Liga Europa

Uma Europa menos italiana

Zébina expulso, Cannavaro também: Juve terminou com nove o vexame frente ao Fulham (Getty Images)

Nesta temporada, o futebol italiano não se deu bem em campos europeus: o Milan caiu de forma humilhante para o Manchester United, a Fiorentina chorou por um gol ilegal de Klose no confronto com o Bayern de Munique, a Roma passou vergonha ao perder os jogos de ida e volta com o Panathinaikos e a Juventus sofreu uma virada histórica e inesperada para o Fulham. A partir disso, muito se fala sobre o risco de a Itália perder uma vaga na Liga dos Campeões 2011-12. Não é impossível: somente os três países mais bem colocados no ranking da Uefa têm direito a quatro clubes na competição.

Hoje, a Itália tem o terceiro melhor coeficiente, mas menos de dois pontos à frente da Alemanha, que vem logo atrás. A boa campanha alemã em torneios europeus nos últimos anos, aliada aos desastres italianos em campos continentais, ligaram o alerta. É até provável que a Velha Bota não perca esta vaga já para o próximo campeonato. Mas já é um processo inevitável: a não ser que se execute um milagre, a Liga dos Campeões da temporada 2012-13 terá apenas três clubes italianos, um deles com obrigação de disputar a fase preliminar.

Estes coeficientes são calculados a partir das campanhas europeias dos últimos cinco anos de cada país. Cada vitória vale dois pontos e cada empate, um. Para cada passagem de fase, um ponto extra. Pontos, estes, que serão divididos pelo número de times envolvidos em disputas continentais. Ou seja: mesmo que a Inter seja campeã da LC na atual temporada, a péssima campanha de Genoa e Lazio na Liga Europa derrubam a média italiana. E que tal a eliminação do Napoli para o Benfica na primeira fase da Copa da Uefa no ano passado? Ou a Sampdoria caindo humilhada para o ucraniano Metalist de Kharkiv no mesmo torneio? Ou Empoli, Palermo e a própria Samp sendo eliminados nas preliminares da mesma competição, há dois anos, por Zürich (Suíça), Mladá Boleslav (República Tcheca) e Aalborg (Dinamarca)?

A Roma de Mancini fez história: caiu duas vezes seguidas nas quartas, para o Manchester United (AP)

Motivos não faltam para esse rateio peninsular, cada vez menos cíclicos e mais crônicos no futebol italiano. A prepotência do país em relação a seu esporte é uma das principais armadilhas a serem contornadas: grande parte da Itália (torcida, mídia e clubes inclusos) não admite a superioridade atual de ligas de outros países, ainda que seja incontestável o maior poder de atração de Inglaterra, Espanha e, às vezes, Alemanha e França. Até mesmo para Turquia e Rússia a Serie A perdeu titulares, nos últimos meses. Mas a Itália ainda se vê por cima e simplesmente abstrai uma competição mais abordável, como a Liga Europa. Mesmo Sampdoria, Palermo e Empoli escolheram escalar reservas naquilo que os italianos ainda consideram um inaceitável “segundo escalão”. O Milan, há duas temporadas, fez algo parecido até entrar em crise após cair para o Werder Bremen.

A Liga Europa, hoje, é vilipendiada pelos italianos que a disputam e vista como o patinho feio europeu. Ainda que seja absurdamente menos atrativa que a Liga dos Campeões e possua valor financeiro também menor, sua representatividade esportiva é inquestionável e pode abrir espaço para conquistas interessantes de clubes médios do país. Um bom exemplo é o bicampeonato recente do Sevilla, em 2007. Além de interferir diretamente no coeficiente nacional, é claro. Ainda que seja sempre deixada de lado, a sociedade que abstrai a Liga Europa é a mesma que não aceita as eliminações de seus clubes. E dá-lhe moviola, que é como os italianos chamam o nosso tradicional tira-teima. Alguém não deveria ser expulso, outro não estava impedido, no primeiro lance era pênalti… Discussões assim se arrastam por dias e tiram o foco dos verdadeiros problemas. A Itália não sabe perder.

E quem não sabe perder, não sabe ganhar: algo bem provado a cada ano que se passa e a Inter segue imbatível, às vezes tropeçando nas próprias pernas e continuando de pé. Não é raro ver partidas nas quais o clube de Appiano Gentile vence com um esforço mínimo – raramente os adversários complicam a vida dos nerazzurri quando estes entram razoavelmente concentrados no certame nacional. Ainda que Milan e Roma tenham chances reais de título e o time de Mourinho esteja com a cabeça longe da Serie A, é impossível descartar o favoritismo da Inter, que nunca precisou estar 100% para bater os adversários caseiros. O escândalo do calciopoli, que rebaixou a Juventus, redimensionou o Milan e baqueou Lazio e Fiorentina, derrubou o nível dos concorrentes e, principalmente, pôs na Europa gente que não estava preparada para disputá-la, como o Empoli de Piccolo, Rincón, Marzoratti e Volpato.

Na temporada passada, o Benfica de Nuno Gomes não teve dificuldades para eliminar o Napoli (EPA)

Se o campeonato se enfraquece, deve muito também à falta de renovações por toda a Serie A. Mesmo com uma categoria de base que vem colhendo bons resultados, o Milan está negociando a contratação de Yepes, 34 anos, para reforçar sua zaga. É o clube no qual Maldini se aposentou aos 41 e Costacurta, aos 40. Nesta, 34, ainda é o melhor zagueiro do campeonato enquanto está inteiro. Inzaghi, 36, se vê reinvindicando espaço por ser amuleto de uma torcida sem melhores perspectivas. Zambrotta, 33, é só sombra do que era há uma década. Dida, 36, foi de quarto goleiro à titular inconstestável e agora amarga a reserva. Mas não é só o Milan que “sofre” com a velha guarda. Há sempre uma Roma dependente de Totti, 33, um Napoli que se reencontrou defensivamente com as melhores atuações da carreira do agora zagueiro Grava, 33, ou uma Juventus que sofreu para repatriar Cannavaro, 36, um ex-capitão que deixara o clube brigado com a torcida. Para a seleção que vai à Copa, a falta de rejuvenescimento no trabalho de Lippi ainda faz-se aguardar os retornos de Nesta, Totti, Del Piero e Toni.

Falta talento nos campos italianos. Isso porque falta espaço para jovens da casa num lugar onde as diretorias se habituaram a fazer negócios contestáveis. Como o Chievo, que tem como opção o talentoso Hanine, mas paga uma fortuna para um inócuo Bogdani. Ou a Lazio, que optou por um contestável Hitzlsperger quando tem o promissor Sevieri. Ou a Roma, com três goleiros brasileiros e dois romenos contendo o crescimento do ótimo Frasca. Ou o Cagliari, que pagou quase 5 milhões de euros por um reserva Nenê enquanto o sardo Ragatzu continua sem chances. Ou o Milan, que mandou Paloschi para o Parma porque já contava com um dispendioso Huntelaar. Emprestar um jovem para adquirir experiência e continuidade em uma equipe menor é comum nos grandes times. Trazê-los de volta e aproveitá-los bem é outra história. Para um observador menos atento, a presença de Giovinco no elenco da Juventus pode passar despercebida.

Há um protecionismo excessivo nas estruturas do futebol italiano. Dificilmente os times arriscam lançar algum jogador sem mandá-lo passear por divisões inferiores por pelo menos um ano. Ou até por três, como no caso do romanista Cerci. Na Espanha, 51 jogadores foram lançados na atual temporada, nove deles somente pelo Málaga. Na Itália, apenas 34 jogadores sub-23 fizeram sua estreia na Serie A até aqui – sendo que metade destes foram contratados de outros clubes, geralmente de outros países. Prata da casa, no futebol italiano, não tem um valor muito alto. Como também não têm os treinadores: Ancelotti, Capello, Mancini e Spalletti, os quatro italianos que mais se destacaram na década passada, hoje treinam fora da península, os três primeiros na Inglaterra e o último na Rússia.

A Samp de Ziegler também deu vexame: caiu inacreditavalmente para o ucraniano Metalist (Reuters)

Fora dos campos, o país sofre com uma crise estrutural. A carga tributária italiana sobre salários e movimentações financeiras é a maior entre os locais de futebol bem desenvolvido na Europa Ocidental, mas ainda assim a crise econômica já parece ter-se instalado de vez. Perspectivas otimistas, neste campo, são cada vez mais raras. A fiscalização também é forte, o que afugenta possíveis investidores. Na política, os nomes pouco mudam, interesses se confundem, eleições beiram referendos e investimentos pontuais não passam de sonho. Nas palavras recentes de Roberto Saviano, autor do best-seller Gomorra, “as antigas práticas da nossa política não são simplesmente uma aberração: são também um hábito”.

A Itália de hoje se reflete no futebol, é claro. A parte “empresarial” do jogo fala demais e vende de menos. Merchandising não é uma palavra recorrente no ambiente italiano, raramente são vistas ações visando novos mercados (a disputa da Supercoppa em Beijing é exceção) e mesmo os anunciantes das competições raramente mudam de uma temporada para a outra, desvalorizando um produto com tanto potencial midiático. Praticamente toda a renda dos clubes da Serie A vem de contratos televisivos. Entre os grandes, ja há uma dependência do dinheiro que a Uefa distribui em suas competições europeias. Só a Inter ainda possui uma capacidade de investimento nivelada às outras potências do continente, mas porque seu presidente aceita colocar a mão (e fundo) no próprio bolso. Ainda assim, nem sempre o dinheiro atinge os melhores destinos e sociedades autofinanciáveis, como a Roma pretende ser num futuro próximo, não passam de sonho.

Os estádios italianos sofrem problemas comuns aos nossos, brasileiros. Não são atrativos ao público e veem a Serie A sofrer com uma queda avassaladora de público. Na temporada 1998-99, a média foi de 30.840 torcedores por jogo. Dez anos depois, o número caiu para 25.779. Não há segurança, visibilidade, conforto, opções de lazer e condições adequadas de transporte até a maioria dos estádios da primeira divisão, nem mesmo projetos para revitalizá-los. Os centros de treinamentos de muitos clubes também estão estagnados e bastante defasados em relação aos rivais europeus – e, nisso, há muito clube brasileiro que já se põe à frente dos italianos. As estruturas do futebol são velhas e inadequadas, características herdadas do país em que está hospedado. Um país que precisa reconstruir seu futebol e, até certo ponto, a si mesmo. Para que, dentro de 30 anos, essa fase seja lembrada como uma crise, não como um redimensionamento definitivo.

Confira as campanhas de clubes italianos na Europa nos últimos cinco anos:

2009-10
Liga dos Campeões: Juventus eliminada na fase de grupos (acesso à Liga Europa), Milan e Fiorentina eliminados nas oitavas-de-final, Inter classificada às quartas-de-final
Liga Europa: Genoa e Lazio eliminados na fase de grupos, Roma eliminada na segunda fase, Juventus eliminada nas oitavas-de-final

2008-09
Liga dos Campeões: Fiorentina eliminada na fase de grupos (acesso à Copa da Uefa), Juventus, Inter e Roma eliminadas nas oitavas-de-final
Copa da Uefa: Napoli eliminado na primeira fase, Sampdoria, Fiorentina e Milan eliminados na segunda fase, Udinese eliminada nas quartas-de-final
Copa Intertoto: Napoli classificado à Copa da Uefa

2007-08
Liga dos Campeões: Lazio eliminada na fase de grupos, Milan e Inter eliminados nas oitavas-de-final, Roma eliminada nas quartas-de-final
Copa da Uefa: Empoli, Sampdoria e Palermo eliminados na primeira fase, Fiorentina eliminada nas semifinais
Copa Intertoto: Sampdoria classificada à Copa da Uefa

2006-07
Liga dos Campeões: Chievo eliminado na fase preliminar (acesso à Copa da Uefa), Inter eliminada nas oitavas-de-final, Roma eliminada nas quartas-de-final, Milan campeão
Copa da Uefa: Chievo eliminado na primeira fase, Palermo eliminado na fase de grupos, Livorno e Parma eliminados nas oitavas-de-final
Copa Intertoto: a Itália não teve representantes

2005-06
Liga dos Campeões: Udinese eliminada na fase de grupos (acesso à Copa da Uefa), Juventus e Inter eliminadas nas quartas-de-final, Milan eliminado nas semifinais
Copa da Uefa: Sampdoria eliminada na fase de grupos, Roma, Palermo e Udinese eliminados nas oitavas-de-final
Copa Intertoto: Lazio eliminada nas semifinais

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