Serie A

Cassano, o anti-herói italiano



A “cassanata” é um termo que qualquer italiano apaixonado por futebol conseguirá explicar em poucos segundos, mas ao mesmo tempo uma espécie de sentimento que nenhum dicionário saberá traduzir. Porque a “cassanata” acabou se tornando a marca registrada da carreira de Antonio Cassano, criada numa coletiva por Fabio Capello, então técnico da Roma e hoje comandante da seleção inglesa. Era novembro de 2002 e o técnico explicava sua exclusão de uma partida com o Perugia.

Hoje com 26 anos, Cassano é uma das figuraças do campeonato italiano. Mas quando o talento da Bari Vecchia marcou um golaço contra a Inter, com apenas 17 anos, esperava-se que dali saísse apenas futebol em alto nível. Ilusão. Segundo o próprio jogador, aquele gol serviu apenas para tirar um delinqüente do mundo. É o que Cassano declarou numa autobiografia a ser lançada nesta semana, na Itália. No ambiente do futebol, porém, o barês nunca deixou faltar emoção. Em campo ou fora dele.

O mês é dezembro de 1999. O motor é a ironia. Depois de ser barrado por peneiras da Internazionale por duas vezes, Cassano jogava pela primavera do Bari, mas já pensava em abandonar o sonho de ser jogador. Mas, com problemas ofensivos, o técnico Eugenio Fascetti arriscaria. E em sua segunda partida como profissional, Cassano se tornou tema do noticiário esportivo italiano ao marcar nos minutos finais o gol decisivo dos 2 a 1 sobre a Inter. Ao ser perguntado o que tinha pensado após marcá-lo, a resposta foi simples: “fiquei rico”. Nada mal para quem havia passado a infância na miséria.

Com o gol marcado poucos dias antes da reabertura da janela de transferências, estava instaurada a guerra por Cassano. Que o Bari seguraria até junho de 2001, quando Franco Sensi, então presidente da Roma, o levou por um equivalente a 28 milhões de euros. Mesmo com a alta cifra, o atacante não se deixou iludir. Ao menos não na primeira oportunidade. Ao fazer juras de amor por Francesco Totti, o capitão passou a hospedá-lo em sua mansão em Casal Palocco.

Após várias boatos jamais esclarecidos, porém, Cassano acabou saindo da proteção de Totti. No vestiário romanista, causou intrigas com duas canetas. Ao passar a bola por baixo das pernas de Batistuta, num treinamento, disparou para o argentino: “agora é um velhinho”. Para Aldair, foi ainda mais pesado: “está como sua mãe, sempre com as pernas abertas”. O suficiente para colocá-lo contra os senadores do elenco e na mira do brasileiro, que por muito pouco não resolveu ali mesmo suas diferenças com o atacante.

Com um ano em Roma, Fantantonio já era figura discutida e discutível no ambiente capitolino. Logo em sua segunda temporada, entrou em atrito também com Capello, ao faltar a um treinamento sem algum pré-aviso. O técnico reclamou do egoísmo do jogador: “deve demonstrar querer ser ajudado. Não como jogador, mas como homem”. O apelo não funcionou como deveria. Três semanas depois naquele mês de novembro, Cassano foi detido ao dirigir uma Mercedes 5000 sem habilitação e ultrapassar um sinal vermelho.

No março seguinte, Cassano seria convocado por um de seus maiores desafetos de toda a carreira, o técnico da seleção italiana sub-21, Claudio Gentile. Mas uma “lesão” acabou obrigando seu retorno à capital. A lesão foi uma escapada noturna com uma camareira do hotel onde estava alojada a seleção. Apenas uma entre centenas. Em sua autobiografia, Cassano declara ter se aventurado com algo entre 600 e 700 mulheres. Mas o resultado geralmente era bom. Em fevereiro de 2004, fez uma de suas melhores partidas da carreira, marcando dois gols na Juventus na vitória de 4 a 0 da Roma. Naquele dia, Cassano teria ficado até as seis da manhã com uma acompanhante.

Essa goleada foi o último grande feito do time sob o comando de Capello. Com 22 anos e muita responsabilidade nas costas, teria sido Cassano o maior responsável pelo pedido de demissão relâmpago do técnico Rudi Völler, incapaz de domá-lo nos vestiários. Com Luigi Del Neri não foi melhor e bastou um mês até que Cassano fosse afastado do elenco após uma briga entre técnico e jogador no intervalo de uma partida com o Cagliari. A declaração da administradora-delegada Rosella Sensi dava o tom: “não podemos sacrificar o trabalho de um grupo de profissionais por apenas um jogador. Mas Cassano fica na Roma, não falamos em venda”.

Afinal, problemático ou não, Cassano resolvia em campo e era um patrimônio do clube. E bastaram duas rodadas para que fosse reintegrado ao elenco de forma sofrível, já sem apoio do grupo e da torcida. Sem mostrar ânimo em campo e sempre culpando os técnicos, o jogador viu Spalletti lhe retirar o posto de vice-capitão do time. O recém-chegado comandante também não foi perdoado: “você não está treinando mais aqueles pernas-de-pau da Udinese. Isso aqui não é a sua casa, é a minha!”.

Na Roma, Cassano durou até janeiro de 2006, quando saiu por apenas cinco milhões de euros para o Real Madrid. Ficasse até junho na capital, o prejuízo financeiro seria ainda maior. O grande pretexto para sua venda foi a não-renovação contratual, já que Cassano exigia da sociedade o mesmo salário de Totti – algo impensável dentro do ambiente romanista. O Peter Pan viveu amor e ódio em seus melhores dias na Roma. Que a faixa de capitão na Sampdoria saiba conter seus ímpetos de forma mais duradoura.

(originalmente para o Olheiros.net)


1 comentário

  • Pena que Cassano tenha esse perfil. É um ótimo jogador: rápido, veloz, habilidoso. Mas realmente, esse tipo de jogador é, muitas vezes, um problema para um clube. Ainda mais na Roma, onde tem jogadores importantes, de grande habilidade e de nome, como Francesco Totti. No Real Madrid ainda mais. Com tantos nomes de peso, é claro que Cassano só iria arrumar confusão e não duraria muito tempo por lá.

    Na Sampdoria, o atacante não tem com quem dividir o nome. Ele é o craque. Não há vaidades. Por isso ele é considerado o tal na Samp. A torcida blucerchiata tem ele com quase um ídolo. E hoje, na partida contra o Lecce, marcou um belo gol.

    OBS:

    600 ou 700 mulheres? Mamma mia! (hehehehe)

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