Serie A

Presente do pretérito: campeonatos falseados

O último Potenza: a Lega se omitiu e a Corte Federal deu rumo novo ao campeonato (Potenzasportclub.com)

Ontem, 19 de março, o futebol italiano assistiu ao término de um jogo que durou dois anos, ainda que a diferença entre os apitos de início e fim não tenha ido além de 90 minutos: na temporada 2007-08, em partida válida pela antepenúltima rodada do Grupo B do extinto campeonato da Serie C1 – atual Prima Divisione – o Potenza, já salvo, recebeu a líder – e em queda de produção – Salernitana, que disputava ferozmente título (e a consequente promoção direta) com o Ancona.

No fim das contas, a Salernitana venceu em Potenza por 1 a 0 e o resultado, aliado ao tropeço do Ancona em casa contra a Pistoiese, a deixou a um empate de garantir sua promoção matemática à Serie B. O que de fato aconteceu. Mas muitas das chamadas evidências de jogo cercaram a partida. A Salernitana vinha em notável queda de produção no returno, após um primeiro turno arrasador; tinha vencido apenas quatro jogos fora de Salerno até então, e sua última vitória fora de casa fora conquistada apenas na 14ª rodada. O Potenza, ao contrário, era um péssimo anfitrião: mais 70% de seus pontos, no campeonato, tinham sido feitos em seus domínios, onde perdera apenas três vezes.

As duas associações, que já estavam a mira da Lega Calcio por irregularidades financeiras, também foram alvo de uma investigação sobre jogos com resultados combinados e apostas. Enquadraram-se no primeiro caso e foram a julgamento, pela Corte Federal Italiana. Após quase duas temporadas inteiras, chegou-se às sentenças. A Salernitana perdeu seis pontos na classificação atual. Ou seja: só com 16 pontos, é virtual rebaixada para a Lega Pro Prima Divisione (claro, se a propriedade resistir ao rebaixamento). Com o Potenza, a decisão foi muito mais dura. O clube, também lanterna, mas no Grupo B da Prima Divisione, foi expulso do torneio e desfiliado da FIGC. No próximo domingo, o clube já não entrará em campo contra o Foggia, que será declarado vencedor da partida pelo placar de 3 a 0. E assim acontecerá com todos os futuros adversários do clube na temporada, enquanto seus resultados anteriores serão mantidos. Seu presidente, na época, Giuseppe Postigliani, envolvido em escândalos de apostas, também foi punido com uma proibição de atuar no futebol por cinco anos.

Os veredictos em atraso, e a participação de clubes em débito, seja financeiro que em juízo, são a enésima prova de que, no futebol da Itália, as divisões inferiores (de onde, evidentemente, sairão os clubes que, um dia, integrarão a série máxima e poderão representar a Itália em torneios europeus) estão a esmo, em termos de fiscalização.

Na Serie B, não bastasse o desenrolar do verdadeiro escândalo que foi a inscrição do Gallipoli (que tinha apenas quatro jogadores no elenco e outros tantos desfiliados por falta de pagamento), agora a Salernitana mostra que não tinha condições de estar na disputa, por ser vítima de problemas financeiros que vêm desde a antiga (e falida) sociedade ou por estar em processo, como ré, em um caso de justiça desportiva e federal. Seria justo que times como estes possam jogar e tirar pontos de outros que estão em ordem com suas finanças e se esforçam para ter os balanços em equilíbrio? Num âmbito em que todos os clubes são empresas, o campeonato se torna um mercado. E “jogar” sem condições integrais caracterizaria competição desleal.

Quando falamos de Potenza e Lega Pro, a questão ganha ainda mais importância – e, tenhamos certeza: não gerará menor indignação. O Potenza já tinha problemas financeiros, vinha de um rebaixamento na temporada passada e foi repescado na categoria. Some-se isso ao seu processo, que corria na Justiça, à investigação a respeito de seu presidente, e temos um clube que jamais poderia ter tomado parte em um campeonato do gênero. Mas o clube tirou pontos dos líderes, de equipes pretendentes aos play-offs de acesso, que investiram pesadamente (dentro de suas possibilidades) para conquistar a permanência na categoria.

O Potenza, agora expulso da competição, acaba falseando o campeonato e a classificação e maculando os esforços de seus adversários. Pois de acordo com os parágrafos terceiro e quarto do artigo 53 da NOIF (Normas Organizativas Internas Federais) seus resultados anteriores poderim ser desconsiderados, e os futurosdados a favor daqueles que seriam seus adversários. A Lega, como costuma fazer em situações-limite, ainda não se pronunciou oficialmente sobre o cumprimento da norma. Mais uma vez, estamos assistindo a campeonatos falseados. Notícia velha, aliás.

Recordamos que, na temporada passada, na própria Prima Divisione, a Pro Patria (clube de Busto Arsizio) teve sua falência – por bancarrota fraudulenta – declarada com o campeonato em curso, montou e reforçou sua equipe com jogadores que não poderia pagar (e não pagou) e esteve a apenas um ponto de roubar o título e o acesso direto do Cesena; mais do que isso, esteve a apenas um gol, nos play-offs, de subir no lugar do Padova e, antes, eliminara a Reggiana – e, por ter se classificado às finais, tirou a vaga da Spal. Também na Prima Divisione, Sambenedettese e Venezia não reuniam condições de disputar o campeonato, mas disputaram os play-outs de permanência, onde somente a equipe vêneta se salvou. No Grupo B do campeonato da Serie D, a Biellese liderou, da primeira à última rodada, com um time em desacordo com suas possibilidades financeiras, tirou o acesso direto do Spezia (que acabou sendo repescado) para ser, meses depois, excluída da Seconda Divisione.

Mais atrás no tempo, na Serie B 2004-05, Perugia e Torino, dois clubes em clara situação falimentar, fizeram a final dos play-offs de acesso para depois serem desclassificados – ao dano de Hellas Verona e Modena, que ficaram a apenas um ponto de se classificar para as finais. Em 2001-02, uma Lazio afogada em dívidas e impostos atrasados foi salva da falência e do rebaixamento pelo Estado romano, enquanto o Hellas Verona caiu com as contas em ordem. E foi decisiva para isso a derrota, por 5 a 4, para o próprio time romano.

Apesar de tudo, é complicado esperar que isto acabe por aqui. Neste ano, a Lega Pro recebeu três sociedades falidas da Serie B – Pisa, Avellino e Treviso – e, desde que a antiga Lega Serie C foi refundada pelo presidente Mario Macalli, nada menos que onze clubes já faliram, antes, durante ou depois dos campeonatos, apenas na Prima Divisione. De nada vale separar as administrações dos campeonatos se, depois, é a Justiça Comum a decidir o curso dos campeonatos. É o passado que não se aprende e que insiste em ser repetido no presente e se tornar parâmetro para o futuro. Tornando inesperado um campeonato normal – e puramente esportivo.

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