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Arcadio Venturi conquistou a Roma e foi seu capitão na década de 1950



Roma é conhecida pelo mundo como a Cidade Eterna. Tal status – o da eternidade – não difere do conquistado por ídolos da equipe amarela e vermelha da capital da Itália: os grandes romanistas costumam ficar marcados para sempre na história do clube, principalmente  por apresentarem forte identificação com a equipe. Alguns eram torcedores, a exemplo de Francesco Totti, Daniele De Rossi e Bruno Conti; outros adotaram a Loba e construíram trajetórias de amor e idolatria. É o caso de Arcadio Venturi.

O primeiro jogo de Venturi pela Roma ocorreu no dia 19 de setembro de 1948: vitória giallorossa por 2 a 1 sobre o Bologna. O meia esquerdo, no entanto, não fez boa partida, segundo o próprio confidenciou ao site da Roma em uma entrevista há quatro anos. Os jornais da época, porém, elogiaram a vontade do jovem atleta em campo. As loas ajudaram o jogador a se manter na equipe. A história de Venturi pela Roma conta 290 partidas, um título e 18 gols durante as nove temporadas em que atuou pelo time, entre 1948 e 1957. Seu nome está eternizado no Hall da Fama da equipe capitolina desde 2016.

O futebol foi desejo cultivado por Venturi desde criança, quando morava na província de Módena, em Vignola, sua cidade natal. No início era apenas uma atividade extra na sua rotina, como qualquer jovem que jogava na rua depois de concluir seus exercícios da escola. Só que não havia muitas bolas. O lance, na década de 1940, era se distrair com pelotas feitas de trapos.

Seu primeiro time foi a amadora Vignolese, que na época disputava uma Serie C bastante inchada, regionalizada e com 18 grupos, que abarcavam 288 participantes no total. O futebol profissional começou oficialmente para Venturi em 1948. Depois de um jogo-teste contra o Montecantini, os olheiros da Roma gostaram do que viram na atuação do meia e decidiram marcar outra partida para avaliação do jogador. Testes superados, Venturi assinou por duas temporadas e estreou pela Loba justamente na região da sua cidade natal.

Diante do Bologna, a Roma venceu por 2 a 1, com gols de Mauro Tontodonati e Bruno Pesaola, para a equipe da capital, e de Sauro Taiti para o time da casa. Venturi foi contratado junto à Vignolese por dois milhões de liras, com cláusula de mais três milhões, caso disputasse 34 jogos nas duas primeiras temporadas. Ele obteve o número de partidas no seu primeiro ano pela Loba.

Disputar as 34 partidas só foram possíveis por causa da confiança de Luigi Brunella, técnico da Roma em 1948-49. “Desde a vitória contra o Bologna o treinador não me tirou mais do time titular”, comentou o ex-meia ao site da Roma, em 2016, quando entrou no Hall da Fama do clube.

Além de se adaptar ao futebol profissional, Venturi precisou se ambientar à cidade. Se hoje você está lendo este perfil no seu celular ou notebook que também são utilizados para se comunicar, em Vignola no início da década de 1950 você precisava reservar um horário em uma central telefônica para conseguir efetuar uma ligação. Em Roma, no entanto, já existiam telefones em residências. Na sede do clube havia um, no restaurante, e era disponível para o elenco giallorosso. Assim Venturi começou a conviver com a modernidade da época.

O meia chegou à Roma após a disputa da II Guerra Mundial. A Itália vivia momentos de renascimento. Foi durante esse período que o meia não só assumiu a titularidade da equipe como a faixa de capitão. Até hoje o ex-jogador é lembrado como o “capitão dos anos 1950”. Uma curiosidade da época tem relação com os treinos. Lazio e Roma dividiam o Estádio Flaminio para atividades: biancocelestes pela manhã, giallorossi à tarde. Venturi pegava um ônibus para se locomover para a praça esportiva, onde treinava.

Em dérbi contra a Lazio, Venturi cumprimenta o austríaco Karl Kainer, que apitou algumas partidas da Serie A nos anos 1950 (Arquivo/Roma)

Apesar da empolgação de jogar pela Roma, o começo da história de Venturi com a equipe amarela e vermelha foi marcado pelo rebaixamento da equipe na segunda temporada do jogador pelo clube. A queda ficou ainda pior depois de a imprensa noticiar que colegas do meia estavam aproveitando as noites da capital. Parece familiar?

Venturi permaneceu na Roma, mesmo com proposta da Inter na mesa. A equipe da capital não abriu mão do meia e fez uma oferta de renovação mais vantajosa. O novo vínculo, de três anos, foi aceito. Não antes do aval de parte da torcida.

Certo dia, um colega levou o jogador em uma barbearia. Ninguém reconheceu Venturi, que já negociava para permanecer na capital. Do nada, esse colega disse para alguns torcedores que a Roma iria vender o meia à Inter e apontou o dedo para o giallorosso. Muitos gritaram “não, não e não” e ficam surpresos por estarem ao lado do atleta. Após a brincadeira, o colega falou para Venturi que a torcida estava do lado dele e não poderiam deixá-lo ser vendido para uma rival.

A temporada 1951-52 foi a que o Venturi mais marcou gols pela Loba: seis vezes em 37 jogos. Todos pela Serie B, na campanha do título da segunda divisão, o único que o jogador conquistou pelo clube. O meia já mostrava sua liderança ao assumir, quando Armando Tre Re não estava em campo, a braçadeira de capitão da Roma. A partir de 1953-54, o meia assumiu o posto no time até sua saída, no final de 1956-57.

Rotatividade entre jogadores não era uma das marcas da Roma. O meio-campo giallorosso enquanto Venturi atuou pela equipe foi formado, em sua maior parte no formato de quarteto, com Pietro Grosso, Amos Cardarelli e Egisto Pandolfini. Talvez a maior diferença entre eles era que Venturi, graças a sua versatilidade tática e espírito de sacrifício, atuava como meia pelos lados, à frente da defesa e até foi utilizado como lateral esquerdo. No período em que utilizou o manto amarelo e vermelho, vestiu as camisas 6, 8 e 10, que alternava conforme sua função na formação.

Ao longo da carreira, Venturi defendeu outros dois times: Inter e Brescia. O meia foi para o clube de Milão em 1957-58, por conta da necessidade da Roma de obter aumento nas receitas de transferências de jogadores. Na temporada seguinte, Egisto Pandolfini seguiu o mesmo caminho. Na época, Venturi já tinha comprado uma casa na capital e precisou iniciar “do zero” sua vida na cidade no norte italiano. Deu certo.

Depois da Inter, onde atuou em 57 jogos entre 1957 e 1960, Venturi foi vendido ao Brescia, clube em que pendurou as chuteiras em 1962, na Serie B, após 26 partidas. No entanto, a breve passagem por Milão fez com que Venturi mantivesse as portas abertas no clube. Anos à frente, já na década de 1970, o ex-jogador foi convidado para integrar a comissão técnica.

Na função de assistente técnico, Venturi ajudou a lapidar alguns atletas. O melhor exemplo é “apenas” o ex-zagueiro Giuseppe Bergomi, multicampeão pela equipe nerazzurra, eternizado no Hall da Fama do futebol italiano e campeão mundial pela Itália em 1982. Venturi também foi técnico na base da Inter e da Juventus, além de ter sido auxiliar de Giovanni Trapattoni em ambos os clubes. Antes de se despedir do futebol, o ex-meia foi gerente do Bologna.

Arcadio Venturi
Nascimento: 18 de maio de 1929, em Vignola, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Vignolese (1947-48), Roma (1948-57), Inter (1957-60) e Brescia (1960-62)
Títulos como jogador: Serie B (1951-52)
Clubes como técnico: Internazionale (categorias de base) e Juventus (categorias de base)
Seleção Italiana: 6 jogos e 1 gol



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