Serie A

Fundo de auxílio econômico a clubes italianos terá receitas de apostas esportivas



A pandemia de covid-19 impôs uma nova realidade para o planeta. Os desafios trazidos pelo coronavírus naturalmente se estendem ao futebol italiano, que está buscando se adequar aos mais rígidos parâmetros sanitários para retomar suas atividades e poder superar a crise econômica que atingiu o mundo.

O primeiro passo para atravessar a emergência é a volta aos gramados. Nesse sentido, após semanas de embates e alfinetadas, o Ministério do Esporte e da Juventude, na figura do ministro Vincenzo Spadafora, e a Federação Italiana de Futebol – FIGC, dirigida por Gabriele Gravina, chegaram a um consenso.

Os clubes profissionais voltaram a realizar treinamentos em grupo depois que um protocolo de segurança entregue pela entidade futebolística foi aprovado no início da semana. Todos os atletas e demais funcionários das equipes efetuaram exames sorológicos para atestarem que não estão contaminados pelo coronavírus. Os que tiveram resultado positivo aguardam em quarentena.

A FIGC está trabalhando para viabilizar a retomada das séries A e B da Itália na terceira semana de junho, mas isso ainda depende do aval do governo. O mesmo comitê técnico-científico que liberou os treinamentos monitora a situação e, até o dia 28 de maio, deve haver uma definição sobre as datas. As competições deverão ser encerradas até 20 de agosto e, se necessário, haverá playoffs e playouts para determinar campeões e rebaixados. No caso de impossibilidade de realização desses jogos de mata-mata, a classificação será congelada no momento da interrupção dos torneios e representará o seu resultado final.

Vincenzo Spadafora, ministro do Esporte e da Juventude (LaPresse)

Ao mesmo tempo em que os times se preparam para jogar futebol, também começam a ficar mais claras as modalidades de suporte que o governo dará ao esporte. O Decreto Rilancio, que determina o pacote de medidas de amparo para os setores da economia afetados pela pandemia, já concedeu, por exemplo, pagamentos de um auxílio emergencial de 600 euros mensais para trabalhadores do ramo, visando amenizar principalmente a situação delicada dos que não têm altos salários.

Para proteger a saúde financeira imediata dos clubes, o governo permitiu a suspensão e o parcelamento de algumas taxas, como a cobrança de aluguéis e arrendamentos de praças esportivas. Uma decisão importante, visto que a maior parte dos estádios italianos é de propriedade dos municípios. O grande projeto para o futuro, porém, é a criação de um fundo para o sistema desportivo nacional, a ser administrado pela pasta de Vincenzo Spadafora. Essas verbas virão do recolhimento de impostos relativos a apostas esportivas.

Gabriele Gravina propôs que 1% da receita de apostas gerada na Itália fosse destinado à FIGC, como forma de apoiar clubes profissionais e amadores. A ideia foi acolhida apenas parcialmente. A oferta inicial do governo era destinar 0,3% dos impostos até 2022, mas o decreto promulgado tem números diferentes: 0,5% por 18 meses, até dezembro de 2021.

A lei institui que o fundo “salva esporte” terá mínimo garantido de 40 milhões de euros neste ano e de mais 50 milhões no próximo. Caso a receita seja inferior ao estabelecido, o ministério irá realizar a transferência do valor restante com verbas que já estão em caixa, num fundo destinado ao Comitê Olímpico Italiano, o Coni.

Gabriele Gravina, presidente da FIGC (Getty)

Ao contrário do Brasil, onde a legalização das apostas ainda encontra entraves políticos para sua concretização, a Itália já possui um sistema amplamente regularizado para esse mercado, sendo explorado por diversos operadores privados. Em 2019, por exemplo, as apostas esportivas arrecadaram 430 milhões de euros em impostos no país europeu.

Como proposta complementar ao Decreto Rilancio, o governo prevê um acréscimo de 17% nas taxas cobradas das empresas de apostas, o que, segundo o site AgiproNews, dedicado aos jogos de azar, significará pelo menos mais 72 milhões de euros. Representantes do setor não ficaram contentes e, em nota conjunta, fizeram objeções ao plano.

Desde o início da crise provocada pelo coronavírus, a FIGC vêm tentando costurar uma alternativa que satisfaça, ao mesmo tempo, agremiações e casas de apostas. Os cartolas estão conscientes de que o futebol não é uma prioridade frente aos outros problemas da Itália e que cobrar aporte financeiro por parte do governo seria antipático. Por isso, consideram que uma boa saída seria a flexibilização de leis nacionais que proíbem a publicidade de apostas esportivas na Itália, bem como o seu patrocínio a clubes e competições.

O plano dos clubes seria conseguir uma liberação temporária, de apenas um ano, para que pudessem negociar patrocínios em troca de estampar as marcas das casas esportivas em seus uniformes. A ideia, porém, encontra resistência entre os políticos. O Movimento 5 Estrelas, que encabeça a coalizão governista, aprovou há alguns meses uma lei mais restritiva no que diz respeito a jogos de azar e não estaria disposto a voltar atrás.

De qualquer forma, o Decreto Rilancio é bem-vindo para o esporte. Sua edição põe uma luz sobre quais pontos ainda podem ser negociados e a expectativa é de que as próximas semanas tenham acenos de diálogo entre as partes.



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