Serie A

Di Francesco tentou de tudo, mas foi triturado por uma Roma comprometida com cifrões

No futebol, seja no Brasil, Inglaterra, Itália ou em qualquer outro lugar do mundo, uma dos efeitos gerados pelo mau momento de um time é a formação do consenso de que alguma mudança importante precisa acontecer. Alterações podem ser feitas dentro da equipe, na direção de futebol, mas na maioria dos casos é o treinador que paga o preço. Eusebio Di Francesco pagou por estar à frente de uma Roma sem consistência, que após feitos memoráveis em 2017-18, conseguiu romadas com frequência e derrotas desgastantes na atual temporada.

DiFra comandou a Roma em 87 jogos e terminou sua trajetória como técnico da Loba com 59,7% de aproveitamento – 46 vitórias, 18 empates e 23 derrotas. Sua possível demissão era assunto em Trigoria há pelo menos três meses e foi confirmada nesta quarta-feira (7 de março), no dia seguinte à eliminação da equipe na Champions League, na fase de oitavas de final, para o Porto, e menos de uma semana depois de uma impactante derrota por 3 a 0 no clássico contra a Lazio, na Serie A.

Além da eliminação nas oitavas de final da LC, o treinador deixa o time giallorosso na quinta colocação do Campeonato Italiano e apenas na briga por uma vaga em competições europeias. Na Coppa Italia, os comandados de Di Francesco foram massacrados pela Fiorentina por 7 a 1, e caíram nas quartas. A escassez de resultados fez com que EDF se tornasse a terceira demissão da era Pallota: em 2013, Zdenek Zeman deu espaço ao auxiliar Aurelio Andreazzoli e, em 2016, Luciano Spalletti ocupou o cargo após a saída de Rudi Garcia.

Sem títulos, a Roma de DiFra será lembrada por vários pontos. Por um lado, pelas vitórias na Champions League de 2017-18, competição na qual a Roma caiu nas semifinais, 34 anos depois de ter ido tão longe no torneio. O feito rendeu a renovação do contrato do treinador até julho de 2020, mas sua assinatura não teve nada de scripta manent: equiparado a mera verba volant, o vínculo firmado foi encerrado um ano e três meses antes do que deveria.

A histórica virada sobre o Barcelona, com reversão da goleada por 4 a 1, no Camp Nou, graças a um triunfo por 3 a 0, no Olímpico, talvez tenha sido o melhor momento do comandante. Também podem ser citados os jogos contra o Chelsea, na fase de grupos da Champions League de 2017-18: empate com o time inglês, no Stamford Bridge por 3 a 3, após iniciar perdendo, e vitória no Olímpico por 3 a 0. Outros jogos de destaque foram os triunfos contra o Napoli, com doppietta de Dzeko, em 2018, e no Derby Della Capitale do primeiro turno da atual edição da Serie A.

O bom filho à casa torna: Ranieri substitui Di Francesco (EPA)

A saída de DiFra não foi totalmente celebrada por todos os torcedores, como pode ser conferido nos comentários do tweet que anunciou oficialmente a rescisão. O motivo para a bronca de parte da torcida é o fato de que o técnico pagou por erros que não foram cometidos por ele. O presidente, James Pallotta, e o diretor de futebol, Monchi, negociaram as saídas de Nainggolan e Strootman, líderes em campo, que tiveram impactos negativos no estilo de jogo do time. Reposições foram contratadas e o time ganhou 12 novos atletas, mas poucos deles se adaptaram da forma esperada. Por conta de lesões, que marcaram boa parte da atual temporada, o treinador teve que se adaptar a uma nova realidade a cada partida. Não conseguiu, mesmo alterando sistemas e jogadores, que não renderam.

Outros pontos que ajudaram a colocar DiFra na corda bamba foram as falhas de atletas importantes, a falta de mentalidade vencedora no elenco e os problemas coletivos e estruturais no sistema de jogo, em especial na defesa e na avareza de ideias do time, que muitas vezes não demonstrava saber o que fazer com a bola.  Sem dúvidas, os inúmeros desacertos na defesa, que sofreu 108 gols em 87 jogos e protagonizou derrotas vexatórias e empates inexplicáveis, foram os mais preponderantes para o fim do trabalho.

Espaços no sistema defensivos ou gols após jogadas de bola parada sempre são aproveitados por adversários – é fácil ficar consagrado em jogos contra a Roma. Essa será a primeira missão que o novo técnico da Loba terá que solucionar e, talvez por isso, Claudio Ranieri era o mais cotado para assumir a Maggica. Nomes como os de Paulo Sousa, Antonio Conte e Vincenzo Montella sempre estiveram à sombra de EDF, mas a direção da Loba optou pela experiência da velha guarda. O ex-comandante da equipe assinou nesta sexta-feira (8) um vínculo de três meses e é a alternativa experiente e caseira encontrada pelos giallorossi.

Ranieri comandou a Roma entre 2009 e 2011, acumulando 84 jogos e 62,3% de aproveitamento. Romanista convicto, ele deve fazer o básico e tentar arrumar o sistema defensivo da Loba. Restando 11 rodadas para o término da Serie A, a Maggica tem como objetivo seguir brigando por uma vaga nas competições europeias: a Liga dos Campeões é o foco e a Liga Europa é o prêmio de consolação. A distância para a Inter, quarta colocada, é de três pontos – a mesma para o sétimo colocado, Torino, que possui o mesmo objetivo da equipe capitolina.

O problema da Roma, no entanto, está longe de ser solucionado. Mudanças certamente vão ocorrer na Loba, visando a próxima temporada, e o futuro é uma incógnita. Monchi era cotado para deixar o cargo de diretor de futebol no final da temporada, mas sua saída foi confirmada um pouco antes do anúncio do acerto com Ranieri. Tudo isso terá impacto em mais uma reformulação que a Maggica passará na próxima janela de verão. Saídas e chegadas devem movimentar o mercado do time capitolino, que também encontra obstáculos na mentalidade da direção do clube. Pallotta diz que quer fazer a Roma competitiva, mas não perde oportunidades de negociar seus principais jogadores.

A máscara está caindo? Antes idolatrados, Monchi e Pallotta são duramente criticados pelos romanistas: o espanhol chegou a ser demitido (Roma Press)

Desde a saída de Fabio Capello (2004), a Roma não consegue encontrar um comandante que dê resultados expressivos em campo. Luciano Spalletti foi o único que conseguiu conquistar títulos desde então: a Coppa Italia, em 2007 e 2008, e a Supercopa Italiana de 2007. Contudo, não foi unanimidade nas duas passagens que teve, sobretudo pelos atritos com Totti. A direção do clube não parece ter ideia do que fazer para encontrar o profissional que conduza a equipe a um patamar mais elevado.

A ideia de que a Roma terá um novo estádio serve como cortina de fumaça para os problemas graves no futebol da agremiação. Não há planos para os jovens que foram contratados com expectativa de se tornarem estrelas, como é o caso do holandês Justin Kluivert, que perdeu espaço no time. A incensada categoria de base não é aproveitada como deveria: entre os jovens remanescentes no elenco, o meia Riccardi foi o único que recebeu oportunidades, em 8 minutos na vitória sobre Virtus Entella na Coppa Italia. Mais experientes, De Rossi, Pellegrini e Florenzi são as únicas crias de Trigoria do elenco. Ao mesmo tempo, os líderes em campo não parecem suportar mais a pressão – Florenzi e Kolarov já bateram de frente com ultras; Dzeko e De Rossi, se esforçam, mas não conseguem mostrar mais porque são referências.

O último scudetto da Roma (2001) teve como marca o investimento. Samuel (ex-Boca Juniors), Emerson (ex-Bayer Leverkusen) e Batistuta (ex-Fiorentina) são três exemplos de contratações feitas pelo presidente Franco Sensi e mostram como o falecido dirigente pensava primeiro nos resultados de campo. DiFra fez parte do grupo campeão italiano e, por ter participado de principal conquista do clube em quase 40 anos, tem imagem positiva no clube. Hoje, Pallotta não tem o mesmo parecer: em primeiro lugar, coloca o lucro financeiro. Assim, a Roma seguirá mais um ano no zero e sem perspectivas positivas, dentro de campo, para os próximos anos.

Enquanto o presidente pensar assim, produzirá mais casos de insucesso, como o protagonizado por Di Francesco. Como citamos, não por culpa exclusivamente sua. O técnico tentou quase tudo: alternou sistemas, mudou peças, buscou retomar a confiança do elenco, mas não resistiu às mudanças que tiveram impacto no seu estilo de jogo. Se fosse uma gestão de elenco ruim, talvez Manolas, Ünder e Zaniolo não viriam a público elogiar a passagem do treinador e agradecer pelas oportunidades dadas por ele – ainda que isso costume ser atitude protocolar em casos de demissão de treinadores.

Mais do que um nome que vá mudar o patamar da Roma, a direção capitolina precisa alterar a mentalidade da agremiação. É preciso reconstruir o time com qualidade em torno, por exemplo, do jovem Zaniolo. Apostas são necessárias, mas figuras de peso também – que estejam fisicamente aptas, ao contrário de Pastore. É preciso pensar em resultados frondosos e não apenas em contas repletas de dígitos no azul, caso contrário mais demissões vão acontecer e outras temporadas servirão de marco zero. A Roma, vale lembrar, completa no dia 24 de maio, 11 anos sem levantar um caneco: o último foi o da Coppa Italia, em 2008.

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