Serie A

No meio do campo há um novo campeão

Diego Milito é o dono da Tríplice Coroa: gol na final da Coppa Italia, na “final” da Serie A
e mais dois na final da Liga dos Campeões (Getty Images)

A frase que intitula este texto, verso de Pazza Inter, hino extraoficial da equipe nerazzurra, poucas vezes foi tão sincera. No campo do Santiago Bernabéu, em Madrid, havia uma novíssima campeã: a Inter, redimensionada por José Mourinho, vencia a maior competição de clubes da Europa após 45 anos de espera. Além disso, o clube alcançava um feito histórico e sem precedentes no futebol italiano: é a sexta equipe europeia a conquistar a Tríplice Coroa, fechando uma temporada praticamente perfeita. A Inter, segundo seu site oficial, é campeã ao cubo. Uma vitória que também ajuda o futebol italiano, que mantém, para a próxima temporada, as quatro vagas para a Liga dos Campeões – quase que exclusivamente por conta da campanha da Inter, já que as outras equipes do país não foram felizes em solo internacional nos últimos meses.

Na final de Madrid, a Inter jogou da mesma maneira como venceu seus mais importantes jogos na temporada. Cínica, a equipe de Mourinho deixou a posse de bola para o Bayern de Munique, que concluiu o jogo com 66% dela, contra apenas 34% por parte da Inter. Porém, os bávaros não conseguiam capitalizar a posse de bola em chances de gol, porque os jogadores da Inter ocupavam bem os espaços, limitando o futebol do Rekordmeister. Arjen Robben, melhor jogador do time alemão na temporada, pouco fez, embora Chivu parecesse nervoso ao marcá-lo. Dessa maneira, Júlio César só encontrou dificuldades logo na saída da segunda etapa, quando o Bayern surpreendeu ao partir pra cima logo na saída de bola e Müller obrigou o brasileiro fazer grande defesa com os pés. Vinte minutos depois, Robben o obrigou a espalmar para longe um chute mais venenoso. Fora isso, apenas uma bola afastada de cabeça por Cambiasso e chutes ao lado de sua meta.

Noventa minutos para marcar
A Inter, por sua vez, teve ocasiões mais perigosas em toda a partida. Sneijder tentou marcar no estádio do clube que o mandou embora, mas suas cobranças de falta não foram as mesmas de ao longo da temporada, embora o goleiro Butt até tivesse encontrado alguns problemas para evitar que a bola entrasse. Por outro lado, o holandês foi fundamental no lance que abriu os trabalhos para a Inter: Júlio César mandou um balão para frente, que Diego Milito ganhou no alto do compatriota Demichelis e desviou de cabeça para Sneijder dominar e deixar o atacante, que já havia aproveitado o espaço deixado pelo zagueiro, na cara do gol. Milito ainda deu uma paradinha antes de tocar por cima de Butt e se emocionar, como se não acreditasse no que estava acontecendo. Pouco depois, a Inter ainda teve a chance de fazer o segundo, quando Cambiasso e Sneijder puxaram contra-ataque, Milito recebeu do lado esquerdo do ataque e, fazendo às vezes de garçom, apenas rolou para Sneijder bater em cima de Butt a chance mais clara do jogo.

Na volta para o segundo tempo, o jogo cresceu um pouco, com o Bayern precisando do resultado, mas esbarrando na parede interista, acostumada a jogar sem pressão, com o resultado a seu favor. Além da chance de Müller, a Inter teve uma grande oportunidade quando Milito recebeu de Pandev, driblou van Buyten e devolveu para o macedônio chutar bonito e obrigar Butt a mandar para escanteio uma bola que ia o encobrindo. Menos de 20 minutos depois. Sneijder começou contra-ataque e tocou para Eto’o, recuado e exercendo, como em grande parte da temporada, um papel de organizador de jogo, muito mais tático que o definidor dos tempos de Barcelona, pois Milito ocupara esta função.

A bola só passou pelos pés do camaronês e logo estava com Milito, na intermediária, para que fosse completada a obra-prima da partida: Il Principe carregou a bola para cima da marcação de van Buyten e, dentro da grande área, entrortou o zagueiro com um de seus inconfundíveis cortes, antes de bater de chapa para as redes. Mais emoção para um incrédulo Milito, que fechou o caixão com sua doppietta – sexto gol na LC, atingindo a marca de 30 gols na melhor temporada de sua carreira.

Por um gol, eu daria a vida
Milito, por sua vez, merece um capítulo a parte na história da temporada nerazzurra. O time se queixava da ausência de um jogador extremamente decisivo, função à qual Zlatan Ibrahimovic não se adequadava completamente. Eto’o foi contratado para assumir este papel, numa Inter que se reforçava para vencer na Europa. O camaronês, então bicampeão europeu com a camisa do Barcelona, era o homem indicado para dar cancha internacional aos nerazzurri. Eto’o, no entanto, foi muito mais um líder nos vestiários e no campo do que o jogador que decidia partidas com gols, à exceção do jogo contra o Chelsea, na própria LC.

A função de decidir, no fim das contas, ficou com Diego Milito. O argentino, que chegou a negociar com a Roma, marcou todos os gols decisivos na campanha vitoriosa desta temporada. Se em Gênova ele era chamado de homem-dérbi, em Milão seu faro de gol para jogos importantes não decepcionou. Nos jogos que valiam a consagração de um título, apenas gols seus: na final da Coppa Italia, no jogo que fechou a Serie A e, para fechar com chave de ouro, uma doppietta na final da LC.

Embora Il Principe já houvesse provado seu poder de decisão no Genoa, tem “abusado” deste na Inter, onde foi conquistando tal espaço pouco a pouco. Além dos gols supracitados, Milito fez dois gols e deu duas assistências nos dérbis contra o Milan, abriu os trabalhos contra o Chelsea e, no jogo da temporada, contra o Barcelona, marcou um gol e deu mais duas assistências – sem contar com os gols em jogos menores, mas igualmente complicados. O Goal.com já chegou a elaborar uma lista com seus gols mais decisivos.

Por mais que Sneijder dê o toque de criatividade no meio-campo interista, não há dúvidas de que Il Principe foi o homem da temporada. Há quem faça até trocadilhos e chame o time de “Inter de Milito”. Ele já recebeu propostas de outros clubes, mas deve ficar em Appiano Gentile, com um reajuste de salário na extensão do contrato que deve ser oferecida nos próximos dias.

É um sonho que tenho
José Mourinho, outro nome fundamental na conquista nerazzurra, deve deixar o clube. O técnico de Setúbal crê que seu trabalho em Milão já foi concluído, após ganhar tudo o que podia com o clube e se tornar um dos maiores treinadores do clube, ao lado do argentino Helenio Herrera. Mourinho afirma que o mais importante em todo o trabalho realizado foi devolver a Inter uma mentalidade vencedora, sobretudo em nível internacional, perdida ao longo de quase duas décadas de sofrimento e humilhação perante as rivais. Durante a década de 90 e metade dos anos 200, Milan e Juventus dominaram o futebol italiano e venceram a LC, pelo menos uma vez: o Milan, rival citadino, venceu quatro, colocando ainda mais em jogo a honra interista.

Em dois anos treinando a Beneamata, Mourinho transformou o ambiente do clube – dentro e fora de campo. O português preza pela coletividade e conseguiu unir o grupo em torno de seus objetivos, seja fazendo todos crerem num bem comum ou fazendo os jogadores acreditarem que todos na Itália estavam contra a Inter. Fato é que os jogadores treinados por ele sempre se doam pelo time. Contra o Bayern, não parecia que muitos ali, como o capitão Zanetti (de quase 37 anos) já tinham feito mais de 50 partidas em um ano. Dentre os principais acertos do técnico, ainda devemos levar em consideração que foi ele que indicou contratações fundamentais para a constituição desse elenco, como Lúcio e Sneijder.

Mourinho também pensou em deixar um legado para as gerações futuras. Seu discurso sempre foi o de quem sabia que não ficaria no time para sempre, mas que desejaria deixar uma base sólida para que as próximas gestões do clube fossem mais organizadas. Ele solicitou que fossem feitos investimentos no centro de treinamento da equipe, em Appiano Gentile, bem como se gastasse mais verbas com o vivaio do clube, para fortalecer as divisões de base. Assim, foram construídos novos e mais modernos campos de treinamento, inclusive para as equipes de futebol júnior – quesito fundamental para aquelas equipes que desejam ter sucesso no futebol juvenil. Porém, se sempre foi querido pelo elenco, de maneira geral, e amado pelo presidente Massimo Moratti, sua relação com o ambiente futebolístico italiano sempre foi conturbada. Envolvido em constantes polêmicas com jornalistas, técnicos e dirigentes de outras equipes, Mourinho cansou do futebol italiano. Quando declarou silêncio à imprensa e ficou recluso ao ambiente interista, teve o momento mais sossegado e feliz de sua carreira na Itália.

Mourinho precisa de desafios – máxima que rafirmou na coletiva pós-jogo de sábado. Mourinho também nunca escondeu que gostaria de treinar um clube da Espanha, para completar a tríade de grandes campeonatos europeus em que gostaria de trabalhar. Após vencer em Portugal, na Inglaterra e na Itália, o desejo do ambicioso português é fazer história também em La Liga. Se seu destino for mesmo Madrid, o clube deverá desembolsar 16 milhões de euros para contar com seu talento, segundo o presidente Massimo Moratti.

Em Chamartín, Mourinho terá pela frente o mesmo Barcelona com o qual protagonizou diversas polêmicas ao longo da carreira. Terá a responsabilidade de fazer o Real Madrid desbancar o grande futebol dos rivais, comandados por Xavi e Messi e, ainda por cima, dar o título de campeão europeu aos merengues, maiores vencedores da história da competição, mas sem um título desde 2002 e empacando nas oitavas-de-final nos últimos anos. Aos 47 anos, conquistou títulos de todas as competições disputadas, é o melhor técnico da atualidade e já é um dos grandes técnicos da história. É o Special One, que também pretende levar Maicon para Madrid, segundo a imprensa europeia. E, substituir os melhores é sempre uma missão quase impossível. Para o lugar do português, fala-se em Rafa Benítez, Fabio Capello ou Sinisa Mihajlovic.

Cambiasso veste camisa de Facchetti: líder em campo, será ele o sucessor de Zanetti? (Getty Images)

Pode durar uma vida ou uma única partida
Qual dos torcedores interistas não esperou para ver o capitão Javier Zanetti levantar o título europeu? Il Capitano, há 15 anos no clube (uma das primeiras aquisições de Massimo Moratti como presidente) e há dez com a faixa de líder em campo, tem se acostumado a levantar títulos em sequência apenas desde 2004. Antes disso, quando ainda não era campeão, havia comemorado apenas uma Copa da Uefa, em 1998. Ídolo do clube, mas símbolo de um momento amargo para a história da Beneamata, Zanetti merecia uma história mais rica em títulos, para coroar o grande exemplo de profissional que construiu durante sua carreira. Marcus Alves, da Revista Espn, resumiu muito bem porque ele merecia.

Pupi quebrou recordes e mais recordes em Milão: com 137 jogos consecutivos pela Serie A, só perde para Dino Zoff em presenças em sequência pelo torneio. Na Inter, superou o ex-presidente Giacinto Facchetti como segundo jogador mais presente na história do clube (atrás apenas de Giuseppe Bergomi) e, em uma de suas melhores temporadas pelo clube, igualou o feito do mítico capitão interista dos anos 1960. Ao levantar o troféu, Zanetti entra para a história da Inter na Europa ao lado de Cipe Facchetti. Para completar a explosão de alegria, Zanetti fez sua 700ª partida vestindo nerazzurro no sábado, justo quando teve a honra de levantar a taça das grandes orelhas, confirmando a Tríplice Coroa. Infelizmente, um jogador com tanto prestígio – dentro e fora dos campos – não disputará mais uma Copa do Mundo. Assim como Cambiasso, que se multiplica por dois no meio-campo da Inter e foi protagonista da temporada vitoriosa. Líder do time e quase um técnico dentro em campo, chegou a vestir a camisa de Giacinto Facchetti e é estimado pela cúpula interista para suceder Zanetti como capitão nerazzurro após a aposentadoria do lateral.

Aquela Inter da década de 1960 foi justamente o exemplo para a Inter desta temporada. Desde o catenaccio de Mourinho contra o Barcelona, se compara este time com aquele, de Angelo Moratti, Giacinto Facchetti e Sandro Mazzola. Um dos motivos para comparações é o fato de o atual presidente do time ser filho de Angelo Moratti, dono do clube à época. Massimo, que adquiriu a Inter em 1994, passou por duros momentos na presidência do clube. Em um período de muita pressão, não conseguia fazer o time superar Juventus e Milan e, paternalista demais, cometia muitos erros na gestão do clube e na política de contratações.

Porém, nos últimos anos Moratti tem sido sensato. Permitiu-se um maior afastamento na política de contratações do clube, atuando muito mais como um negociador ou como figura diplomática do que como pensador de mercado – função atribuída a Marco Branca, diretor esportivo. A ele também cabem alguns outros trunfos, como a negociação com o Barcelona por Ibrahimovic e Eto’o, quando conversou com seu amigo Joan Laporta e fechou o negócio, maior aposta vencida do excelente mercado da Inter nesta temporada. Hoje, Moratti busca construir uma Inter recheada de ex-jogadores em seu interior: Gabriele Oriali, Marco Branca, Giuseppe Baresi e Luis Figo já desempenham funções administrativas dentro do clube. Roberto Baggio também pode assumir um cargo administrativo e, na construção desta “Inter para os interistas”, Mihajlovic larga na frente para assumir o comando técnico do clube.

Em homenagem aos interistas, o título e cada intertítulo do texto são partes de Pazza Inter. Confira aqui os coros da torcida nerazzurra para o time, da Gazzetta dello Sport. Confira também o especial da Gazzetta dello Sport sobre a final da LC, além da repercussão na Trivela, na ESPN, no Balípodo e no blog do Lédio Carmona.

Bayern de Munique 0x2 Inter
Bayern de Munique: Butt; Lahm, Van Buyten, Demichelis, Badstuber; Van Bommel, Schweinsteiger; Robben, Müller, Altintop (Klose); Olic (Gomez).
Inter: Júlio César; Maicon, Samuel, Lúcio, Chivu (Stankovic); Zanetti, Cambiasso; Eto’o, Sneijder, Pandev (Muntari); Milito (Materazzi).
Árbitro: Howard Webb, da Inglaterra.
Gols: Diego Milito (Inter)
Cartões amarelos: Demichelis e Van Bommel (Bayern); Chivu (Inter).

Deixe um comentário