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O goleiro Pier Luigi Pizzaballa foi o dono da figurinha mais rara dos álbuns Panini



“Você tem a do Pizzaballa?” foi uma pergunta muito comum nos anos 1960. Tão procurado, mas raras vezes encontrado, o tal Pier Luigi Pizzaballa, com seu nome sonoro e curioso. Um nome e sempre a mesma história, que remetia ao álbum de figurinhas da Serie A feito pela Panini e à triste constatação: “te falta Pizzaballa”. Os colecionadores necessitavam de seu cromo e, muitas vezes, somente do seu. Ele era o número 1 e foi um profissional exemplar, que teve longa carreira e defendeu as metas de Atalanta, Verona, Roma e Milan.

Entre milhares de torcedores atalantinos que desejam assistir à conquista de um troféu pelos nerazzurri, Pier Luigi Pizzaballa é um dos poucos que conseguiu levantar uma taça com a camisa da Atalanta. Duas vezes, inclusive: faturou uma Serie B, em 1959, e uma Coppa Italia, em 1963. Uma grande retribuição à cidade em que nasceu.

Nascido durante a II Guerra Mundial, Pizzaballa iniciou sua trajetória esportiva pouco depois do final do conflito. Seus primeiros passos, aos 11 anos, ocorreram na base do Verdello, pequeno time de comuna homônima localizada na província de Bérgamo. Para o goleiro, nessa época, o futebol era um jogo de emoções, e não um trabalho. Sua ocupação principal era na mercearia da família, em Verdello, onde ele era aprendiz. Um padre do vilarejo, Dom Antonio, era quem o levava para os testes em equipes da região, em uma Guzzi Falcone de dois lugares.

O religioso chegava por trás da mercearia, empurrando a moto desligada e chamava Gigi, orientando-o a ir até ele em silêncio, com cuidado. Pizzaballa tirava o avental discretamente, saía escondido, subia na Guzzi e os dois iam em direção a Bérgamo, Milão ou Brescia. Até mesmo no inverno. Nos dias de tempo ruim, Dom Antonio dirigia com jornais e revistas no peito para cortar o vento. A batina esvoaçante do pároco protegia o menino.

Em jogo válido pela Serie A, Pizzaballa, da Atalanta, encara a Juventus (Eco di Bergamo)

Pizzaballa superou as baterias de testes e conseguiu espaço no futebol profissional. Gigi se lançou na Atalanta, que na época era uma equipe de pequeno porte do futebol italiano, inicialmente como opção a Zaccaria Cometti. Com o passar dos anos, o arqueiro deixou a reserva para revezar com o titular e, com o destaque, se tornou titular dos orobici.

Seu lugar era mesmo debaixo das traves, onde voava e se comportava quase como um trapezista. O risco era o seu alimento – e goleiros arriscam muito. Assumir e manter o seu sobrenome, de certa forma, foi como dar um salto mortal numa apresentação circense. Logo que estreou na Serie A, um jornalista caçoou de Gigi e disse que, com um nome daqueles, ele não iria longe. “Se liga: Pizzaballa… Dá até vontade de rir um pouco”. Mas ele não mudou.

Pizzaballa, como número 1 da Atalanta, começou a se tornar um dos protagonistas do time. Em 1962-63, ainda revezando com Cometti, o bergamasco atuou na maior parte dos jogos da Coppa Italia, conquistada com vitória sobre o Torino. Naquele período, aprendeu muito com Carlo Ceresoli, que fora goleiro na campanha do título da Itália no Mundial de 1938 e era preparador de goleiros dos nerazzurri. Foi o seu mestre.

Na temporada 1964-65, Gigi levou o Prêmio Combi de melhor goleiro da temporada. As atuações de Pizzaballa mantiveram o nível no ano seguinte e lhe deixaram no radar de Edmondo Fabbri, técnico da seleção italiana, que o convocou para ser o terceiro arqueiro da Nazionale para a Copa de 1966, disputada na Inglaterra. Como Enrico Albertosi e Roberto Anzolin estavam à sua frente na hierarquia, o bergamasco não chegou a entrar em campo na vexatória campanha dos azzurri, que acabaram eliminados pela surpreendente Coreia do Norte. A única aparição de Pizzaballa pela Itália aconteceu num amistoso contra a Áustria, antes do Mundial.

Além de ter sido ídolo da Atalanta, Pizzaballa teve boa passagem pelo Verona, nos anos 1970 (Hellas Live)

Em 1966, depois da expedição à Grã-Bretanha, Pizzaballa deixou a Atalanta e se juntou à Roma, equipe em que foi titular por um triênio e conquistou mais uma Coppa Italia, em 1969. Nesse período, o goleiro foi treinado por Oronzo Pugliese, técnico conhecido por frases de efeito e grande capacidade de motivar seus comandados. Depois da chegada de Helenio Herrera, Gigi foi perdendo espaço e se transferiu para o Verona, onde permaneceu até 1973.

Pizzaballa foi o goleiro do time conhecido como “fatal Verona”, que tirou o scudetto do Milan após uma vitória por 5 a 3 – e fez nascer a rivalidade entre os times, em 1973. O Hellas marcava um gol atrás do outro, o Milan perdia o título, mas ele só pensava na Atalanta, que estava caindo para Serie B. Quando seus companheiros subiam para o ataque, ele chegava perto do rádio de um gandula pra prestar atenção na partida do time de Bérgamo. Seu treinador, Giancarlo Cadè, gritava: “Pizza, fique atento, se concentre!”. E ele respondia: “sim, a tempo, antes que o Milan chegue”! Naquele domingo, a Atalanta acabaria rebaixada e Gigi deixaria o gramado entristecido, apesar do triunfo dos mastini.

Depois de três anos no Verona, um acesso à elite e um vice de Coppa Italia, Pizzaballa se transferiu exatamente para o Milan. Aos 32 anos, seria reserva de Villiam Vecchi e depois foi opção novamente a Albertosi. Sua passagem pelo Diavolo durou até 1976, quando voltou à Atalanta. Gigi atuou mais quatro temporadas pela Dea, conquistou um outro acesso à elite e encerrou sua carreira com quase 41 anos. No total, fez 275 partidas pela Serie A.

Pizzaballa jogou num tempo concorrido para goleiros. Além dos já citados Albertosi, Anzolin e Vecchi, Gigi brigou por espaço na seleção com Carlo Mattrel, Giuliano Sarti, Lido Vieri e Dino Zoff. “Estava em boa companhia, mas eles eram melhores. Talvez eu não tenha tido muita sorte quem sabe poderia ter feito melhor. Mas não me lamento. Joguei no time da minha cidade. Comecei e terminei lá. Passei por Roma, Verona e Milão”, pontuou em entrevista ao site Storie di Calcio.

Pizzaballa e sua raríssima figurinha: encontro inesperado (Eco di Bergamo)

Pizzaballa, no entanto, se tornou – indubitavelmente – mais conhecido pelo culto à sua mítica figurinha, do álbum Panini da Serie A 1963-64. Ele era o cromo número 1 da publicação, já que era goleiro e jogava na Atalanta, a primeira equipe, por ordem alfabética. Colecionadores de toda a Itália corriam atrás do retângulo com sua imagem, mas por dois meses era impossível encontrá-la.

O motivo? Gigi estava machucado e não pode participar das sessões fotográficas que antecederam a confecção do livrinho, o que atrasou a disponibilização da figurinha. Essa história chegou até a inspirar o livro “Pizzaballa ti odio” (“Pizzaballa, te odeio”, em tradução livre), escrito por Massimo Volpi.

Até hoje, reportagens colocam a figurinha de Pizzaballa como a mais preciosa do mundo futebolístico. Por causa dessa raridade, Gigi chegou até a aparecer na televisão, em 2010. Naquela ocasião, o ex-goleiro participou do programa “Soliti ignoti”, um game show em que os participantes tinham que adivinhar, com algumas dicas, as profissões ou as particularidades de personagens trazidos ao palco pela produção.

A resposta correta era “a figurinha mais procurada”, mas a concorrente chutou bem longe depois que soube que ele era de Bérgamo e viu suas mãos calejadas: pensou que ele era agricultor e cultivava batatas. Pensando bem, o erro não foi tão crasso assim. Depois de se aposentar, Pizzaballa virou produtor de vinhos.

Mas voltemos ao futebol para encerrar. Cá entre nós, não espalha… Você tem a do Pizzaballa?

Pier Luigi Pizzaballa
Nascimento: 14 de setembro de 1939, em Bérgamo, Itália
Posição: goleiro
Clubes: Atalanta (1958-66 e 1976-80), Roma (1966-69), Verona (1969-73) e Milan (1973-76)
Títulos: Serie B (1959) e Coppa Italia (1963 e 1969)
Seleção italiana: 1 jogo



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