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Em sete anos de Itália, Alen Boksic foi um grande coadjuvante de luxo

A expressão “brasileiros da Europa” é utilizada para alguns povos, como o italiano, pelo estilo caloroso e desorganizado, ou mesmo o irlandês, pela fanfarronice. No futebol, a alcunha é dada para os naturais da antiga Iugoslávia e, mais especificamente para croatas e sérvios, que tratam bem a bola. Um destes bons exemplos de técnica refinada foi Alen Boksic, ex-atacante de Lazio e Juventus.

Nascido no litoral da Croácia, Boksic começou a carreira em um clube de bairro de sua cidade e, quando ainda era juvenil, transferiu-se ao maior clube da região, o Hajduk Split. Em 1987, quando tinha 17 anos, o atacante foi integrado ao elenco profissional do maior time da Dalmátia e, precocemente, começou a mostrar suas habilidades. Muito técnico, ambidestro, finalizador nato e sempre bem posicionado, Boksic fez 174 partidas pela equipe, com 60 gols marcados e dois terceiros lugares da primeira divisão iugoslava conquistados. O atacante ainda fez o gol decisivo para a conquista da última Copa da Iugoslávia pelo Hajduk, em 1991. Meses depois, a Croácia e outras repúblicas se tornariam independentes.

Com o título na bagagem, o atacante assinou com o Cannes e foi para a França. No entanto, um empecilho que iria atrapalhá-lo durante toda sua carreira o atrapalhou: sérias lesões o impediram de entrar em campo mais do que uma vez pelo clube do sul do país. Mesmo assim, o gigante Olympique Marseille o levou para o Vélodrome e o viu explodir.

Com a camisa branca e azul do OM, Boksic marcou 23 gols na campanha do título francês, depois revogado, por causa de corrupção ativa do presidente Bernard Tapie. Além de artilheiro do campeonato local, o croata foi um dos vice-artilheiros da Liga dos Campeões, com seis gols, atrás apenas de Romário, então no PSV. Ou seja, com participação ativa do croata, o Marseille conquistou o maior título de sua história e levantou a “orelhuda”, batendo o Milan na final.

Boksic começou a temporada 1993-94 em Marselha e ainda fez 12 jogos pelos phocéens até dezembro, quando ficou em quarto lugar na Bola de Ouro – atrás de Roberto Baggio, Dennis Bergkamp e Éric Cantona. Naquele momento, os marselheses já sabiam que iriam ser rebaixados por causa da fraude de Tapie e, em crise, acertaram a venda do croata para a Lazio por cerca de 15 bilhões de velhas liras.

O novo reforço disputou 21 partidas e anotou quatro gols em seus primeiros meses em Roma, nos quais montou um belo trio de ataque com Pierluigi Casiraghi e Giuseppe Signori. A Lazio acertou com o técnico Zdenek Zeman para a temporada 1994-95 e o tridente ofensivo continuou em alta, aditivado pelo futebol ultraofensivo do checo.

O grande artilheiro era Signori, enquanto Boksic e Casiraghi eram seus assistentes. O croata, apesar de atuar como centroavante, se notabilizou pelo estilo dinâmico e por uma movimentação que desbaratava defesas. Mesmo não sendo o principal terminal ofensivo laziale, Boksic fez 13 gols em dois anos (nove no primeiro e quatro no segundo), ajudando a Lazio a alcançar o vice-campeonato em 1995 e a terceira posição em 1996. Foram as melhores campanhas dos biancocelesti desde o scudetto, conquistado em 1974.

Croata teve curta passagem pela Juve e não convenceu Marcello Lippi (Getty)

Destaque da Serie A, Alen Boksic seguiu o caminho natural dos melhores jogadores do país e foi vendido à Juventus. O atacante croata conquistou três títulos com a camisa da Velha Senhora – Supercopa Uefa, Mundial Interclubes e Serie A –, além de ter sido vice-campeão da Liga dos Campeões, mas não impressionou o técnico Marcello Lippi. Boksic marcou somente três gols na Serie A, mas foi o artilheiro da Juve na Champions. Assim mesmo, não continuou em Turim para a temporada 1997-98.

Boksic retornou para a Lazio, que viveria nos próximos anos o seu período mais glorioso. Sob o comando do sueco Sven-Göran Eriksson o croata teve sua melhor temporada, em termos de gols marcados: ajudado por Pavel Nedved e Roberto Mancini, ele balançou as redes 10 vezes na Serie A – e anotou alguns golaços, como este contra a Sampdoria. A equipe da Cidade Eterna ficou apenas na sétima posição no Italiano, mas foi finalista da Copa Uefa e venceu a Coppa Italia.

Nos dois anos seguintes a Lazio montou um esquadrão e o time, que já tinha Boksic, Nedved, Mancini e Alessandro Nesta, contratou nos anos seguintes Sinisa Mihajlovic, Dejan Stankovic, Diego Simeone, Juan Sebastián Verón, Marcelo Salas, Christian Vieri, Hernán Crespo, Simone Inzaghi e Claudio López. A concorrência no ataque aumentou, mas Boksic continuou com papel de destaque e foi importante para as conquistas do vice italiano, da Recopa e da Supercopa Europeias, em 1999, e do segundo scudetto celeste, que o time romano levantou em 2000, ano de seu centenário.

Boksic foi feliz em suas duas passagens pela Lazio (Bongarts/Getty)

Após conquistar mais um título italiano, Boksic decidiu deixar a Lazio e, surpreendentemente, assinou com o Middlesbrough, que o adquiriu por cerca de 2,5 milhões de libras esterlinas. O atacante croata teve algumas lesões em sua passagem por Merseyside, mas também marcou muitos gols: em 2000-01 foram 12 na Premier League. Tentos que o fizeram ser eleito o jogador do ano para a torcida do Boro. O croata fez oito gols no ano seguinte, mas voltou a ser vítima de sérias lesões. Até que, em janeiro de 2003, pouco antes de completar 33 anos, entrou em acordo com os smoggies e decidiu se aposentar.

Boksic talvez seja menos reconhecido do que deveria porque não conseguiu brilhar em torneios de seleções. Tudo começou em 1990, quando o atacante chegou a representar a Iugoslávia na Copa do Mundo da Itália, mas não foi utilizado pelo técnico Ivica Osim na competição, preterido por Darko Pancev e Zlatko Vujovic. Logo depois, enquanto vivia um de seus melhores momentos, o jogador não tinha uma seleção para atuar, já que a Croácia estava se separando da república iugoslava e só foi admitida em competições Fifa após a Copa de 1994.

Boksic atuou com os xadrezes na Euro 1996, mas, dois anos depois, ficou de fora do Mundial de 1998, a grande competição da história croata: vivia grande fase e poderia formar uma dupla de ataque fortíssima, ao lado de Davor Suker, mas se machucou outra vez perto do início do torneio e não participou da campanha do terceiro lugar.

O ex-jogador da Lazio e da Juventus só foi estrear em uma Copa do Mundo em 2002, quando tinha 32 anos, mas a Croácia não foi bem. Boksic jogou 40 partidas pela seleção e marcou 10 gols – nenhum deles em Euro ou Copas. De qualquer forma, o eslavo tem garantido para si o posto na lista dos melhores atacantes da década de 1990.

Veja todos os gols de Alen Boksic na Serie A.

Alen Boksic
Nascimento: 21 de janeiro de 1970, em Makarska, Iugoslávia (atual Croácia)
Posição: atacante
Clubes como jogador: Hajduk Split (1987-91), Cannes (1991-92), Marseille (1992-93), Lazio (1993-96 e 1997-2000), Juventus (1996-97) e Middlesbrough (2000-03)
Títulos: Liga dos Campeões (1993), Mundial Interclubes (1996), Supercopa Uefa (1996 e 1999), Recopa Uefa (1999), Serie A (1997 e 2000), Coppa Italia (1998 e 2000) e Copa da Iugoslávia (1991)
Seleção iugoslava + croata: 40 jogos e 10 gols

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