Serie A

A grande geração perdida



A primeira divisão da Lega Pro italiana – equivalente à terceira divisão profissional do país – é liderada pelo Arezzo, que tem como titular na lateral-esquerda um jovem de história interessante. Fabrizio Grillo, 21 anos, foi o primeiro entre os defensores italianos a ser batizado de “novo Alessandro Nesta”. Desta época até hoje, muita coisa mudou. E sua posição em campo foi apenas uma delas.

O romano possuía total crédito dentro do ambiente da Lazio, sendo considerado por muitos a grande jóia do vivaio do clube, no início da década. Em junho de 2001, venceu o campeonato dos Giovanissimi, uma categoria acima de sua idade, batendo na final a Roma. Após um empate sem gols, foi de Grillo o pênalti decisivo para o título laziale. Tudo normal, até que dois meses depois o então zagueiro fechasse contrato com os giallorossi.

A decisão da Lazio em não renovar com Simone Grillo, seu irmão mais velho, fez com que houvesse uma forte ruptura entre o garoto e a sociedade. O que também acabou respingando como uma certa ingerência entre as promessas daquela geração. Dos onze titulares do time campeão, a Lazio perdeu cinco. O primeiro foi Fabrizio Grillo, que aceitou a proposta da arqui-rival Roma após ser assediado por meia Itália.

Zagueiro bastante técnico, com boa saída de jogo, Grillo passou duas ótimas temporadas pelos giallorossi, atuando sempre com bons resultados em categorias superiores. Até ser parado por uma séria lesão em seu joelho, no verão de 2003. Seu futebol nunca foi o mesmo. Afastado dos times titulares da base romanista, saiu do círculo da seleção italiana e deixou o clube em janeiro de 2007, sem jamais ter estreado pela Serie A. Negociado na época com a Sambenedettese, jamais se firmou, mas hoje recomeça bem pelo Arezzo e tem tempo para ver sua carreira ser salva.

Tarefa mais complicada terá outro representante da geração, o forte meio-campista Fabrizio Mineo, mais um que deixou a Lazio para fechar com a Roma. Após vários anos como coadjuvante no vivaio giallorosso, em 2006 foi liberado para o Treviso, onde nem chegou a jogar. Um ano depois, foi parar no Manfredonia, onde não convenceu. Em julho, chegou à Juve Stabia, onde vê do banco o calvário do time na zona de rebaixamento da Lega Pro.

Os outros três jogadores que abandonaram o barco partiram para o Reino Unido, sem final feliz. O atacante Michele Gallaccio foi levado por Claudio Ranieri com apenas 16 anos para o Chelsea, onde chegou cercado de expectativas e apenas uma certeza: a pressão de ser italiano num clube renovado por jogadores do país. Cinco anos depois, Gallaccio fechou com o Guidonia, da Serie D (relativa à quinta divisão). Pela Pro Vasto, temporada passada e pelo mesmo campeonato, foram três gols em 19 jogos. Incrivelmente pouco para quem já foi tido como herdeiro natural de Gianfranco Zola.

O goleiro Alessandro Cosimi e o zagueiro Giordano Pellegrino assinaram contrato com os escoceses do Livingstone, em dezembro de 2002. Mas a aventura britânica durou pouco, apenas quatro meses. A dupla chegou pressionada pela direção do clube, que os profissionalizou e mandou ao time principal com apenas 17 anos. Mas um episódio em que não limparam as chuteiras de dois argentinos do time titular antes de uma partida acabou sendo a chave para suas punições e posterior afastamento.

Os dois deixaram a Lazio sem dar qualquer satisfação. Sem contratos profissionais, se desvincularam do clube biancoceleste em busca do sonho das libras fáceis. E, no fim de março de 2003, a dupla deixava Edimburgo e voltava à Itália após renunciar a um contrato profissional de 1.600 libras por semana até 2005. Dinheiro jamais visto por Cosimi e Pellegrino, que também não conseguiram encontrar patrocinadores e escolas na região, como havia prometido o clube.

A questão é que a Lazio, municiada pelos novos regulamentos da FIFA, pediu indenização pelos dois jogadores após liberar a transferência para o Livingston: 60 mil libras esterlinas por cabeça. Os escoceses, que não esperavam ter de pagar mais do que a metade do pedido, acabou descontando nos jovens, e viram no episódio das chuteiras um bom momento para afastá-los. O goleiro, hoje, defende a meta da Ostiamare no campeonato Eccelenza (sexta divisão). O zagueiro atua pela Fanfulla, uma divisão acima.

Abalada por uma crise financeira que mais tarde se mostraria bastante danosa, a Lazio acabou perdendo não só suas grandes estrelas. Mas aquelas em potencial logo se tornaram estrelas cadentes no cenário futebolístico. Criados com confiança dentro da sociedade, provavelmente teriam oportunidades reais num futuro não tão distante. Mas perdida pela promessa de dinheiro rápido, a realidade do quinteto até aqui foi a falta de continuidade na carreira. Decepcionante para aquela que muitos apostavam ser a melhor geração da história recente do clube.



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