Serie A

Hellas Verona, o último campeão provincial

O nobre decaído mais amado da Itália
Quando, em 17 de maio de 2008, no acanhado campo de Busto Arsizio, província de Varese, mais de 5 mil torcedores do Hellas Verona ocuparam os pouco mais de 7 mil lugares do estádio, ninguém mais teve dúvidas de que aquele clube, que tinha sido campeão italiano e agora jogava a permanência na então Serie C1, estava vivo – por mais que o campo desse outra sentença.

Só agora, quase três anos depois desse histórico (ainda que triste) jogo, o Hellas Verona reuniu as condições necessárias para tentar sair da Lega Pro. Foi determinante a contratação do diesse Nereo Bonato – o homem por trás do milagre esportivo que levou o Sassuolo da antiga C2 à Serie B. Bonato, por enquanto, está sabendo potencializar os resultados modestos da temporada 2008/09, em que o Hellas Verona ficou na 7ª posição. Hoje, o Verona lidera o grupo B da 1ª Divisione, e conta com um bom elenco para tentar o retorno à Serie B.

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O Hellas Verona nasceu, simplesmente, Hellas, pois seu fundador – Corrubolo – era professor de língua grega e batizou o clube em homenagem à nacional helênica. Suas cores, desde sempre, são o amarelo e o azul, presentes no brasão da cidade de Verona. Era um tempo em que o futebol vêneto engatinhava, em comparação ao que se fazia no Piemonte, na Lombardia, e na Ligúria. Na década de 1910, o Hellas se funde com o Verona, e nasce, assim, o Hellas Verona. Mais tarde, na década de 1920, devido à questão de quem usaria o estádio municipal, o Hellas Verona, coroado pela gente de Verona como a equipe da cidade, fundiu-se com a Scaligera e o Bentegodi (então seu maior rival, mas preterido pelo público da cidade): assim, nasce o Verona.

Com o profissionalismo, o Verona é admitido na Serie B, em 1929-30. Retrocede à Serie C em 1941, e de lá retorna, em 1943. A primeira promoção para a Serie A aconteceu em 1956/57; uma emoção que durou apenas uma temporada. De volta à Serie B, o Verona absorve uma pequena equipe da cidade que fora promovida da Serie C; chamava-se Hellas. Nasce, assim, o Verona Hellas. O Verona voltaria à Serie A em 1967/68, e cairia apenas em 1973/74, para voltar já na temporada seguinte. Em 1975/76, o clube consegue seu primeiro grande sucesso: a final da Coppa Italia, em que foi derrotado pelo Napoli (4×0).

É interessante observar que, poucos anos antes (1971) nasceriam as Brigate Gialloblù, o grupo de ultra’ mais famoso do Verona e, durante anos, um dos maiores da Itália. A final da Coppa Italia, contra o Napoli, foi célebre, não só pelo que representou no terreno de jogo: estavam em disputa ideologias territoriais (o Norte contra o Sul) e políticas, sendo a gente do Napoli orientada para a esquerda – contando, na época, inclusive, com amizade e apoio dos torcedores da Roma, uma vez que a final fora realizada no estádio Olímpico – e aquela do Verona adepta da extrema direita; há quem diga, inclusive, que o nome Brigate Gialloblù foi inpirado nas Brigate Nere, de Mussolini (fato este, porém, que não impediu a seus membros fomentar uma grande amizade com os ultra’ da Fiorentina, desde sempre de postura esquerdista).

Em 1981/82, na Serie B, chega a Verona o técnico Osvaldo Bagnoli, que inciou uma era de ouro no clube. Na sua reestréia na máxima série, em 1982/83, o clube consegue uma inédita vaga na Copa da UEFA, e sua segunda final de Coppa Italia, desta vez perdendo o centrino para a Juventus. Na temporada seguinte, mais uma final de Coppa, e mais um vice-campeonato, agora para a Roma, de Falcão. Em 1984/85, o Verona Hellas venceu o tão sonhado scudetto, liderando da primeira à última rodada. Elkjaer, aclamado nas arquibancadas como “prefeito” de Verona, marcou o gol (penúltima rodada: empate em 1×1, com a Atalanta, em Bérgamo) que fez do Verona a única equipe de uma cidade não-capital de região a ser campeã nacional e participar da Copa dos Campeões (atual Champions League). Ainda nos anos 1980, o Verona conseguiu mais uma classificação para a Copa da UEFA (1986/87) antes de cair para a Serie B, em 1989/90 e enfrentar um período de decadência, marcado por uma falência e acessos seguidos de rebaixamentos

Em 1998/99, o então presidente Pastorello (o personagem mais odiado da história do clube, por suas operações ilícitas) traz o técnico Prandelli, que surpreende a cidade e a Itália ao levar o Verona ao título da Serie B, para ficar na série máxima até 2001/02, a última temporada do time na elite. Antes de cair para a atual Lega Pro, o clube viveu seis temporadas anônimas na Serie B. No primeiro ano de Lega Pro, o fantasma de um novo rebaixamento foi exorcizado apenas no último minuto dos play-outs, contra a Pro Patria. Com a passagem de propriedade para Martinelli, o Verona parece pronto a se reinventar e voltar a viver dias de mais esperança.As temporadas
24 na Serie A, 49 na Serie B e 5 na Serie C/Lega Pro.

Os rivais
Por ter conquistado muitos sucessos além dos confins regionais, o Hellas Verona possui rivais em toda a Itália; uns, claro, mais ferrenhos que outros. No Vêneto, a rivalidade citadina com o Chievo é ofuscada pelos derbys com o Vicenza. Os jogos com Padova e Venezia também geram grande expectativa, embora tenham acontecido pouco, nos últimos anos. Nas demais regiões, o Hellas Verona ostenta rivalidades históricas com Napoli, Genoa, Brescia, Atalanta, Juventus, Milan, Roma, Cesena e Reggina.

Os brasileiros
Os jogadores brasileiros sempre tiveram grande espaço no Hellas Verona. Basta lembrar que Arnaldo Porta, que jogou entre as décadas de 1910 e 1930 é, até hoje, o maior artilheiro do clube. O primeiro dos mais famosos brasileiros do Verona, porém, foi o camisa 10 Dirceu Guimarães (ex-Coritiba), que participou da temporada 1982/83. O último tupiniquim de sucesso foi o atacante Adaílton, atualmente no Bologna. Atualmente, são três os brasileiros do Verona: o goleiro Rafael (ex-Santos e São Bento), o meia Farias e o atacante Jorginho.

Os selecionáveis
O primeiro scaligero azzurro foi o atacante Virgilio Levratto, ainda nos anos 1920. Recordamos, também: o zagueiro, Luigi De Agostini, o meia Pietro “Pierino” Fanna, o atacante Giuseppe “Nanu” Galderisi, o líbero Roberto Tricella, e o defensor Massimo Oddo.

O onze histórico
Claudio Garella; Roberto Tricella, Wladyslaw Zmuda, Thomas Berthold e Anthony Seric; Damiano Tommasi, Hans-Peter Briegel, Antonio Di Gennaro e Pietro Fanna; Preben Elkjaer Larsen e Adrian Mutu. Técnico: Osvaldo Bagnoli.

Quem mais jogou
Luigi Bernardi, meio-campista, 337 partidas.

Quem mais marcou
Armando Porta, atacante, 74 gols.


Colaborou com este texto: Ubiratan Leal

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