Jogadores

O italiano Lorenzo Amoruso se tornou o primeiro capitão católico da história do Rangers

Celtic e Rangers travam uma das maiores rivalidades futebolísticas do mundo, que reúne componentes que vão bem além das quatro linhas. O principal deles é a disputa religiosa em torno das agremiações. O Celtic tem sua base assentada no catolicismo, enquanto o Rangers adotou o protestantismo justamente como uma oposição ao rival. Muitos jogadores já foram podados por torcedores devido a essa tensão religiosa, mas, no fim dos anos 1990, o italiano Lorenzo Amoruso rompeu barreiras ao se tornar o primeiro capitão católico da história do Rangers.

Natural de Bari, Amoruso descobriu o gosto pelo futebol desde cedo, de modo que passava horas correndo atrás da bola. O garoto, que contava com o incentivo do pai, começou a atuar pelo Palese antes de integrar as categorias de base do Bari. Em 1988, aos 17 anos, o zagueiro fez sua estreia pelo profissional dos biancorossi. Somando jogos por Serie B e Coppa Italia, ele entrou em campo sete vezes na temporada 1988-89.

A serviço do Bari, Amoruso foi campeão da Copa Mitropa em 1990, mas não encontrou muito espaço nos anos seguintes. Jogou poucas vezes em duas edições da Serie A, o que fez os galletti lhe emprestarem para Mantova (1991-92) e Vis Pesaro (1992-93). Nesse meio-tempo, o jogador disputou duas partidas pela seleção italiana sub-21, sendo suas únicas vestindo a camisa azzurra da Itália.

Com mais experiência na bagagem, o defensor retornou ao Bari em 1993 e se tornou titular indiscutível do time. Ajudou na ascensão da equipe para a Serie A, em 1994, e se destacou por sua vocação ofensiva: em duas temporadas, marcou sete gols. Após colaborar para a permanência do Bari na elite, Amoruso despertou o interesse da Fiorentina, que o comprou por 5,4 bilhões de velhas liras no verão europeu de 1995.

Em dois anos como titular do Bari, Amoruso contribuiu para boas campanhas do clube (Panini)

Logo em sua primeira temporada na Viola, Lorenzo ganhou a titularidade e foi campeão da Coppa Italia. Com o artilheiro Gabriel Batistuta on fire, o time de Claudio Ranieri obteve 100% de aproveitamento no torneio e levou a taça para Florença. Na finalíssima, Amoruso marcou um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre a Atalanta, em Bérgamo.

Se a temporada 1995-96 terminou com título para a Fiorentina, a época seguinte começou da mesma maneira. Em pleno San Siro, a Viola bateu o Milan, com uma doppietta de Batistuta, e venceu a Supercopa Italiana. Foi a primeira vez que o time que conquistara o scudetto na temporada anterior não levou o troféu da competição. Ao fim daquela temporada, ele deixou a Fiorentina, tendo disputado 72 jogos e marcado quatro gols.

Amoruso, que era capitão da esquadra viola, estava em evidência no mercado. O Manchester United tentou comprá-lo, mas foi o Rangers, em maio de 1997, que fechou a contratação junto ao clube de Florença. Os valores giraram em torno de 4 ou 5 milhões de libras.

Em Ibrox, o apuliano encontrou outros compatriotas que o ajudaram a se adaptar à nova casa: o lateral-direito Sergio Porrini, os meio-campistas Gennaro Gattuso e Luigi Riccio, e o atacante Marco Negri. O grupo também contava com velhos conhecidos dos italianos, como Paul Gascoigne, ex-Lazio, e Brian Laudrup, ex-Fiorentina e Milan.

Pela Fiorentina, Amoruso marca gol decisivo contra a Atalanta (Ansa)

A primeira temporada de Amo pelo time de Ibrox não foi das melhores, uma vez que passou seus primeiros dez meses em Glasgow parado devido a uma lesão no tendão de Aquiles. No entanto, em 1998, a diretoria do Rangers trocou o técnico Walter Smith pelo holandês Dick Advocaat, que promoveu o italiano à capitania da equipe. A notícia ganhou destaque, já que o Rangers nunca havia tido um capitão católico em sua história.

Na virada do século, o Rangers afrouxou as suas normas internas e permitiu que mais jogadores católicos, como Neil McCann e Gabriel Amato, integrassem o plantel. Apesar disso, o fato de o defensor italiano ter se tornado capitão dos Teddy Bears era algo ainda mais notável àquela época.

“A minha tarefa não era simples”, admitiu Amo, ao site do jornalista Gianluca Di Marzio, em 2016. “Eu tive que substituir o capitão histórico deles, Richard Gough, que conquistou mais troféus e que foi talvez o jogador mais importante da história do Rangers junto ao John Greig (…)”, acrescentou.

A pressão da torcida para cima de Amoruso aumentou após o atleta pegar a braçadeira. Em alguns jogos em que cometeu falhas, o zagueiro chegou a ser vaiado pelos torcedores dos Teddy Bears. Além disso, a trajetória de Lorenzo pela Escócia poderia ter sido interrompida em 1999, visto que ele bateu de frente com Advocaat várias vezes. O comandante, inclusive, contratou dois substitutos para o italiano: Bert Konterman e Paul Ritchie. Ambos, contudo, não convenceram de imediato, e Amoruso, que estava na mira do Sunderland, acabou permanecendo em Ibrox.

Amoruso em ação no Old Firm, já como capitão (Allsport)

Embora fosse capitão do Rangers, Lorenzo deu um péssimo exemplo para o mundo do futebol em dezembro de 1999. Ele cometeu racismo contra o atacante Victor Ikpeba, do Borussia Dortmund, durante jogo válido pela Copa Uefa. O italiano negou que tenha dirigido ofensas racistas ao nigeriano, mas imagens de TV o entregaram. Com isso, foi obrigado a pedir desculpas ao atacante do time alemão. Segundo matéria da BBC, atos de racismos aumentaram entre torcedores do Rangers, em apoio ao crime cometido por Amoruso.

As polêmicas envolvendo Lorenzo não param por aí. Em novembro de 2000, o zagueiro perdeu a faixa de capitão da equipe. O comandante Advocaat passou a braçadeira ao jovem Barry Ferguson, de 22 anos, muito em função dos erros que Amoruso cometera no empate em 2 a 2 com o Monaco, pela última rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões – o resultado impediu que os Teddy Bears avançassem à etapa seguinte da competição.

As coisas mudaram para Amoruso quando Advocaat foi demitido, em 2002. Sob o comando de Alex McLeish, o italiano reencontrou o bom futebol e conquistou prêmios individuais, com destaque para o Jogador do Ano, em 2002, concedido pela Associação Profissional de Futebolistas da Escócia ao melhor atleta do campeonato escocês.

A temporada 2002-03 foi a última de Amo em Ibrox. Antes de dar adeus à torcida, entretanto, o jogador se envolveu em mais uma polêmica. Em março de 2003, o zagueiro pegou um gancho de quatro partidas por cuspir no atacante James Grady durante um jogo contra o Ayr United. Amoruso voltou à ativa apenas para disputar sua última partida, diante do Dundee, valendo o título da Copa da Escócia. Ele marcou o gol da vitória magra, 1 a 0, e foi às lágrimas ao sair de campo.

Antes de se aposentar, Amoruso teve passagem esquecível pelo Blackburn, da Inglaterra (Getty)

Em seis anos defendendo o time de Glasgow, Amoruso ganhou nove troféus e foi alçado ao status de ídolo. O apuliano, aliás, é uma das maiores bandeiras católicas do Rangers, juntamente ao holandês Fernando Ricksen, que, curiosamente, virou ortodoxo depois de deixar a agremiação escocesa. “Eu percebo a importância de ter sido o primeiro capitão católico do time toda vez que volto para Glasgow e vejo o amor que os fãs mostram para mim. Fui capitão do Rangers e estou na história deste grande clube. Isso é especial”, destacou.

O zagueiro deixou o Rangers – atolado em dívidas financeiras – no verão europeu de 2003 para se aventurar em outra praça da Grã-Bretanha, a Inglaterra. O Blackburn Rovers desembolsou 1,4 milhão de libras para tê-lo à disposição na Premier League. Entretanto, assim como ocorreu na Escócia, o início da jornada do jogador em Ewood Park foi árduo.

Embora tenha balançado as redes em seu jogo de estreia, Amoruso sofreu uma lesão no joelho que o manteve encostado por cinco meses. O defensor concluiu sua primeira temporada no Blackburn com apenas 11 jogos na liga inglesa. O desempenho do atleta caiu ainda mais nos anos seguintes – muito em função das recorrentes contusões –, e, no verão europeu de 2006, o italiano findou sua passagem pela Inglaterra. Fez apenas 20 partidas em três temporadas pelos Rovers.

Aparentemente, o jogador havia pendurado as chuteiras, mas, em 2008, topou o desafio de jogar pelo Cosmos, equipe de San Marino. A experiência foi breve, e não demorou muito para Amo retornar à aposentadoria. Ele encerrou a carreira com 49 tentos – marca expressiva para um zagueiro. “Para um defensor nunca é fácil fazer tantos gols”, disse.

Após abandonar os gramados, Amoruso se mudou para Florença, cidade que ama desde os 14 anos, e virou comentarista esportivo, analisando jogos para diversas emissoras televisivas da Itália. Em 2010, foi anunciado como coordenador de olheiros do time principal da Fiorentina. Deixou o cargo quase dois anos depois.

Em 2016, conduziu o talk-show Squadre da incubo, do canal TV8, ao lado do ex-atacante Gianluca Vialli. Dois anos mais tarde, o ex-zagueiro se aventurou como cozinheiro, fazendo parte da segunda temporada do Celebrity MasterChef, programa transmitido pela Sky 1.

Lorenzo Pier Paolo Amoruso
Nascimento: 28 de junho de 1971, em Bari, Itália
Posição: zagueiro
Clubes: Bari (1988-91 e 1993-95), Mantova (1991-92), Vis Pesaro (1992-93), Fiorentina (1995-97), Rangers (1997-03), Blackburn (2003-06) e Cosmos (2008)
Títulos: Copa Mitropa (1990), Coppa Italia (1996), Supercopa Italiana (1996), Campeonato Escocês (1999, 2000 e 2003), Copa da Escócia (1999, 2000, 2002 e 2003) e Copa da Liga Escocesa (1999, 2002 e 2003)

Deixe um comentário