Liga dos Campeões

Magia, espetáculo e bravura: gladiadores da Roma dão o troco no Barça e fazem história

Old Trafford, 10 de abril de 2007: pelas quartas de final da Liga dos Campeões, o Manchester United de Sir Alex Ferguson recebia a Roma e aplicava um 7 a 1 sobre a equipe italiana, eliminando-a da competição. No ano seguinte, os italianos tiveram a chance da revanche na mesma fase do torneio, mas perderam os dois confrontos contra os Red Devils. Uma década depois, a Roma voltava às quartas e teria pela frente um duro adversário: o Barcelona de Messi e Suárez, que também tinha a melhor defesa da Europa. Os jornais catalães vaticinaram: a Roma era “o adversário que o Barça queria”, um “bombom” num “pote de ouro”. Um 4 a 1 no Camp Nou consumava a quarta derrota consecutiva do capitolinos neste estágio da competição e parecia encerrar a eliminatória, dando razão aos tabloides.

A equipe da Cidade Eterna, tão acostumada a levar viradas inacreditáveis, escreveu uma história diferente desta vez. Num 10 de abril, 11 anos depois de ser humilhada em Manchester, a Roma fez – diante dos olhos de Sir Alex Ferguson, carrasco na Inglaterra e presente no Olímpico nesta noite – a melhor partida de sua história numa competição europeia e conseguiu uma improvável e mágica classificação. Colocando o Barça nas cordas e impondo seu futebol, o time de Di Francesco fez 3 a 0 graças a dois jogadores que marcaram gols contra na Catalunha – De Rossi e Manolas – e a outro (Dzeko) que quase foi negociado com o Chelsea em janeiro. Um roteiro incrível, escrito em coautoria a um Olímpico lotado, que empurrou o time o tempo inteiro. A grande beleza, sem ironias e com final feliz: a Roma chegou às semifinais da Champions League pela segunda vez, igualando o feito de 1984, quando tinha Falcão e Toninho Cerezo em seu elenco e foi finalista contra o Liverpool.

Di Francesco surpreendeu ao escalar a Roma num 3-5-2, com Juan Jesus na defesa e Dzeko e Schick no comando do ataque. A formação, que não tinha sido antecipada pela imprensa, tinha como objetivo isolar Messi numa área do campo, deixando-o longe do gol. Funcionou: o craque argentino pouco pegou na bola, ficou limitado quase sempre ao flanco direito e só arrematou (mal) em chutes de fora da área. A postura do time romano também foi diferente da demonstrada no Camp Nou, ocasião em que cedeu mais campo para o Barça. Dessa vez, a Roma adiantou muito a marcação e sufocou a saída de bola da equipe blaugrana, que precisou rifar a bola muitas vezes. As maiores chances dos visitantes aconteceram em cobranças de tiro de meta de Ter Stegen para Suárez brigar com os zagueiros.

Romanos e romanistas pela Roma: De Rossi e Florenzi foram maiúsculos (Getty)

Logo aos 6 minutos, a Roma mostrou que era possível – e que o roteiro incluiria a redenção do capitão De Rossi. O camisa 16 encontrou Dzeko com um lançamento primoroso, nas costas da defesa barcelonista. O bósnio aproveitou a falha de Umtiti e a débil corrida de Jordi Alba para dominar com a perna direita e concluir com a esquerda, na saída de Ter Stegen. Ainda no primeiro tempo, os giallorossi poderiam ter construído uma vantagem maior, mas Schick – positivo nesta noite – não conseguiu aproveitar três ótimas chances e Ter Stegen colocou para escanteio uma bela cabeçada de Dzeko. Assim como na Catalunha, a Roma fazia um primeiro tempo interessante. Desta vez, porém, ia para os vestiários em vantagem.

Não demorou muito para que a Roma ampliasse o placar. Na primeira boa chance da segunda etapa, Dzeko recebeu a bola na grande área, marcado apenas por Piqué, e quando ia deixando o zagueiro para trás, foi derrubado de forma acintosa – por incrível que pareça, o árbitro Clément Turpin só assinalou a penalidade porque foi alertado pelo auxiliar de linha de fundo. Na cobrança, De Rossi colocou no cantinho e tirou de Ter Stegen, que ainda acertou o lado.

Precisando de apenas um gol para conseguir seu milagre, a Roma pressionou ainda mais o Barcelona. Ainda que, em contra-ataques, Fazio e Juan Jesus tenham corrido o risco de levar o segundo cartão amarelo e serem expulsos, o time da casa continuou mandando no jogo e empurrando para seu próprio campo um Barcelona sem vocação defensiva e sem peças para segurar o resultado.

O técnico Valverde não mexia, mas Di Francesco sim: soube usar o banco de reservas e sacou Schick e Nainggolan para lançar Ünder e El Shaarawy. Com velocidade pelos lados, segurou mais ainda o ímpeto do Barça e explorou as costas de Alba e Semedo, simplesmente atônitos nesta noite. Em cruzamentos no segundo pau, em cima dos laterais, a Roma assustou bastante e só não ampliou por meros detalhes: além da cabeçada de Dzeko, na primeira etapa, De Rossi errou o gol por centímetros e o Pequeno Faraó obrigou Ter Stegen a mostrar grande tempo de reação.

Aos 82, veio o gol que fez o narrador Carlo Zampa e toda a torcida da Roma enlouquecerem de alegria. Ünder cavou escanteio em jogada com Umtiti e foi o responsável por levantar a bola na cabeça de Manolas, que fugiu da marcação do próprio zagueiro francês e cabeceou com efeito, sem dar qualquer chance de defesa a Ter Stegen. Depois de sofrer o terceiro, Valverde colocou Dembelé e Paco Alcácer em campo para buscar o gol que evitaria a queda nas quartas de final. Alisson finalmente apareceu no jogo, mas mesmo assim não teve trabalho com grandes defesas – na melhor delas, teve de travar Piqué, impedido, na intermediária.

A classificação romanista foi enorme, sob qualquer perspectiva. Na frieza dos números, o time de Di Francesco (somando ida e volta), marcou quatro gols sobre o Barcelona, que havia sofrido apenas dois em toda a Liga dos Campeões e 18 em toda a temporada – também só fora vazado pelo menos duas vezes em um único jogo uma vez em 2017-18. Em mata-matas europeus, equipes que fizeram 4 a 1 na ida se classificaram em 90% das vezes, e a equipe catalã havia avançado em 38 dos 41 mata-matas europeus em que venceu o primeiro jogo em casa. O placar agregado de três gols contrários foi o maior que a Roma superou em torneios europeus.

Do ponto de vista sentimental, o orgulho romanista falou mais alto e o status de “rometta” pode ter sido definitivamente enterrado no cemitério dos preconceitos futebolísticos. Um divisor de águas na história do clube, portanto. Hoje, o torcedor celebra as redenções de De Rossi e Manolas, a personalidade de Dzeko, a bravura de um impecável Florenzi. Se torna realidade o sonho de deixar para trás um dos favoritos, com elenco mais estrelado e cheio de cifrões, numa competição em que pelo menos dois entre Barcelona, Real Madrid e Bayern Munique haviam sido semifinalistas nos nove últimos anos.

Tudo isso acontece logo na campanha seguinte à aposentadoria de seu maior ídolo, Francesco Totti. Com seu eterno camisa 10 atuando como diretor, a Roma chegou mais longe do que em 25 anos com ele em campo e faz, no mínimo, a sua segunda melhor campanha na Champions League. Um feito que fez até mesmo o presidente do clube, o ítalo-americano James Pallotta, se banhar junto com a torcida numa das inúmeras fontes da capital italiana. Uma noite eterna na Cidade Eterna.

1 comentário

  • Simplesmente épico!
    Apesar de acompanhar mais a Internazionale eu sempre gostei da Roma, principalmente pelo Totti… fiquei muito feliz com essa classificação, e claro q estou na torcida pelo time da capital nessa champions.

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