Serie A

Crime sem castigo

Balotelli, foco dos racistas de toda a Itália, trouxe o tema novamente à tona (AP Photo)

Não é de hoje que todo o mundo conhece a problemática extracampo do futebol italiano, que envolve desde a estrutura precária dos estádios a problemas que envolvem torcedores e segurança, muitas vezes originados exatamente por esta falta de estrutura dos palcos do Calcio. O problema com a torcida, em especial, tem se tornado praticamente incontornável nos últimos tempos. Contribuem para isso o descaso e a aparente falta de vontade em resolver a problemática, por parte da Lega Calcio.

É possível citar vários casos recentes de violência protagonizadas nos estádios italianos ou em volta deles. Alguns dos mais importantes foram a interrupção da partida entre Atalanta e Milan, por conta de ações de vandalismo comandada pelos ultrà (como são conhecidas na Bota as torcidas organizadas formadas por extremistas), após a morte do torcedor laziale Gabriele Sandri; a morte do policial Filippo Raciti, morto em confronto com torcedores do Catania; a interrupção do mais recente dérbi entre Roma e Lazio por conta de confrontos de torcidas com morteiros… problemas relacionados à violência e aos ultrà já foram abordados aqui no blog, neste texto do Braitner. No entanto, outro problema tem sido recorrente nos estádios italianos. Agravado pela ascensão de Mario Balotelli a jogador mais odiado do país, cânticos e vaias racistas a jogadores como o próprio Balotelli, Sissoko, Luciano e Dida são um dos principais problemas do futebol italiano.

É justamente nos campos de Juventus e Chievo, que jogaram neste domingo, que Balotelli tem sofrido vítima freqüente de racismo. Nesta temporada – e também na última – o atacante da Inter foi perseguido por parte dos torcedores que estavam presentes aos estádios. Balotelli chega a ser agredido até mesmo quando não está em campo: a Curva Sud da Juventus já insultou o jogador quando a Velha Senhora atuava contra Napoli, Udinese e até mesmo na Liga dos Campeões, contra o Bordeaux. Da última vez que o nerazzurro foi insultado, em Verona, não aguentou e disse que “dá nojo jogar para o público de Verona”. Em decorrência disso, foi multado em sete mil euros por “atitude indisciplinada”, enquanto o Chievo não foi condenado em qualquer instância.

O descritério e a falta de rigidez das punições da Lega Calcio é um dos aspectos por dentro do problema. Descritério quando, por exemplo, o Napoli foi multado em quinze mil euros porque torcedores usaram lasers para atrapalhar jogadores adversários, enquanto a Juventus, reincidente, foi multada em cinco mil euros a menos, por cânticos racistas. Quando atrapalhar o espetáculo vale multa maior do que o desrespeito a humanidade, alguma coisa está fora da ordem. O segundo problema são as brandas punições. Pelo terceiro caso de racismo em sua torcida num período de três meses (desta vez agravado por quebra-quebra no Olímpico de Turim), a Juventus foi multada em apenas quarenta mil euros e terá de enfrentar a Roma sem a Curva Sud, sua torcida tradicional. A Lega Calcio não avalia nem ao menos existe a possibilidade de se prenderem os envolvidos nos crimes.

A Inter, que também tem frutos podres entre seus torcedores, foi multada, após a mesma partida de Verona, em quinze mil euros por ofensas racistas ao brasileiro Luciano. Não foi a primeira vez que torcedores da equipe nerazzurra protagonizaram um episódio de racismo. Quando os ultrà não tinham receio de serem filmados nos estádios portando instrumentos do preconceito, faixas ofendendo os moradores do sul da Itália poderiam ser vistas não só no Giuseppe Meazza mas em praticamente todos os estádios do norte italiano. Porém, o caso mais famoso foi o que envolveu o marfinense Marc Zoro, ex-Messina, ofendido por ultrà interistas da Curva Nord. O defensor chegou até mesmo a paralisar a partida para deixar o campo, mas foi convencido a voltar. Jogadores negros daquela Inter, como Adriano e Martins, tentaram acalmar os ânimos de Zoro e dos torcedores.

Episódios como estes, originados de dentro da torcida de um dos clubes que tenta coibir o racismo na Itália atualmente, por conta justamente de Balotelli, mostram que o preconceito às etnias é um problema cultural italiano, impregnado nas entranhas de seu povo. José Mourinho estava certo quando disse que praticamente todo o estádio entoava um cântico que dizia que “não há italianos negros”, após o empate entre Juventus e Inter, na última temporada. Boa parte dos italianos realmente pensa assim. E, os que não pensam dessa maneira, não são tão combativos quanto a situação pede. Massimo Moratti chegou a dizer que retiraria o time de campo se estivesse em Turim, mas não retirou em outras oportunidades, quando estava no estádio.

Um instrumento criado neste ano, chamado Tessera del Tifoso (um cartão de identificação dos torcedores), tem, entre outros objetivos, a função de inibir a violência nos estádios. Obrigatórias para os torcedores que quiserem assistir aos jogos fora de casa de seu time e vetada a torcedores com histórico de violência, a carteira é obviamente rechaçada pelos ultrà. Até o momento, a iniciativa parece não estar dando os devidos resultados. Além disso, enquanto alguns dirigentes, como Ivan Ruggeri, da Atalanta, tentam bater testa com as torcidas organizadas, dirigentes como Maurizio Zamparini, do Palermo, e políticos como Flavio Tosi, prefeito de Verona, dão declarações que podem incitar a violência nos estádios. Zamparini é abertamente contra o cartão fidelizador, enquanto o prefeito “autorizou” o racismo a Balotelli, chamando-o de “imaturo e presunçoso”, após o jogo da semana passada. Os interessados podem ler mais sobre a Tessera del Tifoso aqui (em italiano) e aqui (em português).

O futebol italiano está ficando para trás. Estádios velhos, gramados precários, arcaicos planejamentos de marketing e distribuição de direitos televisivos, hooliganismo tardio e falta de educação dos torcedores. A modernização das ligas italianas, divididas em duas associações diferentes para cuidar da Serie A e da Serie B, no lugar da Lega Calcio, traz a esperança de dias melhores. Administradas (teoricamente) ao modelo inglês, a promessa é de maior organização e de maior lucratividade para as equipes das duas divisões. Até agora, esta modernização parece referir, em sua maior parte, a avanços econômicos. Se ela não considerar os problemas de torcidas (incluindo aí, o racismo), a situação decadente do calcio pouco mudará. Apenas chutando o racismo para fora do futebol é que o esporte voltará a crescer na Itália.

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