Técnicos

Oronzo Pugliese, o técnico do ‘povão’ que inspirou filme cult

Boa parte das histórias que contamos aqui na Calciopédia têm como protagonistas jogadores e treinadores que tiveram uma grande carreira no mundo do futebol e, de quebra, inspiraram ótimas narrativas também em suas vidas privadas. Mas poucas vezes tivemos a oportunidade de relembrar a biografia de um personagem que conseguiu ser sincero e franco a ponto de fazer com que sua persona pública e a privada fossem uma coisa só. Oronzo Pugliese é uma dessas raras figuras.

Como seu sobrenome antecipa, Pugliese nasceu na Apúlia – mais exatamente na cidade de Turi, a cerca de 30 quilômetros de Bari. Oronzo cresceu em uma numerosa família de agricultores, com pouco dinheiro e bastante humilde. Ajudando seu pai no vinhedo, junto de seus irmãos, sempre gostou de jogar futebol, mas não havia ao menos um campo de futebol decente em sua cidade. Assim, aos 16 anos, saiu de casa para entrar nas divisões de base de times semiprofissionais em Bari.

Os parcos registros do início do século passado não nos permitem ter detalhes, mas se sabe que Oronzo começou a jogar na década de 1920 e passou por alguns pequenos clubes do sul – Gioia del Colle, Casamassima e Molfetta – até chegar ao Frosinone, em 1934. Atuando não apenas como defensor, mas também em outras posições, Pugliese passou por Montevarchi, Potenza e Popoli, até chegar ao Siracusa, time da Sicília que defendeu por sete anos e ajudou a levar até a fase final da Serie C de 1941.

No final de sua trajetória dentro do campo, em 1939, a Leonzio – então uma equipe semiprofissional da região – lhe propôs a posição de técnico, com a curiosa remuneração na forma de cestas de laranjas sicilianas. A antecipada experiência se mostrou empolgante para o jogador e, como veremos adiante, muito mais proveitosa. A transição foi feita de maneira contínua, até 1947, quando acabou a apagada carreira de Pugliese nos gramados. Na época, ele estava no Messina e também já tinha o dever de ser técnico do time.

Em 1950, Oronzo conseguiu promover o Messina para a Serie B, mas depois disso teve uma sequência difícil. Ao deixar o clube biancoscudato, Pugliese passou por vários times da terceira e da quarta divisões durante a década – incluindo Benevento e Reggina, que não tinham expressão naqueles tempos. Em 1959, ele reencontrou a boa forma no Siena e no Siracusa: dois anos depois, rumou ao Foggia.

Oronzo teve sucesso ao levar o Foggia à elite e também foi querido pelos torcedores da Roma (Foggia Sport 24)

Em sua região, Pugliese conseguiu grandes resultados coletivos e individuais. Em seu primeiro ano, levou o Foggia para a Serie B; dois anos depois, para a elite, e, em 1964-65, ganhou o prêmio de melhor treinador do ano na Itália. Oronzo faturou o prestigiado Seminatore d’Oro pelo conjunto da obra. E que obra: além dos feitos anteriores, o apuliano conduziu o recém-promovido Foggia a uma surpreendente nona colocação na Serie A.

A Itália é um país com fortes sentimentos regionais – e eles estão localizados, principalmente, no norte e do sul. Com o crescimento econômico dos anos 1950, o chamado campanilismo se acirrou e a rivalidade acabou gerando um esgarçamento no tecido social italiano. Os nortistas são vistos como esnobes por alguns sulistas e os meridionais, por outro lado, considerados como preguiçosos por alguns setentrionais. Pugliese acabou vivendo um episódio relacionado a esse antagonismo, ainda que numa situação inofensiva.

Em 31 de janeiro de 1965, ocorreu um dos mais divertidos e comentados embates no futebol italiano. A famosa Inter do “mago” Helenio Herrera, campeã nacional e continental, foi jogar contra o aparentemente frágil Foggia de Oronzo Pugliese, naquela época já conhecido por seu jeito excêntrico. O apuliano resolveu surpreender a todos e aplicou uma marcação homem a homem fortíssima e investiu no contragolpe, ganhando a eletrizante partida por 3 a 2. Depois do embate, foi perguntado sobre como se sentia após ter vencido a famosa psicologia de Herrera, e sua resposta foi sintomática. “A psicologia é coisa de rico, a determinação é coisa de pobre”, disparou.

Naquele momento, Oronzo já era reconhecido nacionalmente como o folclórico Mago de Turi. Ao fim da temporada, o técnico foi para a capital treinar os giallorossi, onde teve sua grande chance para subir de degrau. Em três temporadas na Roma, Oronzo não conseguiu grandes resultados na tabela, esperados pela diretoria, mas não deixou de fazer história na Cidade Eterna. Nas vestes aurirrubras, seus dois primeiros confrontos contra a Inter de Herrera lhe renderam uma vitória e um empate, que aumentaram ainda mais a aura que pairava sobre ele. Triunfante, o apuliano se saiu com mais uma frase de efeito: “eu não sou o Herrera do sul, ele que é o Pugliese do norte”.

Nos anos consecutivos, Pugliese recusou uma oferta para treinar o Milan, ganhou a idolatria da torcida romanista e comprou o jovem Fabio Capello junto à Spal, mas teve seu contrato rompido em 1968, um ano antes de seu término. Em um momento digno de um episódio de Seinfeld, obviamente o sucessor escolhido pela diretoria foi Helenio Herrera, o Mago “original”.

Pugliese observa o prêmio Seminatore d’Oro, que era concedido ao melhor treinador italiano (Rivista Contrasti)

Depois de uma breve passagem como coordenador técnico do Bologna, Pugliese assumiu o Bari, que acabara de subir para a Serie A, assim como o Foggia, poucos anos antes. E para abrir a temporada em mais um regresso à sua região, o destino lhe reservou o confronto entre Bari e Roma. Nessa mistura de Davi e Golias com a Lenda de Aquiles, vitória de 1 a 0 para Oronzo: mais uma vez, Herrera saía derrotado.

Em março de 1970, Pugliese foi demitido – foi única vez em sua carreira que isto lhe ocorreu no meio da temporada. Depois do revés em Bari, Oronzo não conseguiu emplacar mais nenhum trabalho de sucesso. O veterano teve passagens por Fiorentina, Bologna, Lucchese, Avellino, Termoli e Crotone, todos com o intuito de “apagar incêndios”, entrando com a temporada já iniciada e lutando para evitar rebaixamentos.

Durante a carreira, conforme foi ganhando fama e envelhecendo, Pugliese foi se tornando cada vez mais folclórico – razão principal pela qual é lembrado até os dias de hoje. Compreensivo, mas enérgico, nunca se esqueceu de onde veio, do que significa crescer no interior da província, então sempre agiu como um interiorano. Fazia uso de provérbios e gírias da Apúlia para dar entrevistas e se dirigir aos seus jogadores, jamais deixando de lado sua originalidade.

Dentre as várias situações lembradas até hoje, algumas se destacaram e continuam na boca do povo italiano: segundo o próprio, se relacionava com os jogadores na base do “você está aí, cá estou; você me pede algo e eu não te dou”. Capaz de preleções instigantes, Oronzo tratava os seus como “afilhados”. Reza a lenda que, em uma viagem do Foggia, enquanto tentava espiar o quarto dos atletas para vigiá-los durante a madrugada, um deles saiu intempestivamente e viu a cena de seu treinador deitado no corredor do hotel. Perguntado sobre o que estaria fazendo, Pugliese respondeu que estava fazendo um pouquinho de flexão.

Na beira dos gramados, Oronzo corria pela linha lateral, gritava com os jogadores dos dois times e agia de modo ardente, algo totalmente incomum para aquela época. Antes das partidas – segundo ele, como um bom homem do sul – espalhava sal ao lado do banco de reservas e atrás de ambos os gols, na intenção de espantar o mau olhado. Sementes de azeitona esmagadas também eram espalhadas quando seus times jogavam em casa. Como Pugliese treinou times do sul na maior parte de sua carreira, o calor era um fator importante nesse processo. Somado com o cheiro dos frutos das oliveiras, criava o ambiente que o técnico queria, com o objetivo de – palavras dele – “atordoá-los [os adversários] com o calor e o fedor”.

Pugliese orienta Fabio Enzo, atacante da Roma (ASR Talenti)

Tamanha extravagância foi eternizada nos cinemas, com o filme “L’allenatore nel pallone”, uma ótima comédia de 1984 do famosíssimo comediante apuliano Lino Banfi – que chegou a ganhar sequência em 2008, tamanho o sucesso. O protagonista, chamado Oronzo Canà, é chamado para treinar um time recém-promovido para a Serie A. Inspirado em Pugliese, o treinador fictício tem frases de efeito, faz mandingas antes do jogo e é constantemente repreendido pelos árbitros, pelo seu gestual.

Durante parte do filme, o técnico vai atrás da contratação de algum craque brasileiro da Seleção de 1982. Júnior, Éder, Sócrates e Zico foram sondados, mas Canà consegue trazer apenas Aristóteles, um jogador encontrado nas ruas do Rio de Janeiro por ele próprio. Ari também é “de mentirinha” e foi interpretado pelo modelo e ator suíço Urs Althaus, que chegou a ser futebolista semiprofissional.

O filme é um clássico. A obra é adorada pelos amantes do futebol na Itália, principalmente por ser bem feita e pincelar traços próximos ao que vemos diariamente nos programas esportivos, com entrevistas à beira do campo, filmagens de jogos que de fato aconteceram e conversas entre dirigentes. A participação especial de inúmeros jogadores também dá um belo toque ao filme inspirado em Oronzo Pugliese, que chega a ser biográfico em alguns momentos, tamanha semelhança.

Depois da sua aposentadoria do futebol em 1978, Oronzo voltou para a sua cidade natal, onde faleceu, em 1990. Pugliese nunca foi campeão italiano, nem ao menos teve uma carreira sólida e longa na Serie A. Mas conseguiu o que pouquíssimos foram capazes: manter a simplicidade, a honestidade e a originalidade em um meio que, devido à circulação de dinheiro e à fama, costuma transformar as pessoas. Oronzo nasceu e cresceu longe das elites e dos polos financeiros e quando teve a oportunidade de se imiscuir a eles, recusou – pois não seria mais ele mesmo.

Oronzo Pugliese
Nascimento: 5 de abril de 1910, em Turi, Itália
Morte: 11 de março de 1990, em Turi, Itália
Posição: defensor
Clubes como jogador: Frosinone (1934-35), Montevarchi (1935-36), Potenza (1936-37), Popoli (1937-38), Siracusa (1938-45) e Messina (1945-47)
Títulos como jogador: Serie C (1941)
Clubes como técnico: Sicula Leonzio (1939-41), Messina (1945-46 e 1949-51), Igea Virtus (1947-49), Benevento (1951-52), Nissena (1952-55), Reggina (1955-58), Siena (1958-59 e 1960-61), Siracusa (1959-60), Foggia (1961-65), Roma (1965-68), Bologna (1969 e 1973), Bari (1969-70), Lucchese (1973-74), Avellino (1975), Termoli (1975-76) e Crotone (1977-78)
Títulos como técnico: Serie C (1950, 1962), IV Serie (1956) e Serie B (1964)

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