Liga dos Campeões

Fúria com a arbitragem e um épico inacabado: a noite da Juventus no Santiago Bernabéu

Cristiano Ronaldo conseguiu: chegou a 10 gols em sete partidas contra a Juventus e a 15 nesta edição da Liga dos Campeões. O português classificou o Real Madrid para as semifinais da competição. Este é o fim da história, mas os 97 outros minutos de jogo no Santiago Bernabéu contaram uma outra versão dos fatos. Até a (extremamente discutível) penalidade assinalada pelo árbitro Michael Oliver a 15 segundos do apito final, a Velha Senhora ia fazendo uma partida perfeita e, com um 3 a 0, devolvia o placar do jogo de ida e levava o duelo para a prorrogação. Com o 3 a 1, a fatura foi liquidada e a Juve protagonizou um raríssimo caso de time que deixa o estádio madrilenho insatisfeito após uma vitória por tal placar.

Como se estivesse inspirada pela virada milagrosa da Roma, a Juventus começou o jogo a todo o vapor. Com 76 segundos, a Velha Senhora já vencia por 1 a 0, graças a uma fórmula que foi utilizada durante toda a noite de quarta: cruzamentos na área a partir do espaço dado por Marcelo. A maioria dessas bolas levantadas chegava a Mandzukic, que superava Carvajal com facilidade nas jogadas aéreas. No primeiro gol, anotado pelo croata, o lateral direito nem mesmo estava perto para evitar que o lançamento de Khedira encontrasse o camisa 17.

O gol prematuro deixou a etapa inicial frenética. A Juve ameaçou com Higuaín e Mandzukic, mas Navas estava bem colocado. Assim como Buffon, que foi providencial diante de Bale e Ronaldo e só não conseguiu defender a cavadinha de Isco – no entanto, o gol foi anulado por impedimento. Gigi voltou a fazer uma intervenção fenomenal diante do próprio Isco, pouco depois, mas foi a Juve que chegou ao segundo.

Lichtsteiner, que substituíra De Sciglio aos 17 minutos, teve todo o tempo e o espaço do mundo para calcular e calibrar um cruzamento perfeito para Mandzukic cabecear para as redes, sem chances para Navas. Super Mario se tornou, assim, o primeiro jogador a marcar dois gols num primeiro tempo de Champions League contra o Real Madrid no Bernabéu.

Varane até acertou o travessão no final do primeiro tempo, mas Zidane estava insatisfeito com o que via. Zizou sacou Casemiro e Bale para dar lugar a Vázquez e Asensio: uma das alterações mudou o jogo, mas não pela atuação em si. O Real Madrid até equilibrou o jogo após o intervalo, mas, aos 61 minutos, Navas largou um cruzamento de Douglas Costa nos pés de Matuidi, que aproveitou e marcou o gol que levaria a partida para a prorrogação.

Mandzukic foi o coração da Juve em Madrid (Getty)

Após abrir 3 a 0, a Juventus ficou mais cautelosa e dosou mais os momentos de partir para o ataque, enquanto Buffon continuava dando segurança na defesa. A melhor chance do Real Madrid saiu dos pés de Varane, que tentou finalizar girando e assustou, com um chute à esquerda do gol. Aos 92 minutos de bola rolando já dava para cravar: a Juve vencia pela quinta vez em sua história na Espanha, país em que tem um retrospecto negativo, e vingava a pior derrota sofrida no Allianz Stadium. Só faltava saber se o Real cairia pela terceira vez em um mata-mata Uefa após vencer seu primeiro jogo fora de casa e se Ronaldo passaria em branco pela primeira vez na carreira.

Foi aí que o árbitro Michael Oliver apareceu e enfureceu os juventinos. Faltando 15 segundos para o final dos acréscimos concedidos por ele, o inglês interpretou que o contato entre Benatia e Vázquez na linha da pequena área era digno de pênalti. Um lance interpretativo, mas que, em nossa visão, o espanhol valoriza: ao notar o mínimo contato do zagueiro marroquino, ele opta por não dar prosseguimento à jogada e deixa seu corpo cair. Corroboramos as palavras de Felipe Rolim, comentarista do Esporte Interativo: “Muito contato muito mais forte [no meio-campo] passou, para o bem da dinâmica do jogo. Nesse contexto, ele traiu a sua própria arbitragem”. Ronaldo converteu a penalidade e o resto é história.

A revolta dos juventinos foi encampada principalmente por Buffon, um jogador habitualmente leal e educado com adversários e representantes da arbitragem. Dessa vez, Gigi partiu para cima de Oliver, reclamou e xingou muito e parece até ter tido contato físico intencional com o apitador. Foi expulso e mandou um “vá cagar!” para o juiz depois de levar o vermelho – Higuaín teve de dar lugar a Szczesny nos segundos derradeiros da peleja.

Ao fim da partida, Buffon foi mais duro ainda com Oliver. “Quem faz esse tipo de coisas não é um homem, é um animal. Um árbitro não pode dar um pênalti desses a menos que, no lugar do coração, tenha uma lata de lixo. Se ele não tiver personalidade e for incapaz de apitar um jogo neste nível, é melhor comprar umas batatinhas e ficar vendo o espetáculo com a família nas arquibancadas”, exasperou. Mesmo assim, Gigi declarou que o Real Madrid foi melhor que a Juve no confronto e que mereceu a classificação.

Os diretores da equipe bianconera também pesaram a mão nas críticas. Andrea Agnelli, presidente da Juve, chamou Pierluigi Collina (chefe da arbitragem da Uefa) de “vaidoso” e afirmou que suas escolhas de árbitros acabavam por prejudicar a Juventus. “Talvez faça essas escolhas para demonstrar imparcialidade”, disse. Agnelli ainda defendeu que a chefia seja mudada de três em três anos e que a Uefa utilize o VAR nas competições continentais.

Ironicamente, a Juventus (tão crítica à implementação da arbitragem de vídeo na Itália e a seus critérios de utilização) termina esta quarta-feira exigindo à entidade que a tecnologia seja usada na Champions League. Também não deixa de ser irônico que um time que já foi tão beneficiado pela arbitragem em sua história (como qualquer outro clube grande da Itália e do mundo), se despeça de um torneio com influência tão grande dela: com o 3 a 0, ainda teríamos uma prorrogação em que tudo poderia acontecer, mas a penalidade e a expulsão decretaram a passagem do Real Madrid. Mesmo com o banho de água fria no final, a Juventus pode levar boas lições do Bernabéu: a atuação foi estrepitosa e tem potencial tanto para ser lembrada por anos quanto para ser utilizada como combustível para o restante da campanha na Serie A.

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