Brasileiros no calcio

De Eriberto a Luciano: um gato brasileiro na Serie A

O ano é 1995. No Rio de Janeiro, um jovem órfão de 19 anos dependia do sustento da irmã e do cunhado para sobreviver e já se sentia como um fardo para o humilde e recém-formado casal. Precisava trabalhar para sobreviver, era bom de bola e seu sonho era ser jogador de futebol, mas que clube o aceitaria, com a idade que tinha? Foi aí que um olheiro, professor de uma escolinha de futebol, apareceu em sua vida com a solução.

O olheiro, Reninson Gomes Barreto Filho, visitou a família de Eriberto Conceição da Silva, garoto de 16 anos que também tentava ser jogador de futebol. Garantiu a seus pais que conseguiria vagas em peneiras de grandes times brasileiros, mas que para isto, precisaria de autorização e da certidão de nascimento do adolescente. Após obter a documentação, a saída para os problemas de Luciano Siqueira de Oliveira, o nosso órfão de 19 anos, estava concretizada: seduzido pelo olheiro e precisando mudar de vida, Luciano aceitou mudar também de identidade. A partir da certidão obtida, tirou documentos falsos (RG, CPF, título de eleitor e passaporte) e se transformou em Eriberto, três anos mais novo. Sob a tutela de Reninson, participaria de peneiras Brasil afora e, se não fosse aceito, tentaria se sustentar de outra forma.

O novo Eriberto surgiu para o mundo em abril de 1996, quando todas as falsificações foram concluídas. A solução proposta pelo olheiro acabara por dar resultados: o meia-atacante passou em uma peneira do Palmeiras e, a partir de 1997, foi aproveitado na equipe principal por Luiz Felipe Scolari. Eriberto participou do vice-campeonato brasileiro naquele ano e foi ganhando espaço, a ponto de marcar cinco vezes no Brasileirão de 1998 e de participar da campanha do título da Copa do Brasil – sem falar nas convocações para a seleção sub-20 canarinho, com a qual disputaria o Sul-Americano da categoria, em 1999. Com destaque, foi vendido ao Bologna pelo equivalente a cinco bilhões de velhas liras.

Os primeiros momentos de Eriberto na Itália não foram tão positivos quanto no Palmeiras: o meia ficou conhecido por jogadas de velocidade e destreza, mas que não apresentavam consistência. Além da irregularidade em campo, viveu rodeado por polêmicas fora dos gramados – foi pego dirigindo alcoolizado algumas vezes, por exemplo. Ainda assim, o brasileiro fez 54 partidas em duas temporadas pelos bolonheses e marcou quatro gols – um deles, contra o Venezia, após uma arrancada de 70 metros.

Naquela época, o Bologna tinha um bom elenco e, através do título da Copa Intertoto, chegou a se classificar à Copa Uefa. Eriberto, porém, contribuía pouco: o meia-atacante chegou a ter bons companheiros, como Francesco Antonioli, Gianluca Pagliuca, Giancarlo Marocchi, Carlo Nervo, Klas Ingesson, Giuseppe Signori, Kennet Andersson, Igor Kolyvanov e o compatriota Zé Elias, mas não teve atuações boas o suficiente para convencer técnico e diretoria de que merecia mais espaço. Com isso, foi vendido ao Chievo por 2 bilhões de liras. Um passo para trás para o jogador, pois os clivensi nunca tinham disputado a Serie A e estavam na segunda divisão.

Em Verona, tudo começou a mudar. Eriberto foi alçado à condição de titular absoluto do 4-4-2 de Luigi Delneri e estreou marcando o gol da vitória dos gialloblù sobre o tradicional Genoa. Enquanto o brasileiro era vital pelo lado direito do setor e atacava com velocidade e cruzamentos certeiros para o centroavante Bernardo Corradi, o colega marfinense Christian Manfredini fazia o mesmo na ponta esquerda – a dupla acabou sendo conhecida como “freccie nere” ou “os flechas negras”. Com esta fórmula, o Chievo garantiu o acesso à Serie A e fez história. Mas não parou por aí.

Em 2001-02, o time veronês estreou na elite aplicando um 2 a 0 sobre a Fiorentina, então campeã da Coppa Italia, em Florença. A surpreendente vitória foi uma metáfora para toda a temporada, pois os comandados de Delneri formaram o time apelidado de “Chievo dos milagres”: com participação ativa de Eriberto (30 partidas e quatro gols), a equipe ficou com a quinta posição no campeonato e uma vaga na Copa Uefa. Inimaginável, até então. Com dinheiro no bolso e notoriedade esportiva, Eriberto tinha recebido uma rica proposta da Lazio (campeã italiana dois anos antes), mas não estava feliz: o incomodava viver como se fosse outra pessoa. Atormentado e com a consciência pesada, vivia crises de identidade e queria que seu filho Felipe, de 2 anos, pudesse saber quem de fato ele era.

Após se libertar da mentira, Luciano encontrou a felicidade em Verona (Skysports)

Então, durante as negociações com a Lazio, Eriberto decidiu, com o apoio da esposa, Raquel, contar a verdade: era gato. “Quanto mais o tempo passava, mais eu me fazia perguntas. Preferi tomar coragem e ser sincero, pois não conseguia mais lidar com o peso da mentira”, declarou, ao Goal, em 2014. A confissão era mais um escândalo no registro de jogadores da Serie A – naquela mesma época, Milan e Inter foram condenados por adulterar dados nos passaportes de alguns jogadores – e teve consequências imediatas, no Brasil e na Itália. Em meio a todo o caos, o presidente do Chievo, Luca Campedelli, e o procurador de Luciano, Pedrinho Vicençote (ex-meia de Palmeiras, Vasco e Catania) deram apoio total ao atleta.

Luciano foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a indenizar o verdadeiro Eriberto em 100 mil reais, pois, por causa da fraude, ele viveu seis anos enfrentando constrangimentos diante das acusações de uso de documentos falsos. A Federação Italiana de Futebol – FIGC multou o jogador em 160 mil euros e o suspendeu das atividades esportivas por um ano. A admissão de culpa e a confissão espontânea foram consideradas atenuantes, após recurso, e sua pena foi reduzida para seis meses de gancho. A ida para a Lazio melou, mas Luciano havia tirado um peso das costas.

Após a suspensão, Luciano voltou a jogar pelo Chievo e ajudou a equipe a ser sétima colocada do Italiano na temporada 2002-03. Com quase 28 anos, em plena maturidade física, viu que as portas para o estrelato ainda estavam abertas para ele. O brasileiro recebeu uma proposta da Inter, que o contratou por empréstimo e lhe deu a camisa 11, utilizada por uma lenda que atuava na mesma função em campo, o ponta Mario Corso. Luciano, no entanto, passou longe de ser até mesmo o Eriberto dos tempos de Chievo e nem engraxou as chuteiras de Mariolino: após seis meses e sete jogos pelos nerazzurri, foi devolvido à equipe de Verona.

Na volta ao estádio Marcantonio Bentegodi, Luciano recuperou a boa forma e foi se estabelecendo como um dos pilares de um time que, ano após ano, protagonizava campanhas surpreendentes na Serie A – nenhuma tão boa quanto a de estreia, mas com resultados significativos. Em 2006-07, os clivensi chegaram a se beneficiar da penalização imposta a equipes envolvidas no Calciopoli e, com o quarto lugar conquistado pós-tapetão, pode estrear na Liga dos Campeões. No entanto, foram eliminados pelo Braga na última fase preliminar e tiveram de disputar a Copa Uefa. A mesma temporada acabou mal para os gialloblù, que foram rebaixados para a Serie B pela única vez desde que estrearam na elite.

Luciano permaneceu em Verona e foi um dos artífices do retorno imediato para a Serie A, obtido com o título da segundona – o único troféu da história do Chievo. O brasileiro, que vestiu as camisas número 15, 5 e 10 dos Burros Alados ao longo de 13 anos no clube, permaneceu no elenco até 2013, quando seu contrato se encerrou. Aos 37 anos, acertou com o Mantova, da quarta divisão, mas atuou somente em seis partidas, jogando mal, e teve o contrato rescindido. Foi a deixa para anunciar a aposentadoria e ir morar em Florianópolis, cidade em que é dono de um flat.

Até hoje, Luciano, ex-Eriberto, é um dos grandes nomes da história do Chievo. Durante mais de uma década de casa, defendeu os gialloblù em 316 partidas, tornando-se o sexto jogador com mais aparições da história do clube. O crime certamente não compensa e o carioca pode se orgulhar de ter percebido que escolhera o caminho errado para trilhar: recebeu da vida uma rara segunda chance e construiu uma bela trajetória, com um final feliz.

Luciano Siqueira de Oliveira
Nascimento: 3 de dezembro de 1975, no Rio de Janeiro
Posição: meia-atacante
Clubes em que atuou: Palmeiras (1997-98), Bologna (1998-2000), Chievo (2000-03 e 2004-13), Inter (2003-04) e Mantova (2013)

Títulos: Copa do Brasil (1998), Copa Intertoto (1998) e Serie B (2008)

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