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Covid-19: após pandemia, qual será o futuro financeiro da Serie A e de seus clubes?



A pandemia provocada pelo novo coronavírus é, sem dúvidas, um dos períodos mais difíceis que a humanidade atravessa desde a Segunda Guerra Mundial. Sem vacina nem cura até agora, em poucos meses o vírus Sars-Cov-2 se espalhou por todos os continentes, contaminou cerca de 1,5 milhão de pessoas e matou mais de 82 mil até a publicação desse texto, na madrugada de 8 de abril de 2020 – na Itália, os números passam de 135 mil casos e 17 mil óbitos.

Diante do cenário devastador causado pela Covid-19, é difícil pensar em esportes ou nas contas dos times de futebol. Porém, a última partida disputada na Serie A antes de sua suspensão, já com portões fechados, no dia 9 de março, deixou uma mensagem de superação. Francesco Caputo, centroavante da Sassuolo, comemorou um de seus gols mostrando às câmeras um papel que dizia que “andrà tutto bene” ou “vai ficar tudo bem”. Uma hora, sim, a situação irá se acalmar e a vida voltará, na medida do possível, à normalidade. Ainda que com perdas irreparáveis, o mundo seguirá em frente.

Sabendo disso, o setor administrativo dos clubes e das federações não parou. Todos estão pensando no que será do futebol durante essa crise e depois de seu fim, até porque existem muitos trabalhadores envolvidos que não ganham salários astronômicos e só conseguem levar o pão para casa com o salário que indiretamente vem do esporte, hoje parado completamente na esmagadora maioria dos países. As receitas com bilheteria foram zeradas e as outras receitas caíram drasticamente. Assim, todos os clubes se viram em uma situação complicadíssima: precisam continuar a pagar salários e todas as demais despesas, porém com receita bastante diminuída, já que parte considerável do dinheiro parou de chegar a seus cofres repentinamente.

Para piorar a situação, uma decisão coletiva sobre este ponto hoje parece ser inalcançável, dado que a disparidade entre divisões e até entre times da mesma divisão é grande demais para chegarmos em um acordo bom para todas as partes. Nesse aspecto, times grandes são os que sofrem menos, já que pagam salários astronômicos para seus jogadores, técnicos e altos diretores e os mesmos, voluntariamente, cortam parte de seu salário para os clubes poderem pagar empregados que ganham menos, como atletas da base, jogadoras do time feminino, estafe técnico e demais funcionários. Nenhuma estrela deixa de levar uma vida de luxo porque abriu mão de alguns cifrões.

Na medida em que o orçamento de uma agremiação diminui, porém, os problemas aumentam. Antes da pandemia, times pequenos em divisões de elite já necessitavam das receitas de bilheteria para pagarem seus jogadores e, mesmo com cortes voluntários, sua situação continuará sem solução. Equipes em divisões inferiores são as que mais sofrem nesta questão, já que os salários que seus jogadores recebem são equivalentes aos dos funcionários de clubes grandes. Ou seja, eles dependem deste dinheiro para manter suas famílias e pagarem seus aluguéis. Simplesmente não há espaço para cortes.

Estádios trancados e vazios representam um enorme baque nas finanças dos clubes (LaPresse)

Ter menos problemas com salários certamente não significa menos dores de cabeça para os gigantes do futebol europeu. Neste momento tão difícil, até os grandes sofrem com a turbulência dos mercados e, por conta de sua magnitude e atuação em mercados externos, deixam de ganhar milhões de euros em marketing – montantes com os quais contavam em seus planejamentos. Podemos usar a Juventus como exemplo desse baque. O time de Turim pode perder por volta de 64 milhões de euros apenas por causa da Covid-19, envolvendo receitas relativas a publicidade, bilheteria, TV e a suas ações na bolsa de valores. O time alvinegro tem parte de seu capital aberto para investidores, e por conta da queda brusca nos mercados, seu papel desvalorizou fortemente.

Giuseppe Marotta, dirigente da Inter, declarou que o futebol será outro quando voltarmos, com um volume de dinheiro bem menor em circulação, menos contratações e mais trocas de jogadores entre os times, como acontece na NBA, por exemplo. É um raciocínio plausível, visto que essa crise global afetará a todos, e o torcedor, com um poder aquisitivo menor, não poderá pagar o mesmo que paga hoje. Carlo Ancelotti, técnico do Everton, tem um pensamento similar ao do interista.

Ainda temos uma grande incerteza sobre qual será o futuro do campeonato atual. Se a temporada 2020-21 do futebol italiano for cancelada, os títulos das divisões não serão dados a nenhuma equipe ou ficarão para quem tiver mais pontos na mesma quantidade de partidas – sem falar na indefinição para a definição dos rebaixados ou das vagas europeias. Isso causará um tsunami de apelos à justiça desportiva e até aos tribunais comuns, com provável desfecho favorável aos requerentes e milhões de euros em indenizações.

Outro fator que causará um dano econômico gravíssimo serão as receitas de TV. Os contratos entre as ligas e as emissoras não preveem uma cláusula para um acontecimento tão excepcional, mas – de modo geral – Sky e DAZN pagaram milhões de euros no acordo para transmitirem as partidas entre 2018 e 2021. Caso muitos desses jogos não ocorram, sem um acordo entre a Liga da Serie A, as outras entidades e as donas dos direitos de transmissão, batalhas judiciais certamente ocorrerão. Segundo o site Calcio & Finanza, as 124 partidas restantes a serem transmitidas na primeira divisão totalizam 316 milhões de euros, um valor que certamente será levado em conta no momento de decisão do futuro da temporada 2019-20.

A Uefa, por sua vez, tem pouco poder no cenário atual, já que as medidas de combate ao coronavírus são de competência dos governos dos países e das regiões, de modo que a federação não tem qualquer ingerência sobre eles. Sua única zona de atuação será no Fair Play Financeiro e no calendário das competições, e em ambos, a Uefa se pronunciou, deixando aberta a possibilidade de mudar o calendário desta temporada e da próxima, e também de relaxar as regras do FFP para a próxima temporada – os acordos antigos não sofreriam alterações.

Caputo e sua mensagem de esperança (imago)

Além disso, não seria vantajoso entrar em atritos com as maiores ligas europeias, que representam os principais clubes do continente, teriam os prejuízos mais relevantes e parecem determinadas a evitá-los ao demonstrarem a intenção de concluir 2019-20 assim que o caos sanitário permitir. O caminho, na verdade, parece ser de convergência. Tanto Liga da Serie A, quanto FIGC, Uefa e Fifa buscam pontos comuns para poder auxiliar os clubes em dificuldades. Medidas como o relaxamento do FFP são importantes, mas há rumores de que fundos emergenciais de ajuda às agremiações podem ser criados.

Na expectativa pela resolução da situação financeira, os clubes aguardam o rumo de 2019-20 – que será fundamental para todos no âmbito esportivo e para o fechamento das contas. No entanto, ainda parece ser muito cedo para que decisões concretas sobre o futuro da temporada atual do futebol italiano sejam tomadas. Nos bastidores, se avaliam alternativas, mas com certeza o país ficará de olho no campeonato chinês, que provavelmente voltará mais cedo do que os demais: o modelo adotado no país asiático poderá ser reproduzido na Itália. Vale lembrar que essa situação no futebol não pode ser comparada com a pandemia de influenza em 1918. Na época, o futebol era praticamente amador, com quase nenhuma semelhança ao modelo adotado hoje, globalizado e interligado entre os países.

Também é cedo para sabermos qual serão os efeitos totais dessa pandemia, não só no futebol, mas na nossa sociedade como um todo. Este escriba vive na Itália e não consegue sair de casa para um simples passeio no quarteirão há mais de um mês. Isso cria em toda a população obrigada a ficar em quarentena uma sensação inexplicável e incomum de desespero e esperança, de forma que quando eu acordo, penso “mais um dia que não posso sair de casa” e ao cair da noite, antes de ligar a TV no jornal, já aguardo dados mais otimistas, para que eu possa acabar meu dia pensando “será que amanhã poderei sair de casa?”. Não é simples e muitos brasileiros já convivem com esta sensação.

A esta altura, rogamos que as pessoas não recorram a fontes de informação apócrifas. Confiem na Organização Mundial de Saúde e em jornalistas verificados, que estão fazendo um trabalho exemplar nesta crise. Não é momento de acreditarmos em fontes auxiliares e não profissionais; já é uma situação complicada demais para termos que lidar com checagem de fatos e a destruição causadas por fake news. Sem exageros, elas podem custar vidas.

Essa crise vai passar e todo esforço coletivo é necessário. Ciccio Caputo, na segunda parte da mensagem que citamos na abertura do texto, foi taxativo: “fiquem em casa”. O futebol continuará, de um jeito ou de outro, mas as vidas são muito mais importantes. Cuidem de quem é próximo e tomem as medidas de precaução para proteger a si e aos demais. Vai ficar tudo bem.



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