Serie A

Pós-jogo: Inter 3×1 Barcelona

Milito e Maicon jogaram como nunca para aproximar a Inter da final em Madrid (Reuters)

O dia 20 de abril de 2010 já pode ser escrito na história da Inter. Se alguém ainda duvidava que os nerazzurri tinha deixado para trás o medo da Liga dos Campeões ao passar pelo Chelsea, nas oitavas-de-final, não tem mais como não acreditar. Ontem, José Mourinho demonstrou novamente que foi a contratação mais acertada da Era Moratti. Conhecedor de muitos canteranos do Barcelona ou, pelo menos, da forma como se criam craques em La Masia, Mou, estrategista que é, preparou de forma muito inteligente a primeira partida destas semifinais. Assim, sua Inter jogou muito bem contra o Barcelona e impôs aos blaugrana a primeira derrota por mais de um gol de diferença desde a chegada de Josep Guardiola ao comando técnico do clube. Com Lionel Messi e Xavi anulados por Thiago Motta, Wesley Sneijder e Esteban Cambiasso, a Inter chegou ao 3 a 1 final e deu um passo importantíssimo rumo a final do torneio, que será disputada no Santiago Bernabéu, em Madrid.

A ausência de medo da competição já podia ser notada na escalação proposta por Mourinho. Assim como contra o Chelsea, o técnico de Setúbal ousou e escalou uma Inter ofensiva contra os temidos campeões europeus. Mas o ímpeto ofensivo da equipe interista não ficou apenas no papel. Em jogo aberto, os italianos partiram pra cima no primeiro tempo e tiveram duas ótimas chances com Milito: na primeira, teve boa chance de ficar cara a cara com Victor Valdés após ótimo passe de Sneijder, mas um impedimento foi marcado de maneira equivocada. Na segunda vez, o atacante não aproveitou rebote do goleiro em chute de Samuel Eto’o e chutou torto.

Logo depois, aos 19 minutos, o Barcelona deu um banho de água fria nos nerazzurri e abriu o placar, com gol de Pedro. Maxwell recebeu passe de Xavi pela esquerda, ganhou na corrida de Cambiasso e cruzou para o centro da área, para quem viesse de trás. O atacante espanhol encontrou a defesa da Inter desorganizada – no único erro da partida – e chutou rasteiro, sem chances para Júlio César. Porém, os jogadores não desanimaram e continuaram a partir para cima. Aos 26, Goran Pandev, que havia trocado de lado com Eto’o e estava do lado esquerdo, tocou bem para Diego Milito bater do bico da pequena área, mas o chute do argentino não foi tão bem colocado e a bola foi para fora.

Quatro minutos depois, surgiu a jogada do empate e o número 22 da Inter se recuperou. Eto’o recebeu de Maicon pela direita e cruzou para Pandev, que estava no centro da área. Porém, Milito se desmarcou de Gerard Piqué e tomou a frente do macedônio e, fazendo o pivô, girou e tocou para Sneijder, que, livre frente ao gol por erro de marcação de Daniel Alves. Sem pressão, ficou fácil para o holandês vencer o goleiro catalão. O Barcelona ainda tentou reagir no restante do primeiro tempo, mas foi parado graças a boas participações de Júlio César e Lúcio sobre Zlatan Ibrahimovic.

A Inter voltou ligada para o jogo na segunda etapa e logo virou a partida, com o segundo golaço de Maicon em menos de uma semana. Porém, ao contrário daquele contra a Juventus, o de ontem foi um gol de equipe. Thiago Motta, em partida primorosa, roubou bola de Messi próximo a grande área nerazzurra, o que possibilitou um contra-ataque rápido dos donos da casa. Javier Zanetti tocou para Pandev, que avançou com velocidade e deixou dois marcadores para trás, concluindo sua participação no lance com um belo passe em profundidade para Milito, que teve a calma suficiente para dominar a bola e esperar a chegada do lateral brasileiro, que ganhou de Seydou Keita na velocidade e deslocou Valdés com um toquinho de direita.

Depois do gol da virada, o Barcelona até tentou o empate, mas era pouco efetivo. E, quando conseguia, lá estava Júlio César, que, pouco tempo atrás, havia falhado feio contra Roma e Fiorentina na Serie A, mas se recuperava no principal jogo da temporada até então. Primeiro, o brasileiro havia defendido um dos raros chutes de Messi, mas a grande defesa do jogo veio depois, quando o goleiro realizou um verdadeiro milagre em cabeçada de Sergio Busquets. O meia catalão não precisou saltar e cabeceou sozinho, mas o brasileiro espalmou muito bem e ainda sofreu falta na continuação do lance, quando iria defender mais uma. Ibrahimovic ainda teve a única chance real contra sua antiga equipe, mas Júlio César fez boa defesa em seu chute cruzado.

Aos 16 minutos, a Inter chegaria ao terceiro gol, inimaginável para muita gente antes que as equipes entrassem em campo. Pedro iria sair jogando na intermediária barcelonista, mas Thiago Motta agiu rapidamente e, com um carrinho perfeito, desarmou o canterano. Depois, o brasileiro tocou para Eto’o cruzar bem para Sneijder, novamente deixado livre por Daniel Alves, cabecear. O holandês concluíra para o gol, mas a má pontaria para a finalização se converteu em passe para Milito (que parecia um pouco adiantado) completar, também de cabeça, sem chances para Valdés. Logo após o gol, prevendo uma goleada histórica, Guardiola substituiu Ibrahimovic por Eric Abidal. Como esperado, o sueco foi muito vaiado pela torcida da Inter, que ainda encontrou espaço para ironizá-lo: no fim da partida, um garotinho segurava um cartaz que dizia “Ibra queria ganhar a Champions, mas errou o time!”, em referência óbvia ao fato de que o Barcelona pode ser eliminado pela Inter.

Com o Barcelona mais fechado pelo lado esquerdo, mas precisando de gols para melhorar sua situação, a Inter passou a atuar mais na base dos contra-ataques. Em falta da entrada da área, Messi finalmente apareceu, obrigando Júlio César a fazer boa defesa. O Barcelona continuava pressionando, mas a defesa bem fechada da Inter impedia que o Barcelona jogasse com passes rápidos, como costuma fazer. Aos 40 do segundo tempo, Sneijder ficou cara a cara com Valdés e teve a chance de marcar o quarto gol da Inter, mas um domínio errado estragou a jogada. Logo depois, Piqué ficou com uma sobra de bola numa cobrança de escanteio, chegou a passar por Júlio César, mas Lúcio cortou sua finalização em cima da linha. Daniel Alves ainda pediu pênalti de Sneijder, mas foi punido pelo árbitro Olegário Benquerença por simulação. Amarelos também para o capitão Carles Puyol e Dejan Stankovic, que não poderão jogar a partida de volta.

Dos problemas e dos méritos

Outros que também poderão não jogar a partida de volta são Maicon e Mario Balotelli. O primeiro se chocou violentamente com Messi, quebrou um dente e terá de ser operado, deixando dúvidas sobre se a recuperação até quarta-feira será satisfatória. Já Balotelli substituiu Milito, que se sacrificou pelo time e saiu com câimbras, e não correspondeu. Enquanto todo o time trabalhava defensivamente para evitar um gol do Barça, o atacante fazia corpo mole e não valorizava a posse de bola. Vaiado pela torcida, se irritou e atirou sua camisa no gramado quando Benquerença apitou o fim do jogo e, segundo Ibrahimovic, quase apanhou de Marco Materazzi nos vestiários.

O ato, definido pelo presidente Massimo Moratti como “suicídio público” deve render ao atacante uma multa altíssima, mas pelo menos por hora, não significa que o atacante não jogará mais pelo clube. O presidente Moratti afirmou que gostaria de continuar vê-lo integrado ao grupo, já que a equipe está na reta final da temporada e precisa contar com todo o elenco, e é até possível que ele fique no clube mesmo com tantos problemas disciplinares, já que é querido pelo mandatário do clube. O ato também não passou em brancas nuvens para outros membros da comunidade interista: Balotelli foi repreendido por jogadores, técnico e até mesmo pela diretoria da Inter e deve receber uma alta multa.

Hoje, no lançamento do livro do ex-jogador Stefano Borgonovo, Balotelli mostrou-se infantil ao, mais uma vez, não aprender com seus erros e ignorartudo que aconteceu ontem. Lembrando um certo Robinho, afirmou que “está pronto para ser o melhor do mundo” e ainda declarou que está do lado de Ibrahimovic, que disse que Materazzi deveria tê-lo deixado em paz. Parece mais do que claro que não há mais clima para o jogador no clube, embora Moratti insista em blindá-lo.

O Barcelona chegou a reclamar da arbitragem, mas não reclamou da viagem de 10 horas que teve de ser feita de ônibus, por causa do fechamento de boa parte dos aeroportos europeus após a erupção do vulcão Eyjafjallajökull. Para o jogo de volta, na semana que vem, a Inter pode perder por até um gol de diferença. Ou até dois, caso marque mais de um gol no Camp Nou, que deverá estar lotado com quase 100 mil pessoas. Mourinho, que também está mais do que acostumado com o ambiente no estádio do Barcelona, começa a ver renderem de verdade os frutos de seu conturbado trabalho. Faltando apenas sete jogos para o fim da temporada (seis, caso a Inter seja eliminada pelos catalães), a equipe nerazzurra pode ter o gostinho de conquistar a Tríplice Coroa: LC, Serie A e Coppa Italia.

Neste momento, antes mesmo de a temporada acabar, há de se reconhecer o fantástico trabalho de José Mourinho, um homem ambicioso, que não tem medo de terminar a temporada com “zero tituli” e arrisca o que pode para vencer todos. Um homem que, pouco tempo atrás, era desvalorizado por seus críticos por não encontrar um esquema tático próprio e usar o de Roberto Mancini, seu antecessor. Agora, com um time desenhado taticamente por ele; com jogadores que atuam de acordo com seu perfil, dedicando-se inteiramente a um jogo de sacrifício pelo coletivo; e, por fim, com um fantástico trabalho psicológico nos bastidores, não há dúvidas de que é o português o grande responsável pela construção desta nova Inter, preparada para brigar em três campeonatos distintos e até o último minuto.

Confira aqui a entrevista (em italiano) de José Mourinho após a partida. Confira também o resumo do jogo feito pelo Quatro Tiempos.

Inter 3×1 Barcelona

Inter: Júlio César; Maicon (Chivu), Lúcio, Samuel, Zanetti; Cambiasso, Thiago Motta; Pandev (Stankovic), Sneijder, Eto’o; Milito (Balotelli).

Barcelona: Valdés; Daniel Alvez, Puyol, Piqué, Maxwell; Xavi, Busquets; Keita; Messi, Ibrahimovic (Abidal); Pedro.

Árbitro: Olegário Benquerença, de Portugal.

Gols: Sneijder, Maicon e Milito (Inter); Pedro (Barcelona).

Cartões amarelos: Eto’o e Stankovic (Inter); Busquets, Puyol, Piqué, Keita e Daniel Alves (Barcelona).

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