Moss estava inspirado e o travessão também a impediu. Mesmo assim, a seleção foi muito elogiada pela garra que engendrou a reação com um jogador a menos do que os ingleses: por isso, o apelido Leões de Highbury foi dado aos atletas daquele confronto.

A partida de Londres foi a mais marcante de um período de domínio inglês sobre a Itália. Até maio de 1973, quando a Nazionale de Giacinto Facchetti bateu a equipe capitaneada por Bobby Moore num amistoso (ocasião da foto que ilustra a abertura do texto), a Inglaterra teve oito jogos de invencibilidade, graças a quatro vitórias e quatro empates. Seis meses depois desse triunfo, em Wembley, os azzurri também derrotaram os Three Lions na Grã-Bretanha pela primeira vez na história e dedicaram o feito aos heróis de Highbury.

Em 1980, Tardelli marcou e a Itália derrotou a Inglaterra de Keegan na Euro (imago/WEREK)

Euro 1980

Em 1980, a Itália sediou a fase final da Euro, com apenas oito participantes. As seleções eram divididas em duas chaves, nas quais os líderes avançavam à decisão e os segundos colocados disputavam o terceiro posto da competição. A Nazionale e a Inglaterra foram sorteadas no Grupo 2 e se enfrentaram depois de empates com Espanha e Bélgica, respectivamente, em suas estreias.

Os ingleses, então treinados por Ron Greenwood, não haviam participado das duas Copas do Mundo que antecederam a Euro, mas tinham um grupo forte, com destaques como o goleiro Peter Shilton, o lateral-direito Phil Neal, o zagueiro Phil Thompson, o meia Ray Wilkins e o meia-atacante Kevin Keegan. Os italianos, por sua vez, haviam sido vice-campeões e terceiros colocados em Mundiais da década (1970 e 1978), e chegavam com uma seleção que misturava a experiência de Dino Zoff, Romeo Benetti, Franco Causio e Roberto Bettega ao auge físico de Claudio Gentile, Gaetano Scirea, Gabriele Oriali, Giancarlo Antognoni, Marco Tardelli e Francesco Graziani. Enzo Bearzot era o técnico.

Como a Bélgica vencera a Espanha no primeiro jogo daquele 15 de junho, a partida realizada em Turim era de vida ou morte: a seleção que saísse derrotada estaria praticamente eliminada. Frente a quase 60 mil torcedores, a Inglaterra conseguiu segurar a pressão da Itália por quase toda a peleja, mas não resistiu a uma movimentação de Graziani, aos 79 minutos. O atacante do Torino caiu pela ponta esquerda, atraindo a marcação, e deixou o espaço aberto para que Tardelli, como de costume, se infiltrasse. Assim, Ciccio efetuou um cruzamento à meia altura e o volante juventino definiu o placar.

O resultado eliminou a Inglaterra e deixou a Itália com chances de ir à final, mas o empate sem gols com a Bélgica deixou os azzurri apenas com a segunda posição do grupo, enquanto os Diabos Vermelhos avançaram à decisão contra a vitoriosa Alemanha Ocidental. A Nazionale perdeu para a Checoslováquia nos pênaltis e foi a quarta colocada.

Baggio deixou Walker no chão e deu início ao triunfo que levou a Itália ao terceiro lugar no Mundial de 1990 (imago/AFLOSPORT)

Copa de 1990

Uma década depois do embate pela Euro, Itália e Inglaterra tornaram a se enfrentar por uma grande competição realizada na Velha Bota, dessa vez na disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo. Nas semifinais, os azzurri haviam caído para a Argentina de Diego Maradona, enquanto os britânicos foram eliminados pela Alemanha Ocidental, de Lothar Matthäus e Jürgen Klinsmann.

De um lado, a Nazionale de Azeglio Vicini fazia uma grande Copa do Mundo, embalada por Walter Zenga, Giuseppe Bergomi, Franco Baresi, Paolo Maldini, Roberto Baggio e Salvatore Schillaci. Do outro, os ingleses, comandados por Bobby Robson, eram menos brilhantes, mas eficientes. Ainda contando com Shilton no elenco, os Three Lions tinham como destaques os meias Bryan Robson, David Platt e Paul Gascoigne, além do ponta Chris Waddle e do goleador Gary Lineker.

Naquele 7 de julho, no San Nicola, a Itália deu continuidade ao caso de amor reacendido com a torcida e encerrou a sua participação no torneio com mais uma noite mágica. A Squadra Azzurra teve uma exibição superior à da adversária e incomodou bastante Shilton, que fez uma importante defesa ante Ciro Ferrara na primeira etapa – a bola também tocou na trave. No segundo tempo, o experiente arqueiro, de 40 anos, cometeu uma falha impressionante: tinha a pelota dominada, porém não percebeu a aproximação de Baggio, que lhe roubou a pelota e, na sequência do lance, ainda deixou Des Walker no chão antes de abrir o placar, aos 71 minutos.

Atrás no marcador, os britânicos tentaram reagir com um chute de longa distância de Neil Webb, mas Zenga estava esperto. O arqueiro só não pode fazer nada quando, aos 81, Platt saltou mais alto do que Baresi e Nicola Berti para, de cabeça, mandar no ângulo. Só que os azzurri estavam determinados a saírem de Bari com a medalha de bronze. E chegaram a ela depois que Baggio arrancou, serviu Schillaci e Walker derrubou o centroavante na área. O próprio Totò converteu o pênalti que definiu o triunfo por 2 a 1 e terminou a competição acumulando a artilharia, com seis gols, e o prêmio de melhor jogador.

Gelo nas veias: cavadinha de Pirlo encaminhou triunfo italiano sobre os ingleses, nos pênaltis (imago/Colorsport)

Euro 2012

Na Ucrânia, italianos e ingleses fizeram um 0 a 0 agradabilíssimo, mas que é lembrado quase que exclusivamente pelo que aconteceu nas cobranças de pênaltis. O jogo foi mais do que isso para a Nazionale: representou a consolidação de uma remodelagem feita por Cesare Prandelli após o fracasso de seus antecessores na Euro 2008 e na Copa de 2010. Foi a primeira vez que os azzurri mostraram, num grande torneio, que o trabalho realizado pelo técnico nas Eliminatórias tinha dado frutos: inspirada pela revolução de Pep Guardiola e seus pupilos, aquela Itália privilegiava a posse de bola e os passes curtos.

Ainda que fosse treinada por Roy Hodgson, a Inglaterra era badalada e contava com uma penca de jogadores em ótimo momento, além de ter John Terry, Steven Gerrard e Wayne Rooney como garantias. Prandelli renovava a seleção e tinha, como nomes mais experientes e consolidados, Gianluigi Buffon, Andrea Barzagli, Andrea Pirlo, Daniele De Rossi e Antonio Cassano – Giorgio Chiellini, com uma lesão na coxa, estava vetado para o duelo.

Pirlo foi o dono do confronto no Olímpico de Kiev. O regista percorreu mais de 15 quilômetros, não cometeu uma falta sequer e, principalmente, efetuou 117 dos 815 passes italianos: foi ele que, quase sempre, acionou as principais jogadas da Itália. Os azzurri acertaram a trave com um lindo chute de De Rossi, viram Mario Balotelli parar algumas vezes em Joe Hart e, já na prorrogação, Riccardo Montolivo perder grande oportunidade na risca da pequena área.

A Inglaterra também assustou, sobretudo na etapa inicial, quando Buffon foi estratosférico ante Glen Johnson, mas, no restante da partida, parou numa segura atuação de Leonardo Bonucci e acabou sucumbindo a erros táticos cometidos por seu treinador, que fizeram a equipe correr “errado” e se cansar antes dos azzurri. Melhor em campo, o time de Prandelli só não matou o jogo porque pecou nas finalizações.

Este pecado chegou a assombrar a Itália nas penalidades, quando Montolivo errou a segunda cobrança e a Inglaterra abriu 2 a 1. Porém, Pirlo estava em campo para ganhar: e o Maestro entrou em ação para mudar o andar da disputa com uma cavadinha ousadíssima, justo quando a Nazionale estava em desvantagem. A confiança mostrada pelo veterano pareceu ter mexido com os britânicos, que viram os seus Ashleys (Young e Cole, futuros jogadores de Inter e Roma, respectivamente) desperdiçarem os chutes seguintes. Os italianos não erraram mais e Alessandro Diamanti fechou a série, levando a Squadra Azzurra, vice-campeã daquela Euro, adiante.

Em Manaus, Balotelli decidiu a favor da Itália (imago)

Copa de 2014

Com os mesmos treinadores e elencos muito similares aos que haviam se enfrentado na Euro 2012, Itália e Inglaterra voltaram a medir forças em 2014, dessa vez no Brasil. No clima úmido e quente de Manaus, capital do Amazonas, os azzurri estrearam com o seu único grande jogo naquela Copa do Mundo, enquanto os britânicos iniciavam o seu percurso vexatório. As duas seleções europeias foram eliminadas no Grupo D, ao passo que a Costa Rica (líder) e o Uruguai avançaram.

Em partida apitada pelo holandês Björn Kuipers, mesmo árbitro da final da Euro 2021, a Nazionale superou a intensidade dos ingleses, teve vantagem na posse de bola, nos passes trocados, na porcentagem de toques certos – 93%, a maior em quase cinco décadas em Copas – e também massacrou nas chances criadas. A primeira oportunidade real até demorou, mas foi efetiva: após cobrança de escanteio para a entrada da área, Pirlo fez um corta-luz magistral e Claudio Marchisio acertou um lindo chute no canto de Hart. Uma desatenção logo após o gol fez com que Rooney achasse Daniel Sturridge livre, desmarcado por Chiellini e Gabriel Paletta, e empatasse.

Maduro, o time de Prandelli não perdeu o controle da partida nem com um gol sofrido num momento em que era dominante. Antes do final do primeiro tempo, quase marcou com uma tentativa por cobertura de Balotelli, que Phil Jagielka cortou em cima da linha, e viu Antonio Candreva acertar a trave. No início da segunda etapa, foi justamente uma jogada entre os dois que decidiu a peleja: cruzamento do então laziale e movimentação perfeita de Super Mario, saindo do encaixe de Jagielka e Gary Cahill para aparecer atrás da zaga e testar para as redes. Dominante, a Squadra Azzurra ainda carimbou o poste numa cobrança de falta fenomenal de Pirlo. Pena, para os italianos, que o seu grande futebol na competição se resumiu àquele duelo.

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