Serie A

Catenaccio para italiano ver

Mourinho sorri, consciente de que construiu esta Inter que derrotou o Barcelona de Guardiola (Reuters)

Costuma-se dizer por aí que não se pode ensinar o padre-nosso ao vigário, mas José Mourinho mostrou aos italianos como se executa um verdadeiro catenaccio. Muito tempo depois da Grande Inter de Helenio Herrera, bicampeã europeia em 1964 e 1965, os nerazzurri voltam a ter grande dimensão europeia valendo-se da tática imortalizada pelo técnico argentino: defender-se com grande abnegação tática e ocupando todos os espaços possíveis. Trinta e oito anos depois de ser derrotada pelo Ajax de Johann Cruijff na final da Rotterdam, a Inter está de volta a uma final da Liga dos Campeões. Uma vitória que fez até mesmo o frio Balotelli chorar.

A partida de hoje já seria histórica “apenas” por isso, mas a forma como os nerazzurri se classificaram ante o Barcelona impõe ainda mais peso a conquista: jogando com um a menos desde os 28 minutos do primeiro tempo, quando Thiago Motta foi expulso de maneira – no mínimo – rigorosa, a equipe treinada por José Mourinho foi perfeita em sua estratégia. Durante toda a duração da partida, o muro montado por Mourinho e extremamente bem executado pelos jogadores restringiu, a parte o gol de Piqué, no fim da partida, a participação de Júlio César a apenas uma defesa mais complicada, quando desviou para escanteio um chute de Lionel Messi na primeira etapa. Neste sentido, essenciais as participações de Milito e Eto’o atuando como laterais, impedindo que o Barcelona pudesse encontrar uma nesga de espaço vazio. Para o jogo de ontem, em específico, a lesão de Pandev, no aquecimento, mudou a forma de jogar do time, que talvez nem atuasse tão fechado com o macedônio em campo, mas a entrada de Chivu e a expulsão de Motta forçaram o recuo mais acentuado dos nerazzurri, aos quais Mourinho chamou de “time de heróis que derramaram sangue” em prol da classificação.

A Inter desta temporada tem mostrado, em boa parte dos jogos, que tem a capacidade de ser atacada a exaustão, oferecendo muito poucas oportunidades para seus adversários, já que deixa poucos espaços para que a bola seja trabalhada pelos adversários. No restante do jogo, a ocupação de espaços por parte dos jogadores do time italiano foi tão intensa que o Barcelona, mesmo com 75% da posse total de bola no jogo não conseguia levar perigo real ao gol defendido por Júlio César.

No fim da partida, Mourinho deu uma declaração curiosa, mas que demonstra uma boa leitura do estilo de jogo de ambas as equipes: “eu não queria ter a posse de bola, porque quando o Barcelona rouba a bola, meu time perde o posicionamento. Como eu não queria isto, nós a deixávamos com eles”. Digno de um discípulo do mago Helenio Herrera, com quem Mou já é comparado pelo presidente Massimo Moratti e até mesmo pela imprensa italiana. Com os meios de comunicação, a relação sempre conflituosa está atualmente em estado de graça pela classificação interista para a final da LC. Mourinho e a Inter, altamente antipatizados por Roma e Milan, já receberam elogios dos rivais após a classificação. Jogadores do passado interista logo se apressaram em elogiar o português.

Por mais que negue, Mourinho foi contratado pelo presidente Massimo Moratti para fazer o clube voltar a ser temida na LC. E, neste aspecto, o técnico de Setúbal já está ciente dos seus feitos: está consciente de que a Inter voltou a ser grande na Europa, independentemente do resultado da final do Santiago Bernabéu. A mentalidade vencedora da Inter no campeonato italiano se ampliou em solo nacional e também se mostra presente em solo continental, pela primeira vez em muito tempo. Dessa maneira, as possibilidades de conquistar a Tríplice Coroa pela primeira vez na história do clube são boas, levando-se em conta que a equipe está extremamente focada nas três competições – LC, Serie A e Coppa Italia. Qualquer resultado obtido pela equipe não manchará o fantástico trabalho feito por Mourinho, que passa desde contratações certeiras de jogadores a um excelente trabalho psicológico para a construção de um aplicado jogo tático e coletivo.

Se, na estratosférica vitória interista, Mourinho pode ter saído como o principal artífice e vencedor, certamente há também o principal perdedor do lado blaugrana. A transferência de Ibrahimovic para o Barcelona, em troca de Eto’o e mais 45 milhões de euros, fomentou uma grande discussão sobre qual dos times sairia ganhando. Após as semifinais da LC, não há muito mais o que discutir: a vitória de Moratti, Branca e Oriali no mercado de verão foi consolidada. Embora esteja sendo mal escalado por Josep Guardiola como centroavante mais fixo e marcado alguns gols importantes na competição (contra Stuttgart e Arsenal), em três jogos contra os nerazzurri na competição, o atacante sueco foi nulo e, para completar, foi substituído nas duas partidas das semifinais por ineficácia.

Enquanto Ibrahimovic fracassa no Camp Nou, Eto’o brilha na Inter de uma forma inesperada. O atacante chegou para marcar gols, mas tem se destacado por um incansável espírito de equipe. Na partida de Barcelona, o “Rei Leão” chegou ao ápice de seu sacrifício tático pelo time ao atuar como um lateral-esquerdo. No 4-2-3-1 de Mourinho, o camaronês desempenha uma função mais cerebral e mais preocupada com a marcação e no trabalho de bola: se na Catalunha ele era o homem-gol, Milito foi eleito para desempenhar este trabalho na Inter. Além disso tudo, Eto’o assume função de liderança na equipe e foi o responsável pelo gol da vitória em Stamford Bridge, contra o Chelsea.

Com a moral em alta após a classificação contra o poderoso Barcelona e a calorosa recepção feita por cinco mil torcedores, às duas e meia da manhã, no aeroporto de Malpensa, a Inter visitará a Lazio pela Serie A e terá a primeira chance de título na temporada: ainda no Olímpico de Roma, enfrentará a Roma na final da Coppa Italia. A chance de “zero tituli” ainda existe, mas que esta é a melhor Inter em muitos anos, não há dúvidas: para os torcedores que tanto sofreram no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, sonhar tão alto agora é possível.

Barcelona 1-0 Inter

Barcelona: Valdés; Daniel Alves, Touré, Piqué, G. Milito (Maxwell); Busquets (Jeffrén), Xavi, Keita; Messi, Ibrahimovic (Bojan), Pedro.

Inter: Júlio César; Maicon, Lúcio, Samuel, Zanetti; Chivu, Cambiasso, Thiago Motta; Sneijder (Muntari); Eto’o (Mariga); Milito (Cordoba)

Árbitro: Frank De Bleeckere, da Bélgica.

Gol: Piqué, aos 39′ do segundo tempo.

Cartões amarelos: Pedro (Barcelona); Thiago Motta, Júlio César, Chivu e Muntari (Inter).

Cartão vermelho: Thiago Motta, aos 28′ do primeiro tempo.

1 comentário

  • Análise mais do que perfeita. Creio que o presidente Moratti acertou ao apostar em um trabalho a longo prazo com Mourinho, temporada passada o português foi critica por conquistar "apenas" o Cálcio, mas se analisarmos ele teve em mãos, basicamente a mesma equipe de Roberto Mancini. Em 2010 a situação é diferente, Mou montou sua Inter e o resultado está no campo, uma equipe táticamente perfeita. A verdadeira máquina Mourinho!

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