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Isolado da Serie A, Cagliari mostra o que significa, de fato, pensar fora da caixinha

Bandeiras da Sardenha no estádio do Cagliari em dia de partida sem público (Enrico Locci/Getty Images)


Entre as grandes ligas europeias, nenhuma depende tanto de uma só fonte de renda quanto a Serie A. O relatório mais recente da Deloitte mostrou que, a cada € 100 que entram nos caixas dos clubes da primeira divisão da Itália, € 59 vêm de contratos de direitos de TV.

A bem da verdade, 59% da renda da Premier League também vem da TV. O problema da Serie A está na concentração desproporcional do mercado local. Enquanto dois terços dos direitos de transmissão do Campeonato Italiano são faturados na Itália, no Reino Unido esse montante não chega a um terço. Imagine o caos se a maior crise econômica do pós-guerra atingisse a Itália e fizesse as operadoras de TV atrasarem seus pagamentos… Aconteceu.

Aumentar o bolo dos direitos de transmissão e fazê-los serem quitados em dia é urgente para os times italianos, sim, mas, a cada ano, o mercado tem compreendido melhor a outra emergência da Serie A: encontrar novas fontes de receita.

As equipes comerciais da liga e dos clubes foram colocadas para trabalhar em um ritmo ainda mais insano desde o início da pandemia da covid-19. Praticamente todos os acordos foram “mais do mesmo”, com poucos movimentos dignos de nota. A ação mais criativa veio do time (geograficamente) mais isolado do país. E é por isso que este texto vai tratar do Cagliari.

Sardenha x Itália

Qualquer pessoa com mais de 48 horas de experiência no mercado de trabalho já deve ter ouvido a expressão “pensar fora da caixinha” ou qualquer uma de suas variáveis – em geral, vazias de significado. É o que o Cagliari fez.

A história mostra que sempre foi impossível para o clube sardo disputar patrocinadores com os mercados mais ricos do país. Isso faz com que o Cagliari seja, de certa forma, obrigado a convencer empresários ligados à ilha a investirem o máximo que estiverem dispostos. Os três patrocinadores que mais colocam dinheiro no clube são sediados na Sardenha: a Ichnusa, que produz cerveja; a Nieddittas, que cria e exporta mexilhões; e a Fluorsid, especializada em extração e processamento de derivados de flúor. O grupo Fluorsid, vale salientar, é de Tommaso Giulini, proprietário do Cagliari.

Se a Sardenha é uma ilha, literalmente, e a Itália continental não é um mercado acessível para o clube, qual é a saída?

Internacionalização com criatividade

O Cagliari apostou na internacionalização de uma maneira diferente do tradicional. O clube não fez turnê pelos Estados Unidos, não contratou jogadores profissionais de e-sports, não frequentou os pequenos países banhados pelo Pacífico. Entendendo seu tamanho, trabalhou por um ano para criar e começar a colocar em prática um projeto detalhado para fazer o futebol crescer no condado de Xiapu, uma região de 350 mil habitantes em uma das áreas menos populosas da China.

Do início do planejamento ao anúncio oficial, em setembro de 2020, foram 13 meses de trabalho. O diretor-geral do Cagliari, Alberto Passetti, e o embaixador internacional do clube, Daniele Conti, fizeram vários encontros pré-pandemia com técnicos e dirigentes esportivos de Xiapu, tanto na China quanto na Sardenha.

A pandemia, que enterrou diversas ideias promissoras mundo afora, fez crescer a colaboração entre Xiapu e Cagliari. No momento mais difícil da pandemia na ilha, os chineses enviaram 150 mil máscaras e vários produtos médicos para a Sardenha. Quando o pior passou, as tratativas voltaram e o acordo foi finalizado.

Nos próximos meses, treinadores e preparadores das categorias de base do Cagliari vão para a China ensinar uma metodologia “à italiana” aos professores locais. E eles, por sua vez, vão tentar usá-la para melhorar a formação técnica e física dos jovens talentos de Xiapu. Os mais promissores deles podem ser selecionados, quem sabe, para jogar na Itália.

Mas esta não é a prioridade, pois o que se vê em Xiapu não é uma parceria exclusivamente esportiva: é comercial. Os valores do acordo não foram divulgados, mas o Cagliari vai ganhar dinheiro por fazer sua boa ação. E, quem sabe, poderá cobrir ao menos parte do rombo da perda dos direitos de TV.

Anúncio da parceria entre Cagliari e Xiapu (Cagliari Calcio)

Anúncio da parceria entre Cagliari e Xiapu (Cagliari Calcio)

O papel na sociedade civil

O leitor médio da Calciopédia certamente compreende que futebol e sociedade andam unidos. Numa ilha constantemente ignorada por um país que vive em crise política e econômica há tantos anos, toda nova oportunidade é rapidamente percebida.

A possibilidade de uma presença forte em solo chinês do maior time da Sardenha, que carrega o nome da cidade de Cagliari, obviamente fez empresários e políticos locais notarem a chance que está surgindo na direção deles.

No anúncio oficial da parceria, estavam presentes o prefeito de Cagliari, o presidente da “Fiesp sarda” e diversos políticos e empresários da cidade chinesa, que aproveitaram o encontro para tratar de colaborações que, de futebol, não tinham nada. E este é um papel importante ao qual o Cagliari se presta: ao criar um novo ambiente de negócio para os empresários da cidade, o clube se fortalece com seus fiéis parceiros locais, mostrando que as empresas produtoras de cervejas, mexilhões e flúor podem ter a oportunidade inesperada de desbravar novos mercados se não soltarem a mão do time da cidade no momento mais difícil das últimas décadas.



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