Técnicos

O inglês Jesse Carver levou inovações ao futebol da Itália e venceu pela Juventus

Na metade final do século XIX, o futebol em sua forma moderna começou a se popularizar no Reino Unido e, depois, foi espalhado pelo mundo. Na Itália, o esporte chegou através dos britânicos, mas as suas contribuições ao jogo na Velha Bota não se restringiram a este momento histórico. A partir do fim dos anos 1940, por exemplo, o técnico Jesse Carver ficou conhecido pelas inovações táticas que lhe fizeram trabalhar por sete diferentes clubes italianos.

Jesse Carver nasceu numa Liverpool industrial, em 1911. Enquanto a sua família trabalhava nas fábricas da região, Jesse quis trilhar um caminho pouco usual para a época e se tornou jogador de futebol. Como zagueiro, ele deu os seus primeiros passos no Blackburn, um dos clubes fundadores da Football Association e um dos mais antigos do país. Naqueles tempos, o esporte não era profissional e ele também ajudava na manutenção do gramado dos Rovers.

De 1929 até 1936, Carver seria um dos grandes destaques do time. Foram 146 jogos na primeira divisão, alternando entre campanhas de meio de tabela e outras um pouco superiores. Entre 1936 e 1939, Jesse representou o Newcastle, na segunda divisão. Com o futebol paralisado, devido ao início da Segunda Guerra Mundial, o zagueiro, então com 28 anos, se tornou policial.

Com o fim do conflito, o inglês voltou ao esporte e se tornou assistente no Huddersfield. Percebendo que tinha talento para ser técnico, Carver deu início à sua carreira solo e arrumou emprego no Xerxes, da Holanda. Seu diferencial, para a época, era o fato de fazer os seus comandados trabalharem mais com a bola do que simplesmente aprimorarem seu condicionamento físico nos treinamentos. Ao mesmo tempo, esse privilégio ao jogo e a centralidade da pelota em sua filosofia lhe fizeram ser um dos precursores da marcação por zona.

Gianni Agnelli foi o responsável por fazer o inventivo Carver topar o desafio de guiar a Juve (Arquivo/Juventus)

Carver dirigiu o Xerxes em uma boa campanha e acabou sendo convidado para treinar a seleção principal dos Países Baixos. Em dois anos à frente de uma Holanda ainda amadora, a dirigiu nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, e depois passou ao Millwall, da capital do Reino Unido, nas vestes de assistente. Jesse também comandou a seleção B da Inglaterra numa turnê e antes que fosse empregado pela FA, a Juventus se antecipou: em 1949, Gianni Agnelli pediu a Stanley Rous, presidente da entidade inglesa, uma indicação de substituto para o escocês William Chalmers. O cartola lhe sugeriu o jovem que passara pelo time reserva da equipe nacional.

Aos 38 anos, o britânico teria uma missão: devolver a Juventus ao caminho dos títulos após um jejum de scudetti que durava desde 1935, quando a Velha Senhora faturou o último campeonato do chamado Quinquennio d’oro. Nesse período de vacas magras dos bianconeri, o Grande Torino se estabeleceu como força no país e, em maio de 1949, teve a sua hegemonia violentamente encerrada pelo acidente aéreo que resultou na Tragédia de Superga.

Aquele time da Juventus tinha como destaques os atacantes Giampiero Boniperti e Ermes Muccinelli, além do lateral Pietro Rava e o do zagueiro Carlo Parola. Junto a Carver, chegaram ainda o arqueiro Giovanni Viola e três estrangeiros: o criativo meia argentino Rinaldo Martino e os goleadores dinamarqueses Karl Aage Praest e John Hansen. A esse gabaritado grupo, o técnico transmitia os seus métodos nos treinamentos e também nos vestiários, onde costumava usar uma lousa para demonstrar as suas concepções táticas. E o fazia (vide a foto que abre este texto) através da voz de Gigi Peronace, que atuava como seu intérprete antes de se tornar um célebre procurador esportivo.

Como as ideias de Carver eram novas na época, elas não foram compradas firmemente por todos os jogadores e por parte da torcida. Inicialmente, houve certa desconfiança, porque a equipe fazia e sofria muitos gols. Em fevereiro de 1950, por exemplo, a Juventus chegou a sofrer a pior derrota caseira de sua história frente ao Milan: com apenas 10 atletas em campo, por causa da expulsão de Parola, levou um 7 a 1 na primeira partida transmitida pela televisão na Itália. Mas, àquela altura, a acachapante derrota representava apenas um percalço.

O time de Jesse Carver soube se reequilibrar e encontrar o caminho das goleadas que costumava aplicar. Naquela campanha, atropelou Fiorentina (5 a 2) Bari (4 a 0), Palermo (6 a 2), Roma (3 a 0), Bologna (4 a 0), Venezia (4 a 1), Genoa (6 a 1), Como (6 a 2), Inter (4 a 2), Padova (4 a 0) e Sampdoria (4 a 0), chegando ao oitavo scudetto de sua história com duas rodadas de antecedência. A Juventus teve o segundo melhor ataque, com 100 tentos, e cinco atletas com mais de 10 bolas nas redes: Hansen (28), Boniperti (21), Martino (18), Muccinelli (13) e Praest (11).

Em 1950-51, Carver (ao centro) posa com o grupo juventino (Arquivo/Juventus)

No ano seguinte, o time comandado pelo inglês não repetiu o grande futebol e conseguiu um terceiro lugar na Serie A. Os motivos de elogios na imprensa se tornaram razões para críticas: segundo jornalistas esportivos da época, Carver era convicto demais de suas ideias e não abria mão delas em momentos em que poderia ser útil adotar a marcação homem a homem, por exemplo.

Demitido ao final da campanha, Jesse ficou sem trabalho por poucos meses, até decidir aceitar o convite do ambicioso Marzotto Valdagno, recém-promovido pela primeira vez à Serie B e abastecido com verbas da indústria têxtil da família Marzotto, que comandava o clube do Vêneto. Carver assumiu o posto na segunda rodada, mas ficou só até a 17ª. Os lanieri permaneceriam na segunda divisão, enquanto o técnico optou por retornar à Inglaterra.

Após o sucesso na Itália, Carver queria respaldo em seu país natal. Em 1952, assumiu o comando do West Bromwich e teve um impacto imediato nos Baggies, que praticaram um futebol bem ofensivo e conseguiram bons resultados contra os times do topo da tabela: o próprio Albion terminaria o campeonato da primeira divisão no quarto lugar. Antes disso, contudo, o técnico entrou em rota de colisão com a diretoria e se demitiu. Em janeiro de 1953, prontamente retornou a Turim.

Dessa vez, o convite não viria do lado bianconero da capital do Piemonte: o britânico foi contratado pelo Torino para ocupar o posto de diretor técnico (Oberdan Ussello seria o treinador de campo) e recebeu o objetivo de salvar o time do rebaixamento. Pelos granata, Carver reencontrou o meia ofensivo Faas Wilkes, que comandara no Xerxes e na seleção holandesa, mas teve um elenco bastante modesto à disposição. Jesse obteve um décimo lugar na Serie A e, na temporada seguinte, acabou se demitindo após conquistar apenas uma vitória nas sete primeiras rodadas do campeonato. O inglês estava insatisfeito com a qualidade do plantel.

Em época de rara exceção, a liga nacional permitia que um profissional atuasse por mais de uma equipe numa mesma temporada. Assim, tão logo se demitiu do Torino, assinou com a Roma: seria diretor técnico, enquanto Mario Varglien seguiria à beira do campo. Ganhando o equivalente a 5 mil libras anuais como salário, Jesse e sua esposa tiveram um apartamento na Via Archimede, não muito distante do recém-inaugurado estádio Olímpico. O bairro de Pinciano, conhecido por abrigar diversas representações diplomáticas, tinha moradores como Faruque, penúltimo rei do Egito, e Ingrid Bergman, atriz três vezes premiada no Oscar.

Na fase descendente da carreira, Carver treinou o Genoa (Guerin Sportivo)

Na Roma, Carver também comandou uma estrela: o uruguaio Alcides Ghiggia, destaque do elenco ao lado dos meias Arcadio Venturi e Egisto Pandolfini, e dos atacantes Carlo Galli e Helge Bronée. Em dupla com Varglien, o inglês levou a Loba a um sexto lugar na Serie A, em 1954, e, sozinho – já com o reforço do craque húngaro István Nyers –, ao terceiro posto na campanha seguinte. Logo depois, Jesse voltou para a Inglaterra.

O seu novo emprego seria no Coventry City, da terceira divisão: lá, ele ganharia 100 libras por semana (cerca de 5,2 mil anuais), numa época em que o o salário médio de um jogador era de 15 libras a cada sete dias. Segundo o jornalista esportivo Brian Glanville, que acompanhava Carver na Itália, o técnico teria recebido uma proposta para assumir a seleção inglesa, mas a rejeitou porque tinha dado a palavra a Erle Shanks, dono do clube de West Midlands.

Jesse teve liberdade nos treinamentos em Coventry e contava com apoio do seu proprietário, que investiu em equipamentos para melhorar os desempenhos dos jogadores. O técnico ainda conseguiu ter, como auxiliar, o gabaritado compatriota George Raynor, que já estivera à frente da seleção sueca e também de Juventus e Lazio. O time até praticava um bom futebol, mas não estava conseguindo competir pelo acesso e, ao mesmo tempo, o clima frio e úmido da região não era dos melhores para a saúde da esposa do comandante. Carver, então, pediu o boné na véspera do ano novo de 1956.

Apesar de ter negado publicamente haver propostas de outros clubes, o britânico demorou apenas três dias para ser anunciado pela Lazio. O treinador assumiu o time celeste na 13ª posição da Serie A e o potencializou. À frente de um elenco que tinha os atacantes Muccinelli e Pasquale Vivolo, velhos conhecidos de Juventus, e Lorenzo Bettini, que treinara na Roma, Carver contava com o goleiro Roberto Lovati e o centroavante Arne Selmosson como principais figuras. O inglês levou este grupo a 10 vitórias, oito empates e três derrotas em 21 jogos e terminou a campanha na terceira posição. No ano seguinte, reforçados pelo ex-juventino Praest e pelo atacante brasileiro Humberto Tozzi, os laziali repetiram a dose.

Pelo que Carver vinha produzindo na Itália, o presidente Angelo Moratti, da Inter, decidiu levá-lo a Milão. Contudo, parecia que a mágica do técnico inglês acabava por ali. Jesse fracassou mesmo tendo um elenco bastante talentoso: além de Pandolfini e Venturi, que conhecia bem, os nerazzurri contavam com Giorgio Ghezzi, Bruno Bolchi, Giovanni Invernizzi, Mario Corso, Lennart Skoglund, Antonio Angelillo, Oscar Massei e Benito Lorenzi. O esquadrão não foi além do nono lugar no campeonato da fase de grupos da copa nacional.

Depois de biênio positivo na Lazio, Carver retornou ao clube para acompanhar Flamini (à sua dir.), mas não obteve sucesso (Getty)

Carver teve uma breve passagem como assistente do Tottenham, em 1958, e, em outubro do ano seguinte, retornou à Itália. O novo desafio seria salvar o Genoa do rebaixamento, mas Jesse não entregou bons resultados e acabou demitido em março de 1960 – os rossoblù cairiam logo depois.

Em janeiro de 1961, foi chamado para tirar a Lazio de sérios apuros, mas novamente não teve sucesso. O britânico comandou a equipe ao lado do ítalo-argentino Enrique Flamini (ex-meia do próprio time celeste e com passagem pelo Cruzeiro de Porto Alegre), somando apenas quatro vitórias em 20 jogos. Por conta de 12 derrotas nesse período, incluindo acachapantes 4 a 1 para Juventus e Torino e um 7 a 0 para a Inter, os aquilotti ficaram com a lanterna do campeonato. Na sequência, os romanos teriam a chance de se redimirem na Coppa Italia, porém não foram páreo para a Fiorentina na final.

Assim, de forma melancólica, terminou a vivência do britânico pelas competições da Velha Bota. Antes de encerrar a carreira, Jesse foi treinador do APOEL em duas oportunidades, quando o esporte no Chipre era ainda mais incipiente do que hoje, e faturou uma copa cipriota. Aposentado, chegou a morar com a esposa na própria Itália e, também, em Portugal e Estados Unidos. Com mais idade, retornou para a Inglaterra, onde é pouquíssimo lembrado pelas inovações que aportou ao futebol. Aos 92 anos, em 2003, Carver faleceu em Bournemouth, no litoral sul do país.

Jesse Carver
Nascimento: 7 de julho de 1911, em Liverpool, Inglaterra
Morte: 29 de novembro de 2003, em Bournemouth, Inglaterra
Posição: zagueiro
Clubes como jogador: Blackburn (1929-36) e Newcastle (1936-39)
Carreira como treinador: Xerxes (1946), Países Baixos (1947-48), Juventus (1949-51), Marzotto Valdagno (1951-52), West Bromwich (1952-53), Torino (1953), Roma (1953-55), Coventry (1955), Lazio (1956-57 e 1961), Inter (1957-58), Genoa (1958-59) e APOEL (1962-63 e 1969-70)
Títulos como treinador: Serie A (1950) e Copa Cipriota (1963)

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