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Ottavio Bianchi foi o homem que fez deus se manifestar no sul da Itália

É no Vaticano, encravado em Roma, onde o Papa dá voz aos anseios de Deus. Durante os anos 1980, Ottavio Bianchi fez com que essas revelações passassem a ocorrer em Nápoles, onde apresentou ao povo o seu próprio deus. Foi com ele, no estádio que leva nome de um apóstolo, que Diego Maradona fez milhares de napolitanos seguirem a sua religão.

O nome de Ottavio Bianchi nos remete a Nápoles, lugar em que viveu o seu auge no futebol, tanto dentro quanto fora de campo. Porém, antes de se tornar um bom jogador e um grande técnico no sul, com direito a título italiano, Ottavio nasceu em Brescia, na Lombardia, um dos principais estados do norte da Itália. Foi pelo clube local que Bianchi, um meia de características ofensivas, passou suas seis primeiras temporadas como profissional. Foi aí que o Napoli apareceu pela primeira vez na sua vida.

Com a camisa partenopea, Bianchi viveu o seu auge dentro das quatro linhas. Em 1966, ano em que chegou a Nápoles, foi convocado para a seleção italiana pela primeira vez e fez a sua estreia em um jogo contra a União Soviética. Bianchi só jogaria mais uma vez pela Squadra Azzurra, também em novembro de 1966, contra a Romênia – ele optou por não ser mais chamado, por diferenças com o corpo técnico da época. Depois de cinco anos com o Napoli, Bianchi saiu do sul e voltou à Lombardia para jogar na Atalanta. Antes de se aposentar, com quase 34 anos, já vitimado por lesões no joelho, o meio-campista ainda atuou por Milan, Cagliari e Spal.

O trabalho de Bianchi como treinador começou no Siena, que disputava a quarta divisão em 1978. Após passar também por Mantova e Triestina, na Serie C1, Ottavio foi contratado pela Atalanta, que vivia um momento muito ruim em sua história: em 1981, teria de disputar pela primeira vez a terceira divisão. O lombardo aceitou o desafio e, em Bérgamo, despontou como um treinador de destaque.

No Napoli, Bianchi viveu o auge da carreira (Corriere dello Sport)

Bianchi tinha o objetivo de levar o time à Serie B logo no seu primeiro ano de trabalho e conseguiu. Na sua primeira temporada na Bérgamo, Bianchi ganhou o Grupo A da Serie C1, com alguma vantagem sobre Monza, Vicenza e Modena, e classificou a Dea para a segunda divisão italiana do ano seguinte. O treinador continuou no comando e, após manter os nerazzurri na categoria, ganhou sua primeira oportunidade na elite: em 1983, decidiu deixar a Dea por atritos com a torcida. Após alguns meses parado, Bianchi assumiu o Avellino, time da Campânia, onde já havia sido feliz com o Napoli.

Na sua primeira e única temporada com a equipe biancoverdi, em 1983-84, Bianchi levou os lobos ao 12º lugar e terminou a temporada com 26 pontos, a mesma quantidade do Napoli. No ano seguinte, o lombardo trocou o Avellino pelo Como e voltou para perto de casa. O técnico levou o time comasco ao 11º lugar na Serie A, garantindo, assim, mais uma permanência.

Após dois trabalhos seguros – mas modestos – com Avellino e Como, Bianchi deu um salto na carreira: foi contratado por Corrado Ferlaino, então presidente do Napoli, para comandar um time que teria um gênio. A chegada de Bianchi foi uma aposta de Ferlaino, insatisfeito com o oitavo lugar conquistado por Rino Marchesi na temporada anterior. Ottavio pediu liberdade ao presidente para trabalhar de forma severa com seus comandados e foi atendido – além de ganhar Maradona como presentaço. Em 1985, o camisa 10 já era um dos maiores jogadores do mundo e lideraria, um ano mais tarde, a Argentina ao seu segundo título da Copa do Mundo.

A primeira temporada de Bianchi no comando do Napoli foi em 1985-86, quando levou o time do sul ao terceiro lugar, seis pontos atrás da campeã Juventus e a três da Roma, segunda colocada. O esquema utilizado por Bianchi, desde o seu debute como técnico em Nápoles, foi o 3-4-1-2. Sua equipe marcava muito forte no seu próprio campo, sempre pressionando o homem da bola, muitas vezes com dois ou três jogadores. A consistência defensiva apresentada pelos azzurri fez com que o time do sul terminasse o campeonato com a segunda melhor defesa da competição. Até mesmo Maradona tinha funções defensivas, o que não era tão comum para a época. A dedicação pedida por Bianchi a seus atletas fez com que ele ganhasse o apelido de “sargento”.

Contratado por Dino Viola, Bianchi ficou só dois anos na Roma (Bartoletti)

Com a boa campanha no ano anterior, o Napoli foi atrás de reforços. Para a temporada 1986-87 chegaram Andrea Carnevale e Fernando De Napoli, jogadores que seriam fundamentais na bela campanha partenopea rumo ao scudetto e ao título da Coppa Itália daquele ano. Comandado por Bianchi, o trio Ma-Gi-Ca (Maradona, Bruno Giordano e Carnevale) dominou a Itália e fez história ao se tornar o primeiro time campano a levantar a taça. Com 42 pontos ao fim de 30 rodadas, o Napoli que ficou 12 jogos invictos e que tinha em Maradona o seu artilheiro, teve o ponto de virada em sua existência.

No ano seguinte, com Bianchi eleito como melhor técnico da Itália, o Napoli foi atrás de mais um nome de peso: Careca. O centroavante brasileiro se juntou ao time napolitano e fez uma das grandes duplas de ataque da Serie A ao lado de Maradona. Mesmo com mais uma bela campanha e com os sul-americanos combinando 28 gols, a equipe azzurra não conseguiu repetir o feito da temporada anterior e terminou como vice-campeã, três pontos atrás do Milan, e uma vaga na Copa Uefa do ano seguinte.

A temporada 1988-89 foi a última de Bianchi no comando do Napoli. Depois de fazer a Itália se render, pela primeira vez, a um time da Campânia, Ottavio estava pronto para conquistar a Europa. Liderada por Careca e Maradona, a equipe partenopea conquistou a Copa Uefa com uma campanha irrepreensível: passou por PAOK, Lokomotiv Leipzig, Bordeaux, Juventus e Bayern Munique, até despachar o Stuttgart na final. Foi uma despedida de ouro daquele que levou a cidade ao topo da Itália, a saborear a Europa e, principalmente, a se deleitar com a melhor versão de Maradona, divindade que cultua até hoje.

Em 1990, após um ano sabático, Bianchi decidiu se aproximar de outra divindade ao aceitar a proposta da Roma. No entorno do Vaticano, porém, ele não foi feliz. Em boa parte da temporada 1990-91, durante a presidência de Dino Viola, tudo corria bem, pelo ótimo relacionamento com o dirigente. O cartola morreu em janeiro de 1991 e, enquanto corriam os trâmites para a compra do clube por Giuseppe Ciarrapico, a Loba seria campeã da Coppa Italia e vice da Copa Uefa.

Ao lado de Facchetti, na Inter: experiência em Milão não foi positiva para o técnico lombardo (Panorama)

Dali para frente, contudo, a situação degringolou. Ottavio Bianchi não gostava do excesso de rivalidade entre Roma e Lazio e, dizem as más línguas, também era contestado por políticos – Ciarrapico era próximo da Democracia Cristã, partido que governava a Itália. Em novembro de 1992, depois de deixar a Roma, o lombardo retornaria para ajudar o Napoli, que iniciava uma longa crise, que resultaria em falência. Depois de deixar o clube no meio da tabela em 1992-93, na temporada seguinte assumiu o cargo de manager azzurro, enquanto Marcello Lippi era o treinador em campo.

A experiência deu certo – o Napoli foi sexto colocado –, mas não foi duradoura. Em 1994, Ernesto Pellegrini convidou Bianchi para assumir a Inter e a proposta seduziu o lombardo, que ficaria próximo de sua cidade novamente. Contudo, em fevereiro de 1995, a sociedade mudou de mãos: Massimo Moratti adquiriu a Beneamata. O novo mandatário deu prosseguimento ao trabalho do treinador mesmo após a sexta colocação na Serie A, mas decidiu demiti-lo após uma derrota para o Napoli na quarta rodada do campeonato posterior. Foi a única demissão da carreira de Bianchi.

Bianchi ficou afastado do futebol até 2001. Quando todos já pensavam que Ottavio havia se aposentado, ele retornou à ribalta como responsável pelo futebol da Fiorentina, em março daquele ano. Em janeiro, após a demissão de Roberto Mancini, o veterano assumiu o comando do time na expectativa de tentar salvá-lo do rebaixamento, mas só ficou 11 rodadas. Apareceu uma missão mais importante: ser presidente da agremiação, que vivia um caos societário e faliria pouco depois. Bianchi não pode salvá-la nem da queda nem da bancarrota.

Com uma última experiência tão traumática, Bianchi se cansou do futebol e, antes mesmo de completar 60 anos, se retirou do mundo da bola. O arrependimento pela ida a Florença parece ter contaminado o seu pensamento futebolístico, já que, nos anos seguintes, deu entrevistas amarguradas sobre o esporte – em suma, diz que não se entusiasma com o que é praticado atualmente. Não se apegou a experiências positivas, como ter lançado tantos jovens jogadores, ter sido campeão italiano e, principalmente, ter sido um dos instrumentos do divino.

Ottavio Bianchi
Nascimento: 6 de outubro de 1943, em Brescia, Itália
Clubes como jogador: Brescia (1960-1966), Napoli (1966-1971), Atalanta (1971-1973), Milan (1973-1974), Cagliari (1974-1975) e Spal (1975-1977)
Clubes como treinador: Siena (1978-1979), Mantova (1979-1980), Triestina (1980-1981), Atalanta (1981-1983), Avellino (1983-1984), Como (1984-1985), Napoli (1985-1989 e 1992-1994), Roma (1990-1992), Inter (1994-1995) e Fiorentina (2002)
Títulos como jogador: Serie B (1965)
Títulos como treinador: Serie C1 (1982), Serie A (1987), Coppa Italia (1987 e 1991) e Copa Uefa (1989)
Seleção italiana: 2 jogos

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