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Stefano Eranio levantou taças pelo Milan e fez história por Genoa e Derby County

Nos anos 1980 e 1990, o futebol da Itália se dividia entre adeptos de dois esquemas táticos. Grosso modo, o 3-5-2 da zona mista, herdeiro do catenaccio, e o 4-4-2 moderno de matriz sacchiana – falamos mais sobre esses conceitos neste especial. Em ambos os modelos de jogo, jogadores de lado de campo eram bastante valorizados. Nesse contexto, Stefano Eranio, que atuava como ponta, ala ou lateral pela direita, esteve em evidência, seja pelos títulos com o Milan ou pela contribuição a Genoa e Derby County.

Eranio nasceu em Gênova e deu seus primeiros passos na escolinha de futebol do time de seu bairro, o Molassana Boero. Aos nove anos, o garoto rápido e incansável dava mostras de que poderia crescer no esporte e já foi treinar no Genoa, onde se formou como ponta. Stefano estreou como profissional com apenas 17 anos, na temporada 1984-85, quando foi lançado na Serie B pelo treinador Tarcisio Burgnich.

Em suas duas primeiras temporadas no time de adultos, Eranio passava mais tempo no banco de reservas: realizou 30 partidas neste período. Em março de 1986, numa partida contra o Cesena, Stefano sofreu uma lesão que afetou um de seus rins e teve que passar por uma cirurgia. Após seis meses parado, o meio-campista voltou com todo o vapor e se tornou titular do time comandado por Attilio Perotti, que o conhecia desde a base rossoblù.

O meio-campista se manteve como titular dos grifoni, mas o tradicional time da Ligúria não conseguia retornar à primeira divisão, que não frequentava desde 1984. Isso mudou depois da chegada do técnico Franco Scoglio, em 1988. O treinador, conhecido por seu estilo sanguíneo, apostou em Eranio em toda a campanha, que culminou no título da Serie B: Stefano só ficou de fora de três das 38 partidas do campeonato.

A temporada 1990-91 foi prodigiosa para o futebol de Gênova: Eranio contribuiu com isso ao ser titular dos grifoni (imago)

Então na elite do futebol italiano, o Genoa buscava recuperar as glórias do seu passado. O time não viria a conquistar títulos, mas viveria seus melhores momentos em quase um século. Depois de uma temporada 1989-90 razoável, o presidente Aldo Spinelli trocou Scoglio pelo experiente Osvaldo Bagnoli e colheu os frutos. Eranio também: depois de uma campanha em que ficou afastado por um mês e meio devido a uma lesão, ele recuperou a melhor forma para ajudar a sua equipe.

Na equipe de Bagnoli, Stefano fez uma grande parceria no lado direito do campo com Gennaro Ruotolo, o jogador com mais partidas na história do Genoa. No flanco oposto, Branco dialogava com Mario Bortolazzi e Roberto Onorati, enquanto Tomás Skuhravy e Carlos Aguilera comandavam o ataque. O time deu liga e ficou com o quarto lugar na Serie A, que valia uma vaga na Copa Uefa. Eranio marcou quatro gols naquela campanha, incluindo um na vitória por 2 a 1 no clássico do primeiro turno contra a Sampdoria. Os grifoni mantiveram a invencibilidade contra os blucerchiati, mas acabaram vendo sua maior rival ficar com o scudetto.

A partir daquela temporada, Eranio entrou no radar da seleção italiana. Depois de receber sua primeira convocação, em dezembro de 1990, terminou a temporada com cinco aparições pela Nazionale. No ano seguinte, devido ao bom momento do Genoa, foi utilizado por Arrigo Sacchi mais três vezes.

Em 1991-92, os genoveses fizeram uma grande Copa Uefa e foram longe na competição europeia. O time lígure eliminou o espanhol Real Oviedo, os romenos Steaua e Dinamo Bucareste e, nas quartas de final, deu show sobre o poderoso Liverpool: venceu no Marassi e em Anfield, construindo placar agregado de 4 a 1. No 2 a 1 na Inglaterra, Eranio fez uma jogada incrível: arrancou em alta velocidade, tabelou com Skuhravy e deixou Aguilera sozinho para anotar sua doppietta. Apesar da força mostrada, o time de Bagnoli não foi capaz de passar do Ajax: 4 a 3 na soma dos resultados para o time que seria campeão daquela edição do torneio.

Eranio foi bastante utilizado no Milan, mas conviveu com lesões (Allsport)

O foco na Copa Uefa fez com que o Genoa ficasse na parte de baixo da tabela da Serie A, sete pontos acima da zona de rebaixamento – o risco da queda, porém, nunca foi real e a equipe terminou a temporada 1991-92 com tranquilidade. Como era um dos destaques do time, Eranio atraiu olhares dos grandes clubes do país e foi o Milan que conseguiu o jogador, que realizou 250 jogos e 14 gols pelo Grifone, por 9 bilhões de velhas liras. A intenção era utilizar o reforço como um lateral-direito ofensivo, no lugar do marcador Mauro Tassotti, mas a ideia foi logo descartada.

Apesar de badalado, Eranio não teve tantas oportunidades com Fabio Capello. No extenso elenco do Milan, Stefano precisou dividir espaço tanto com Tassotti quanto com Roberto Donadoni, Gianluigi Lentini e até Dejan Savicevic. Apesar disso, o meia atuou em 21 jogos da Serie A, garantiu seu primeiro scudetto e continuou sendo chamado para a seleção. Em 1993-94, os títulos vieram à baciada: mais um título italiano, uma Supercopa local e a Champions League. Contudo, as chances na Squadra Azzurra diminuíram e a exclusão da Copa do Mundo de 1994 se tornou realidade após a ruptura do tendão de Aquiles, em maio daquele ano.

Dali em diante, o cenário pouco mudou para Eranio no Milan. Ele continuou sendo uma peça de rotação do elenco, sem ganhar ou perder minutos de maneira significativa até 1997. Na seleção, recebeu esparsas convocações até março daquele mesmo ano. Os títulos também diminuíram: o Diavolo ganhou mais uma Serie A, uma Supercopa Uefa e uma Supercopa Italiana.

Apesar disso, Eranio não mostrava descontentamento em Milanello. Isso mudaria, porém, em março de 1997. Logo depois de ser convocado por Cesare Maldini para a seleção, Sacchi o barrou de um jogo contra a Atalanta: Stefano seria o substituto natural de Savicevic, mas o treinador rossonero preferiu utilizar o canhoto Jesper Blomqvist, que nunca atuara pela meia direita, o que deixou o genovês possesso. A relação com o técnico azedou de vez e, no mercado de transferências seguinte, Eranio decidiu não renovar o contrato e assinar com o Derby County, da Inglaterra.

Na Inglaterra, o italiano virou ídolo do Derby County (Allsport)

Em terras britânicas, Eranio teve sucesso. Tido como uma ambiciosa contratação dos Rams, em virtude de seu histórico como atleta, Stefano virou ídolo em Derbyshire. Para começar, o genovês entrou para a história por ter marcado o primeiro gol da história de Pride Park, novo estádio dos alvinegros, ao converter pênalti contra o Barnsley, na Premier League.

Ao longo de quatro anos pelos carneiros, o italiano teve uma parceria de sucesso com o compatriota Francesco Baiano, assumiu a braçadeira de capitão e ajudou o Derby County a fazer duas campanhas tranquilas na primeira divisão, além de evitar o rebaixamento do time em outras duas oportunidades. Nesse período, Eranio se dividiu entre meio-campista e lateral-direito, virando ídolo do clube pela enorme dedicação.

O meia iria se aposentar em 2001, mas foi convencido pelo técnico Jim Smith a permanecer na equipe – no entanto, optou por sair em outubro, quando o comandante foi demitido. Eranio fez 96 partidas pelo Derby, com sete gols marcados, e em 2009, quando o clube completou 125 anos, foi eleito pela torcida como um dos 11 melhores atletas da história dos Rams.

Após deixar o Derby County, Eranio voltou para a Itália e esperou por uma oferta do Genoa, que nunca ocorreu. Frustrado por não ter as expectativas correspondidas, Stefano aceitou o convite da Pro Sesto e foi atuar na quarta divisão em fevereiro de 2002: lá, ele exerceu as funções de jogador e auxiliar técnico ao mesmo tempo, até encerrar a carreira em 2003, com quase 37 anos.

Eranio fez história no Derby: foi escolhido como um dos maiores de todos os tempos dos Rams (Allsport)

Eranio continuou ligado ao futebol depois de pendurar as chuteiras. O genovês comandou as categorias de base de Milan e Genoa, além de ter sido auxiliar do Livorno. Também foi comentarista esportivo de grandes redes televisivas até cair em desgraça por um comentário racista no pós-jogo de Bayer Leverkusen 4-4 Roma, pela Champions League, em outubro de 2015.

Sobre o zagueiro Antonio Rüdiger, ele disse o seguinte: “Os jogadores negros, quando estão na linha defensiva, costumam cometer certos erros porque não estão concentrados. São fisicamente poderosos, mas quando precisam pensar, costumam falhar dessa maneira”. Eranio acabou demitido e nunca mais conseguiu outra ocupação em redes de TV ou em clubes de relevo. Um melancólico destino para alguém que pode conhecer diferentes culturas e que tanto fez pelo esporte, um dos maiores instrumentos de comunhão entre os povos.

Stefano Eranio
Nascimento: 29 de dezembro de 1966, em Gênova, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Genoa (1984-92), Milan (1992-97), Derby County (1997-2001) e Pro Sesto (2002-03)
Títulos conquistados: Serie B (1989), Serie A (1993, 1994 e 1996), Supercopa Italiana (1992, 1993 e 1994), Champions League (1994) e Supercopa Uefa (1994)
Seleção italiana: 20 jogos e 3 gols

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