Serie A

No clássico, mais do que tomar a liderança, Juventus celebrou vitória tática sobre a Inter



Com direito a recorde de público e arrecadação da temporada, as invictas Inter e Juventus se enfrentaram no Derby d’Italia mais importante dos últimos anos. A partida não decepcionou aqueles que compareceram ao Giuseppe Meazza ou a assistiram de outras formas. Nerazzurri e bianconeri realizaram um jogão, cheio de nuances táticas.

Mesmo que tenha sido um confronto válido apenas pela sétima rodada do campeonato, o clássico tinha uma aura de decisão muito grande. Não em termos de resultado final, mas sim como um termômetro que nos permitiria avaliar em qual estágio está o projeto interista de Antonio Conte e tirar algumas conclusões sobre a equipe nerazzurra – por exemplo, se teria fôlego para desafiar mesmo a Juventus pelo scudetto.

Conte escalou a Inter no 3-5-2 de sempre, com D’Ambrosio titular pela ala direita e Lukaku retornando ao time titular para formar a dupla de ataque com Martínez. Sarri, por sua vez, manteve o 4-3-1-2 com o qual vem trabalhando nos últimos duelos e optou novamente por Bernardeschi como homem que joga atrás da dupla de ataque, deixando Ramsey no banco. Higuaín também não começou jogando: Dybala foi o escolhido para atuar ao lado de Ronaldo.

Antes mesmo que fosse possível observar padrões e retificar impressões do pré-jogo, a Juventus chegou ao gol, com Dybala. D’Ambrosio tentou um passe para o centro do campo, com a perna esquerda, e entregou a bola para Pjanic. O meio-campista da Juventus observou Godín adiantado, já que a Inter estava subindo para atacar, e – num toque de primeira – achou Dybala no mano a mano contra Skriniar. O argentino avançou e finalizou cruzado para vencer Handanovic e marcar o primeiro gol da partida.

Os minutos seguintes ao gol foram de bastante superioridade da Juventus. Bernardeschi trabalhava um encaixe individual sobre Brozovic, para atrapalhar a saída de bola da Inter. Atrelada aos movimentos do camisa 33, toda a equipe da Vecchia Signora subia suas linhas e pressionava em campo ofensivo. Dessa maneira, o time de Sarri recuperou a posse em muitas oportunidades e começou sua construção ofensiva próxima da meta rival.

Uma vez que tinham a bola em seu controle, os jogadores da Juventus buscavam tabelar, com toques rápidos e curtos. Pjanic era o organizador central e oferecia muito peso à articulação no corredor esquerdo, enquanto Matuidi saía do centro do campo para ocupar a ala canhota. Por último, Alex Sandro atacava uma zona mais central e Ronaldo buscava os desmarques. Foi desta maneira que o português recebeu nas costas de Godín e carregou a bola até a entrada da área, antes de finalizar no travessão.

Os movimentos estavam bastante encaixados e favoráveis à Juventus. Com Brozovic sofrendo para organizar a saída de bola, sem estabelecer jogo direto com Lautaro ou Lukaku, e com Godín sofrendo muito para encontrar um encaixe ideal em sua altura dentro do campo, os nerazzurri foram largamente superados durante os 15 minutos iniciais. Entretanto, o futebol é um esporte muito dinâmico e um lance pode mudar completamente o roteiro de uma partida inteira.

Foi o que aconteceu quando De Ligt tentou cortar um cruzamento que buscava Lautaro e colocou o braço na bola. Pênalti para Inter, e o próprio Martínez cobrou para empatar a partida. Toda a dificuldade que a Inter vivia mudou de lado.

Bernardeschi perdeu um pouco do ímpeto ao pressionar Brozovic, o jogo da Juventus perdeu encaixe e Sensi encontrou um espaço para chamar de seu dentro do gramado. Como Cuadrado estava preocupado em marcar posição e Khedira atuava como um homem utilizado por Sarri para pressionar em campo contrário, o meia da Inter passou a atacar as costas de Pjanic pelo lado esquerdo, o que fez com que as ideias dos comandados de Conte encaixasse. Toda a produção ofensiva da Inter cresceu, Lautaro passou a receber a bola no mano a mano contra De Ligt e venceu grande parte dos duelos.

Dessa maneira a Inter empurrou a Juventus para seu campo defensivo, articulou melhor sua construção e jogou melhor durante 15 minutos. O problema para os nerazzurri foi que, aos 35 minutos, Sensi sentiu uma lesão e teve que ser substituído. Vecino foi ao campo de jogo e todo o desenho da Inter teve que ser modificado. Barella passou ao lado esquerdo, buscando manter o trabalho que Sensi realizava e Vecino se tornou uma peça de maior suporte na contra-pressão que a Beneamata buscou realizar.

Acontece que Barella não tem a mesma capacidade de Sensi para atacar a entrelinha rival – é melhor pressionando, roubando a bola e organizando o jogo desde uma zona mais recuada. Com Vecino atuando na direita, Matuidi voltou a tomar conta da partida, encontrou espaços nas costas de Godín e contou com um excelente suporte de Ronaldo, em termos de apoios e construção ofensiva. Assim, a Juventus cresceu e criou o suficiente para virar a partida. Inclusive chegou a virar, numa linda jogada que terminou com Dybala rolando para Ronaldo marcar. Contudo, o argentino estava impedido e o gol foi anulado.

Na volta do intervalo, a Juventus manteve o seu momento de superioridade, recuperado após a lesão de Sensi, e empurrou a Inter para jogar em 30 metros do campo, impedindo uma saída de bola mais elaborada dos donos da casa e levando muito perigo a meta de Handanovic. Percebendo toda a dificuldade de Godín para encontrar um posicionamento ideal, Conte trocou o uruguaio por Bastoni, passando Skriniar para lado direito e apostando na maior potência física do eslovaco para lidar com Matuidi e Ronaldo.

Aos 62, Sarri trocou Khedira por Bentancur e Bernardeschi por Higuaín. Com essas duas trocas, tivemos em campo um trio de muita qualidade ofensiva e que a torcida da Juventus tanto quer ver jogar: Dybala como organizador e Higuaín formando a dupla de ataque com Cristiano Ronaldo.

Não precisamos falar do quão talentoso é Dybala – que mostrou sua qualidade mais uma vez no clássico. Todavia, o argentino não possui atributos físicos para pressionar a saída de bola rival. Com isso, embora a troca de Sarri tenha buscado aumentar o poder de fogo da equipe, o efeito acabou sendo o inverso. Sem a presença de Bernardeschi para lhe incomodar, Brozovic passou a realizar uma saída de bola mais limpa e a Inter igualou o jogo – até tomou o controle para si, por alguns minutos. Sarri percebeu o problema e tratou de corrigi-lo, depois de 10 minutos. Can entrou no lugar de Dybala e Bentancur foi adiantado para realizar o encaixe sobre Brozovic.

O jogo ficou aberto nos minutos posteriores e Vecino teve duas boas oportunidades de marcar. Na primeira, finalizou de média distância, viu a bola desviar em Bonucci e raspar a trave esquerda. Depois, o volante da Inter recebeu bom passe de Brozovic, saiu frente a frente com Szczesny, mas não teve qualidade no toque final.

Conte tentou uma última cartada para buscar a vitória e substituiu Martínez por Politano. Ainda que tenha buscado fortalecer a capacidade de contra-ataque de sua equipe, Lautaro fazia um jogo melhor que Lukaku e a troca acabou sendo um tanto esquisita. Apenas dois minutos depois, a Juventus chegou ao gol da vitória. A jogada teve uma linda construção, que envolveu Pjanic, Cristiano Ronaldo e Bentancur. Depois, Higuaín recebeu a pelota e a colocou no fundo da rede.

Com a vitória, a Juventus se mantém invicta, toma a liderança do campeonato e mostra que continua sendo a equipe a ser batida na Serie A. Já a Inter, assim como aconteceu diante do Barcelona, passou algumas boas sensações. Tem um trabalho tático muito bem feito, mas ainda faltam ajustes que decidem partidas. Ademais, há reservas que não conseguem manter o mesmo nível e oferecer a mesma proposta que alguns titulares, como a substituição de Sensi por Vecino evidenciou.



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